A Lei do Amor
3 Capítulo 03
Notas iniciais

Capítulo 03
Shino chegou ao parque sem expectativa alguma. O que poderia esperar ou devanear a respeito do momento tão importante? Em primeiro lugar, não era o tipo de pessoa que fantasiava sobre o que quer que fosse. Em segundo lugar, já tinha a resposta do que era realmente relevante na situação. Um “sim”.
Apesar disso, seria hipócrita se negasse a leve tensão que sentiu no ar ao aproximar-se dos balanços, lugar onde Kiba estava sentado, movendo-se distraído. O parque era neutro, talvez deixasse o garoto menos desconfortável do que ele ficaria caso encontrassem-se em local adverso.
— Yo. — cumprimentou parando ao lado dele. Notou a forma como o garoto se encolheu de forma quase imperceptível. Quase.
— Shino!! — Kiba exclamou um tanto surpreso, embora o encontro já fora combinado previamente. Talvez estivesse mergulhado demais nos próprios pensamentos para notar a proximidade do colega de time. Os olhos desviaram-se para o outro lado, revelando constrangimento — Yo...
— Posso...? — ele indicou o balanço ao lado, numa forma preocupada de não invadir o espaço pessoal alheio.
— C-claro! Pode — Kiba assentiu, ainda evitando encará-lo de volta.
Shino sentou-se e ficou quieto. Notou pelo canto do olho Kiba mexer-se e remexer-se, porque aquele garoto era inquieto demais para qualquer outra reação. Um hiperativo que batia de frente com Uzumaki Naruto.
Apesar disso, Shino não fez nada além de esperar.
— Então... — por fim Kiba não aguentou o silêncio — Então vamos ser marido e marido.
— Aa.
— E eu vou morar com você...
— Aa.
— E teremos um filho.
— Aa.
Isso atraiu a atenção do garoto. Ele olhou para Shino de forma um tanto irritada.
— Você pode colaborar comigo? To tentando ter um diálogo aqui...
Shino sorriu de leve, embora a gola alta da blusa impedisse a visão de tal ato.
— Sim, Kiba. Vamos formar uma família. Vamos morar na minha casa e ter um filho. A não ser que prefira morar com sua mãe. Posso muito bem mudar as minhas coisas.
Kiba pensou a oferta por breves segundos. De alguma forma sabia que isso não era o que sua mãe esperava. Por mais que relutasse em deixá-la sozinha, principalmente após a morte de Hana, intuía que a opção não faria bem ao nome Inuzuka e, por tabela, seria refutada por sua mãe.
— Não... melhor não — declinou da sugestão mais do que depressa — Posso morar com você até... até.. hum.. até... você sabe.
— Sim, eu sei — Shino concordou, notando como o rosto de Kiba corava até que o vermelho da pele quase encobrisse as marcas do clã.
— Isso... isso é tão estranho! A gente é amigo e... nunca pensei que... um dia... que constrangedor!
Shino meneou a cabeça. Não achava nem um pouco constrangedor. Pelo contrário. Mal podia se lembrar desde quando gostava de Kiba. Aquela oportunidade parecia nada menos do que uma dádiva dos deuses. Ao ouvir a proposta do Hokage, logo pensou que estava em um sonho. Mas era a realidade. A doce realidade ao qual agarrara com as duas mãos, sem que um segundo sequer esperasse que Kiba realmente aceitasse a proposta.
E ali estavam eles.
— Você aceitou — disse simplesmente. Não era um homem de desperdiçar palavras.
— Ahh! — Kiba arregalou os olhos e freou o balanço — Eu...
— Você...?
A leve pressão fez com que o garoto franzisse as sobrancelhas, irritado. Shino queria todas as cartas na mesa! Era constrangedor! E honesto... e o jeito certo de começar alguma coisa.
Konoha era um dos melhores lugares para um shifter nascer e crescer. A sociedade evoluída ensinava uma lição a outras, extremamente rígidas na questão das castas. Na Vila da Folha, todos eram tratados como iguais, com respeito e consideração. Até mesmo um Omega, que não se equiparava aos Alphas e aos Betas, que tinham sua posição cosolidada na sociedade shifter. Ao contrário, já ouvira falar de países preconceituosos e cruéis com Ômegas, tratados como inferiores na hierarquia.
