A Lei do Amor
21 Capítulo 21
Notas iniciais

Capítulo 21
— ‘Hayouuu — Kiba resmungou preguiçoso ao entrar na cozinha.
— Ohayou — Shino respondeu, lavando umas louças que usara para preparar o café da manhã.
Meio arrastando-se, Kiba foi sentar numa das cadeiras. Acabou gemendo alto ao se acomodar, incapaz de evitar.
— Agora eu sei porque mandar alguém tomar no rabo é ofensivo — ele choramingou inclinando-se até apoiar o tronco sobre a mesa. Logo o dedo indicador estava sobre a madeira, traçando desenhos imaginários com a garrinha — Vou perguntar pro Iruka sensei se um dia para de doer...
Ao ouvir a última parte, Shino voltou-se para o outro, meio em dúvida do bom senso da decisão.
— Kiba...
— Quê? — ele ergueu os olhos, estranhando a expressão peculiar na face de Shino. Então pareceu cair em si — Seria inconveniente?
— Talvez...
— Então deixa pra lá. Melhor descobrir na prática — Kiba falou com tanta simplicidade que surpreendeu a ambos os garotos. Sentiu o rosto esquentar, apesar de tudo. Finalmente entendia o jeito de Ino e Naruto antes, o que eles queriam dizer sobre como falar sobre sexo era algo natural. Não era falta de vergonha na cara ou safadeza, era apenas... conforto, confiança, segurança? Normal? Não sabia explicar, mas tornara-se muito mais fácil falar sobre certas coisas, ainda que depois o embaraço pingasse em consequência.
Shino anuiu de leve. Se Kiba queria praticar mais, ele que não ia reclamar! Muito menos depois de ouvir uma declaração! Não esperava que seus sentimentos fossem correspondidos, talvez ainda não tivesse o amor de Kiba, mas saber que ele gostava de si já era um avanço maravilhoso. Quem sabe um dia aquele “gosto de você” não se tornasse um “amo você”?
— Ne, Shino...? Tem algum compromisso pra hoje de manhã? Missão ou treinamento?
— Não. Na verdade nada pra hoje — Shino terminou de lavar a última vasilha e deu o café por preparado. Kiba até pensou em levantar-se para ajudar a arrumar a mesa, mas sua expressão sofrida comoveu o Alpha, que tomou para si a tarefa de pegar as louças e colocar a comida para fazerem a primeira refeição.
Kiba sentiu-se muito grato. Não era tolo, obviamente descobrira que fazer sexo era maravilhoso! Era ótimo, a ponto de conseguir quebrar sua concentração de novo, fazendo-o interromper o Chacra que mantinha as marcas do Clã (ele descobrira isso agora de manhã, ao ir lavar o rosto), as preliminares também eram bem gostoso de se fazer... mas tinha aquela horazinha dolorida que não era nem um pouco fácil.
— Por quê? — Shino perguntou ao sentar-se para comer.
— Hã? — a voz de Kiba veio distraída, enquanto se endireitava na cadeira e aceitava a tchawan cheia de arroz.
— Você perguntou se eu tenho a manhã livre...
— Ah, é! — Kiba sorriu antes de levar um pedaço de tamagoyaki à boca e mastigar voraz — Acho que é hora de comprar algumas coisas para a nossa casa... não acha? — terminou a pergunta com os olhos inquietos indo de um lado para o outro da cozinha, sem se fixarem em algum ponto específico.
— Claro — Shino não hesitou em confirmar.
O garoto soltou a tchawan sobre a mesa e estendeu o braço, com os dedos da mão abertos.
— Vamos fazer isso dar certo? Não to falando só do período do vínculo. Tipo depois dele, sabe? — ele sorriu, inclinando a cabeça para o lado — Podemos tentar ser felizes juntos, marido?
Shino entreabriu os lábios, incapaz de conter o espanto. Ali... ali estava aquele jeito puro e direto, acertando em cheio feito um jutsu de alto nível. Então imitou o gesto de Kiba, também estendendo a mão, entrelaçando os dedos de ambos. Recebeu um apertão carinhoso.
— Vamos — Shino concordou, felicidade irradiando forte pelo vínculo — Vamos ser muito felizes.
Kiba fechou os olhos, satisfeito com a convicção na voz do Alpha que selou o compromisso entre os dois. Ainda mais simples que o vínculo lançado no Conselho de Konoha. Muito mais profundo, vindo com sinceridade, permeado de esperanças pelo futuro.
