A Lei do Amor
4 Capítulo 04
Notas iniciais

Capítulo 04
A manhã ia avançada, com um tempo ensolarado e claro, quando Shino abriu a porta da frente para atender as breves batidas. A primeira coisa que notou foi a trouxa enorme e (aparentemente) pesada que Kiba levava nas costas.
— Yo, Marido! — o garoto riu consigo mesmo do cumprimento — Não fizemos o vínculo ainda, mas posso te chamar de “marido”, né? Ou “marido temporário”? Não, muito longo. Só “marido” tá bom. É, tá ótimo. Bom dia!
Shino ergueu as sobrancelhas sacando na enxurrada de palavras o quão nervoso o novo morador da casa se sentia. Situação mais do que compreensível. Imaginou que o leve rubor que competia com as marcas do clã Inuzuka também se relacionavam com o constrangimento trazido pela mudança.
Kiba, por sua vez, tentava disfarçar a falta de jeito com a tagarelice, com medo de revelar a surpresa por ser atendido por Shino naqueles trajes. Quer dizer, não tinha nada demais na regata cinza ou na calça de moletom preta, tão casuais quanto a blusa e a bermuda que ele próprio usava. Nem sequer era a primeira vez que o via sem o uniforme de sempre ou sem os óculos de sol. Mas, ao mesmo tempo, era a primeira vez que o via tão a vontade depois da recém estabelecida condição de cônjuges. O coração se abalou um pouco...
— Shi-shitsurei shimasu — Kiba pediu tentando mudar o clima constrangido. Acabou franzindo as sobrancelhas em estranhamento, quando Shino não saiu da porta, cedendo-lhe passagem.
Os dois se encararam por breves segundos, até que o garoto tivesse um insight. Os olhos se arregalaram um pouco antes que a frase escapasse de modo quase natural:
— Tadaima!
— Okaerinasai — só então Shino afastou-se um pouco e permitiu que Kiba entrasse no novo lar.
Um segundo e meio depois, Akamaru passou também, na cola do dono, antes que Shino notasse sua presença, por isso não conseguiu impedi-lo.
— Akamaru!! — foi o próprio Kiba que interferiu — Pra fora!! Não seja um folgado!! Vá explorar as redondezas.
O animal ganiu para demonstrar seu desagrado e obedeceu, enfiando a cauda entre as patas e saindo em passos mais lentos do que deveria.
— Venha comigo — Shino pediu — Vou te mostrar onde ficam as coisas.
— Hn.
Foram direto para o segundo andar. Shino parou a frente do quarto de hóspedes e abriu a porta. Não era um espaço muito grande, embora confortável e adequado. Havia uma cama de solteiro, um criado mudo com abajur e um pequeno roupeiro.
— Pode ficar aqui até que...
— Não — Kiba cortou, confiante — Vamos começar do jeito que as coisas devem ser! A gente já saiu pra missão junto, Shino. Não tem nada de esquisito nisso. E... e... a gente não precisa... hum... você sabe... segunda-feira eu vou lá na aula... e... que droga! Facilita as coisas pra gente, não?
— Você quer dormir no meu quarto? — o outro foi direto como sempre.
— É — Kiba brincou com as pontas da grande trouxa que iam amarradas contra seu peito, subitamente sem vontade de devolver a mirada intensa que recebia — Hum...nosso quarto...
Shino não esperava algo assim, mas não reclamou. Analisou a postura de Kiba, não muito convencido de toda a segurança que o outro transmitia. Sentiu algo errado ali, embora não planejasse pressionar para descobrir do que se tratava. Mais cedo ou mais tarde, saberia.
— Por aqui — voltou sobre os próprios passos. Passou direto pela porta ao lado — Esse era o quarto do meu pai — explicou simplesmente. Então apontou a porta na parede contrária, explicando que ali era o banheiro. Por fim, abriu a última passagem, do final do corredor.
O quarto de Shino era maior do que o quarto de hóspedes. Havia um criado-mudo ao lado de cada cabeceira da cama, e um abajur em cima de cada criado-mudo. O grande guarda-roupa ocupava quase toda uma parede e uma porta de vidro revelava uma pequena sacada. O último móvel, uma escrivaninha, permanecia no canto do quarto, com livros e cadernos cuidadosamente organizados.
Mas nada disso chamou a atenção de Kiba. O garoto apontou para dentro do quarto, sentindo o rosto pegar fogo.
— Por que tem uma cama de casal?
Shino empertigou-se, pego de surpresa. Sentiu o olhar de Kiba lançar adagas em sua direção, todas com a palavra “pervertido” presa nas pontas afiadas. Fez menção de ajeitar o par de óculos no rosto, então se lembrou de que estava sem ele.
— Tenho uma desde criança. É estranho?
— Pois a minha cama é de solteiro.
— Que infantil — Shino falou sem intenção de ofender, embora Kiba se eriçasse que nem um cachorro prestes a morder — O que você pensou? Queria dormir aqui em uma cama de solteiro?!
— Ah! Eu... eu... achei que ia trazer o colchão do outro quarto e ficar no chão... — o garoto revelou o plano a contragosto.
Shino cruzou os braços e sorriu de leve. Ele sabia que toda aquela confiança de Kiba não vinha sem um motivo.
— Quer ficar no outro quarto?
— Claro que não. Já disse que vou dormir aqui e eu vou dormir aqui. Não é uma cama que vai me fazer mudar de ideia.