E justamente por essa postura igualitária de Konoha, Kiba nunca se imaginou em tal situação. Pra ele, ao pensar no futuro, se via reproduzindo o relacionamento dos pais, assim como da maioria das pessoas da vila, encontrando uma fêmea Alpha, casando-se e tendo uma penca de filhos. Porque ele adorava crianças e queria que sua família fosse ampla!
Jamais passou pela sua cabeça que um dia estaria em vias de se envolver com o melhor amigo de infância e que ele próprio seria o responsável não apenas por gerar uma nova vida, mas por carregá-la no ventre!
Por todos esses sentimentos presos dentro de si, foi impossível não revelar o que sentia:
— Eu estou assustado — a frase veio seguida de um olhar desolado e perdido, que fez o coração de Shino pesar. Sua intenção não era infligir sofrimento a quem gostava. Teria sido precipitado ao impor essa relação ao Omega? Ou apenas o protegera de se envolver com outra pessoa, talvez com quem ele tivesse menos afinidade?
Decidido, soltou a corrente do balançou e estendeu a mão em direção a Kiba. O garoto chegou a encolher-se um pouco, sem saber o que esperar, pego de surpresa pelo gesto inusitado. Mas no fim não fugiu ao toque daquela mão quente de encontro ao seu rosto.
— É desagradável? — Shino perguntou. Ouviu Kiba suspirar de leve, antes de responder sem hesitar.
— Não — e não havia mentira na pequena palavra.
— Então podemos fazer isso dar certo. Você está assustado. Eu também estou. Tenho apenas dezoito anos. Perdi meu pai, minha única família. E agora tenho que gerar um filho — Shino foi falando sem interromper o toque, prendendo os olhos afoitos de Kiba na sua mirada profunda — Se for fazer isso, quero que seja com alguém importante.
Kiba, sempre tão imperativo e sem sossego, não conseguiu outra coisa além de balançar a cabeça em concordância. A garganta ardendo em uma vontade de chorar que não sabia explicar. Sua infância estava se acabando, dava-se conta agora. Nem a guerra lhe trouxera aquela dose de realidade. Apenas a ideia de ter uma vida inocente dependendo de seus cuidados. Uma vida inocente que seria metade provida do seu sangue. E metade provida daquele homem que tentava passar confiança e cuidado através de um simples toque de carinho. Pele contra pele. Olhos nos olhos.
— Tenha paciência comigo — Kiba pediu, deixando que suas barreiras caíssem por terra.
— Sempre — Shino garantiu, antes de repetir com tanta confiança quanto havia em si — Sempre, Kiba.
O garoto também soltou a corrente e cobriu a mão de Shino com a sua.
— Então vamos fazer isso dar certo. Eu te digo “sim”.
A frase trouxe novo sorriso aos lábios de Shino. Dessa vez um pouco maior, ainda que ninguém pudesse ver, graças a gola alta da blusa.
— Você já disse “sim”. Por que disse sim?
Kiba piscou depressa, afastando-se um pouco e fugindo ao toque de Shino. Aproveitou o gesto para tomar impulso e pôs-se a balançar um pouco.
— Fiquei com medo de acabar com a Sakura. Ela é meio maluca com aquele amor pelo Sasuke. Ou aquele senpai com as sobrancelhas esquisitas... Eu sou um Omega, daí não escolho, tenho que ser escolhido. Já pensou se o Chouji me escolhe? Eu nem sei cozinhar... como ia ser o nosso lar? Mas ele é um Beta, né? Até esqueci disso — a enxurrada de palavras desconexas divertiu Shino. Ali estava uma sombra do Kiba que tanto amava. Acabou erguendo uma sobrancelha:
— Em resumo: eu era a opção menos pior.
— Não!! — Kiba tratou de remediar — Sim... quer dizer... não? Não sei! Só me senti acuado. Eu não tive tempo de refletir. Acho que no fundo eu meio que pensei que nem você. Se eu sou obrigado a ter um filhote, então que seja com alguém que eu conheço e respeito.