—--
Depois do café saíram de casa de mãos dadas. Kiba não teve problema nenhum (principalmente depois de olhar para os lados e confirmar que não tinha ninguém assistindo), diferente daquela primeira vez em que fizeram isso em público.
Quando se aproximaram do centro comercial de Konoha, já estava confortável o bastante para não se preocupar com as demais pessoas. Nem notou que não chamavam a atenção alheia. Afinal, qualquer um percebia que se tratavam de um Alpha e um Omega, por isso, independente de orientação sexual, era naturalmente esperado que pudessem ficar juntos. Pelo menos naquela vila era tratado de tal forma.
A primeira parada foi em uma loja de utilidades domésticas. Algo que Kiba sentia muita falta era de cortinas. Como a família Aburame podia viver em uma casa sem elas?
— Olha isso aqui, Shino! Adorei — Kiba apontou para cortinas laranja com imensos girassóis amarelos.
Shino observou e observou, incerto sobre o que pensar daquilo.
— Não sei...
— Tire esses óculos pra ver direito. As cores são ótimas!
— Não, a estampa me lembra o Naruto...
— Ee?! — Kiba pegou a ponta do pano, franzindo as sobrancelhas. Fundo laranja, girassóis amarelos — Tem razão! Que horror!
Desistiu fácil. Seguiu pelo corredor avaliando as opções até encontrar um tecido azul com detalhadas orquídeas arroxeadas.
— E essas? São bonitas — comentou empolgado, até notar a expressão de Shino — Te lembram quem?
— O Sasuke...?
— Que... caralho! Tem razão — Kiba torceu o nariz. Uma vez visto, não podia ser desvisto — Deixa as estampas de flores pra lá. O que sugere?
Shino olhou ao redor. O longo corredor todo era para expor cortinas, mas foi uma ao final, em exibição na parede, que lhe chamou a atenção.
— Aquela — apontou.
Kiba virou-se na direção, certo de que encontraria algo sóbrio, que combinasse com o estilo Aburame de ser. Mas os olhos brilharam empolgados ao descobrir a cortina feita em tecido branco transparente, diáfano... coberto de borboletas em vários tamanhos e cores.
— Perfeito, marido! — Kiba foi atrás de uma funcionaria para pedir a peça, que parecia ser a última do estoque. Shino aproveitou para avaliar as outras opções. Kiba ficou tão alegre com a simples cortina que seria conveniente levar uma para o quarto também. Não era o tipo de pessoa que se importasse com tais detalhes. Para ele era mais importante ver Kiba feliz do que outra coisa, e se para isso precisasse encher a casa de cores e formas, então que assim fosse!
Para o quarto, contaram com a ajuda da vendedora, ótima de lábia e cheia de boa vontade, que apresentou a parte das paisagens e cenas que eram quase obras de arte. Peças que conseguiram impressionar o pragmático Aburame. Depois de grande indecisão e debate, concordaram com uma cortina que tinha a imagem de dois lobos cinzentos sobre um penhasco, com o fundo escuro dominado pela lua cheia. Agradou a ambos.
Antes de finalizar ali, compraram várias almofadas felpudas e coloridas, para deixar a sala ainda mais aconchegante.
— O que acha de comer alguma coisa? — Kiba perguntou ao sair na rua. Os olhos já notando a barraquinha de takoyaki.
— Tudo bem — Shino concordou, também sentia fome.
Havia um pequeno aglomerado de clientes, por isso tiveram que esperar até chegar a vez deles. Sorte que o cozinheiro era ágil, virava as bolinhas na forma rápido, logo tendo remessas pra entregar. O cheiro ótimo deixou Kiba impaciente.
— Itadakimasu! — ele exclamou ao pegar a bandejinha com um monte de takoyaki recoberto com shoyu e peixe desidratado. Apenas para queimar a boca com a gulodice, claro.
Shino, mais comedido, sabia que jogar os bolinhos recém tirados da forma na boca era uma péssima ideia. Assoprou os deles antes, para evitar qualquer acidente.
Se colocaram ao lado da barraquinha, para ceder espaço para novos clientes. Mal conversando enquanto comiam. Kiba terminou os dele antes e conseguiu roubar os dois últimos de Shino.
— To vendo que eu vou levar prejuízo nas refeições — Shino suspirou, lembrando-se de que não era a primeira vez que o gesto gatuno acontecia. Jogou a bandejinha vazia na lixeira ao lado, assim como o par de hashi descartável.
— He, he... é mais forte do que eu — Kiba sorriu, todo cheio de dentes — Perdoa, marido?
Shino arrumou os óculos no rosto.
— Um dia serei imune a esse seu charme.
— Que charme? Besta — o garoto sentiu o rosto esquentar, antes de tomar o companheiro pela mão e puxá-lo para longe dali. Tinha a intenção de comprar surippa novos, estampados! Queria aproveitar que estavam no verão e comprar uns próprios para inverno a preço mais acessível.
No caminho para a loja de calçados encontraram uma barraquinha de dango. Sairam de lá com Kiba levando três palitinhos em cada mão. Shino dispensou o doce do qual nem era tão fã assim.
Devorar os primeiros foi fácil e aplacou o apetite do Omega. Restava apenas os da esquerda quando ele sorriu largo e apontou:
— Olha ali, a Ino! — acenou com a mão livre para a garota parada na porta da floricultura com uma expressão entediada, mudando a direção que seguia — Tudo bem?
— Olá — ela devolveu o cumprimento, acenando com a cabeça para Shino.
— Estamos fazendo compras pra casa — Kiba mostrou as grandes sacolas que seu companheiro carregava — Depois vai lá para ver como ficou.
Ino esticou os lábios, sorrindo sem mostrar os dentes.
— A floricultura anda meio corrida. Na hora que aparecer um tempo livre eu faço uma visita.
Kiba espiou a loja vazia, sem compreender a afirmação. Acabou dando de ombros e abocanhando os três bolinhos de um dos palitos.
— Tudo bem — ele deu de ombros. Então apontou um cesto no chão, cheio de botões de rosas vermelhas — Quanto custa uma dessas?
— Que horror, Kiba! Já passou da hora de usar sua educação, moleque! — ela esbravejou. Recebeu uma careta debochada de volta que a deixou mais irritada — Toma vergonha na cara!
— Tomo nada, e agora sou um cliente. Me trate bem ou eu reclamo pro dono... — apesar da impertinência, já tinha engolido a comida antes de retrucar.
— O dono é o meu pai e isso me faz dona por tabela. Reclame comigo.
— Quanto custa a flor? — ele preferiu não insistir no assunto.
— Pra você? — Ino rosnou — Não custa nada, pode pegar.
— Sério?! — Kiba não escondeu a surpresa — Tem certeza?!
— Pega logo antes que eu mude de ideia! — paciência não era o forte de Ino.
Inuzuka obedeceu, sem se fazer mais de rogado. Escolheu um botão que começava a florescer e pediu para Ino reduzir o cabo. Ela tirou uma tesoura de poda do bolso do avental e cortou como solicitado.
— Obrigado! — ele agradeceu feliz — É pro marido — e colocou a flor no bolso do casaco que Shino costumava usar — Até mais!!
Shino se despediu também. Ino apenas acenou com a mão, como se dispensasse o casal, continuando parada a porta, encostada no batente, assistindo enquanto eles caminhavam lado a lado, muito próximos, Shino carregando as sacolas e Kiba gesticulando com uma mão, enquanto a outra segurava com firmeza os dois últimos palitinhos com dango.
Obedecendo um impulso incontrolável, Ino deu um passo a frente.
— Ne, Kiba...?
O Omega parou de andar e virou-se para trás.
— Quê?
Ela hesitou alguns segundos:
— Mudar de ideia não é covardia. Desistir dos planos que a gente tem como certo e escolher um futuro diferente é sinal de maturidade, não é?
Kiba olhou de lado para Shino, o rosto esquentando um pouco.
— Acho que é... — ele soou incerto, para então falar com mais firmeza — Com certeza é! O que importa é tentar ser feliz com o que a gente tem, com o que pode alcançar.
— Entendo — ela sorriu — Você... você me perdoa?
O garoto inclinou a cabeça de lado, depois de trocar um breve olhar com Shino. O Alpha também parecia desconhecer a intenção daquela pergunta.
— Pelo quê? — sua voz revelava dúvida e confusão.
Ino deu de ombros.
— Por qualquer coisa. Por tudo.
— Claro — Kiba sorriu — Você é nossa amiga.
Ela sorriu, dessa vez um gesto mais sincero do que anteriormente e foi para dentro da loja tão depressa que deu a impressão de fugir de algo. Nem Kiba nem Shino compreenderam. Mas mulheres eram criaturas misteriosas, escapava ao alcance deles ver sentido em todas as suas ações.
Logo regressaram as compras e isso os abstraiu pelo resto do dia. O primeiro dia de uma vida nova.
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