A sinceridade naquelas palavras comoveu Shino. Estavam todos a mercê daquela lei que, apesar de tentar sanar um problema que seria vital a longo prazo; ainda assim, era bem cruel.
Ele deixou que o silêncio se instalasse entre ambos, porque não era um silêncio opressivo ou pesado. Era apenas reflexivo.
Tanto que quase podia ver as engrenagens da mente de Kiba arquitetando como seria a vida de ambos dali pra frente, até que o garoto acabou indagando:
— Sábado é um bom dia para a mudança? — ele soou como quem não quer nada.
— Claro. Você estará confortável na minha casa? De verdade? Não prefere mesmo que eu passe esse tempo na sua casa?
— Hummm. Não. Acho melhor pegar minhas coisas e ir pra sua casa mesmo. Minha mãe ia surtar se eu fizesse isso, sabe aquele papo de “honrar o nome da família”...? Então eu pego as tralhas e vou pra sua casa.
— Precisa de ajuda?
— Não! Minha mãe me mata se te ouvir falar assim, Shino! É sério! — suspirou — O clã Inuzuka é composto por Betas. Não é nossa tradição ter Alphas nascendo na família, muito menos Ômegas! Mas... pra minha mãe isso nunca importou. Ela se preocupa apenas que a gente cumpra o nosso papel com dignidade e honre nossos ancestrais. Independente de ser Alpha, Beta ou Omega, mas obedecendo as tradições e a lei. No caso, dando um filhote pra aldeia. Eu posso fazer isso. Não, eu vou fazer isso! Eu juro!
Aburame Shino apenas balançou a cabeça. O seu clã também era muito conservador e tradicional. Agora que seu pai se fora, vitima da guerra, cabia a ele seguir as leis de Konoha em nome dos Aburame.
O silêncio ameaçou insinuar-se entre eles novamente, mas Kiba não deixou:
— Posso levar o Akamaru? — logo imaginou que seria bom ter o mascote por perto, vivendo em uma casa nova.
— Não — Shino respondeu, mas logo emendou uma explicação, temendo ser erroneamente interpretado — Não precisa pedir permissão. Nossa relação não se baseia em hierarquia.
A frase teve o poder de fazer Kiba corar de leve, meio embaraçado pela parte do “nossa relação”. Para disfarçar, ele coçou a nuca e riu constrangido.
— É que você conhece o Akamaru, né? Não é tão simples assim levar ele pra sua casa sem avisar das consequências. Akamaru é um bagunceiro!!
— Ele não pode ser pior do que você.
— Oe! Eu não sou bagunceiro! Quer dizer... não muito e... seu besta!
Shino apenas balançou a cabeça, divertido com a reação espontânea. Esse era um dos aspectos da personalidade de Kiba que o cativava desde que se conheceram. Apaixonante.
— Posso conviver com dois bagunceiros.
O outro mostrou a língua, desaforado. Então pareceu se lembrar de algo importante e se viu confessando:
— Eu vou receber conselhos de outro Omega a partir de segunda-feira, um Omega que é casado com um Alpha macho. Isso vai me ajudar bastante.
Shino balançou a cabeça, concordando. Já imaginara algo assim. Até desconfiava de quem seria o novo professor de Kiba.
— Ee... e os outros? Você acha que todos vão arrumar um par? Ou alguém vai preso? Eu vi o Naruto lá no mesmo dia que eu fui. Ele é um Beta, né? Será que escolheu a Sakura? A Hinata vai ficar triste.
— Talvez — Shino respondeu sem aprofundar no assunto. Era o único Alpha da turma assim como Kiba era o único Omega. Havia outros, claro, tanto entre os alunos mais velhos, quanto entre os mais novos. E os adultos. Os demais da turma eram todos Betas, o que significava que; obrigatoriamente, os casais seriam entre machos e fêmeas, para garantir a nova geração de crianças. As chances de Naruto ter escolhido Sakura eram bem grandes, inversamente proporcionais ao interesse de Shino. Ele já conseguira o que mais queria na vida. Pouco se importava com o destino dos demais.
Agora começaria a contar os dias para que o vínculo seguisse a diante e eles consumassem aquela união.
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