— Então fique a vontade. Já liberei metade do guarda-roupa para você — como não se preocupava com a aparência, não tinha muitas roupas, somente o necessário — Pode arrumar suas coisas. Vou começar a preparar o almoço.
— Tudo bem — Kiba soltou o nó da trouxa e a deixou cair no chão, já se preparando para ajeitar tudo aquilo.
Shino saiu do quarto e desceu as escadas, indo direto para a cozinha. Não combinara um horário para que Kiba viesse. Almoçar com ele seria uma agradável surpresa.
Com destreza começou a separar os ingredientes para a refeição. Decidiu-se por arroz branco, tamagoyaki e salada. Pratos rápidos e simples de fazer.
O arroz mal começara a esquentar na panela de arroz, quando Kiba enfiou o rosto na porta da cozinha, sondando o ambiente antes de entrar, cruzar as mãos atrás da cabeça e ir sentar-se na mesa. Shino parou de cortar as folhas de mizuna sobre o balcão de mármore e lançou um olhar agudo na direção do “marido”. Não fazia nem vinte minutos que o deixara no quarto!
— Oe, oe — Kiba enfiou o dedinho na orelha e coçou — Eu botei a roupa no guarda-roupa, cuidado quando for abrir. Também olhei os cômodos aqui de baixo, pra saber onde fica cada lugar.
—...
— Que foi? — soprou a sujeira da ponta do dedo mínimo — Um dia eu arrumo direito. Promessa de dedinho!
Shino observou o dedinho esticado em sua direção e balançou a cabeça.
— Depois que lavar as mãos talvez a gente firme a promessa.
Kiba riu escandaloso como sempre, contentando-se em assistir enquanto Shino terminava de picar a mizuna e a reservava em uma tigela. Logo a tamagoyaki cheirava muito bem, porque o rapaz era um cozinheiro de mão cheia! Por muito tempo foram apenas Shino e seu pai. Desde criança ele precisou se aperfeiçoar nas tarefas domésticas, para que pai e filho tivessem uma rotina diária digna.
— Isso parece ótimo! — Kiba sorriu guloso, olhando a owan cheia de arroz branco que Shino colocou a sua frente, junto com a tamagoyaki ainda soltando fumaça e a tigela de salada — Itadakimasu!
— Itadakimasu.
Por algum tempo apenas comeram, até que a certo ponto Kiba resolveu quebrar o silêncio.
— Eu já sabia que cozinhava bem, Shino, mas isso aqui tá bom demais! Pode deixar que eu lavo a louça depois.
— Tudo bem.
— Minha mãe sempre se gabou de ser a melhor cozinheira de Konoha. Acho que ela está enganada...
— E como ela ficou? Está tudo bem com ela?
Kiba mordeu uma folhinha de mizuna e mastigou, antes de responder.
— Sim, mamãe é dura na queda. Ela sempre diz que os filhotes a gente cria pro mundo — ele hesitou um pouco, travando uma luta interna. Acabou decidindo contar, ignorando que o rosto corava: — Ela desejou que a gente tenha gêmeos.
— Ah — foi tudo que Shino disse.
— E ela quer que a gente tenha um jantar de apresentação formal, antes de lançar o vínculo.
— Hn — Shino era mesmo monossilábico! Ou seria uma forma de demonstrar nervosismo...? Afinal, encarar a sogra (mesmo que temporária) não era a tarefa mais fácil do mundo. Encararia mil inimigos de frente e desarmado sem sentir o arrepiozinho gelado que brincou com seus pelinhos da nuca. Apesar disso, disfarçou — Só marcar.
— ‘Xá comigo!! — prometeu, agarrando o último pedaço de tamagoyaki com o hashi e jogando-o na boca.
Depois do almoço, Kiba cuidou das vasilhas sujas, quebrando uma owan no processo. Era um desastrado e por isso Shino pensou que talvez trocar as vasilhas de louça por plástico fosse uma boa solução.
Enfim, passaram o resto da tarde no quintal dos fundos, montando uma casinha para Akamaru. Ser ninja e toda a experiência de ambos serviu para alguma coisa. Quando o cão voltasse da exploração também teria um novo lar.
Enquanto anoitecia, Shino resolveu comprar lamen para o jantar. Deixou Kiba tomando banho e foi até um mercado próximo, atrás da comida pré-pronta. Quando voltou, foi recebido por Kiba já de pijama, que se prontificou em preparar o jantar no micro-ondas (pelo menos isso eu sei, marido!!) deixando, assim, Shino livre para também tomar um banho e vestir um confortável pijama.
Fizeram a última refeição do dia na sala, assistindo um filme de comédia que arrancava risadas divertidas de Kiba, a ponto de intrigar o outro rapaz, que não via graça nenhuma nas atuações forçadas. Pelo final do programa, ele já cabeceava de sono. Permitiu que Shino levasse o resto do jantar para a cozinha, enquanto ele próprio ia para o banheiro se ajeitar para dormir.
Pouco depois, Shino entrou no quarto e encontrou Kiba sentado sobre o colchão, um tanto sem jeito. Já pegara travesseiros e lençóis, e os colocara sobre a cama. Mas parecia indeciso sobre se deitar. Acabou limpando a garganta e apontando a garrafinha de sake nas mãos de Shino.
— Você só tem dezoito anos. Não devia beber isso ainda...
Shino sorriu de leve:
— Tampouco deveria ir pro fronte de batalha, perder meu pai na luta ou ser obrigado a me vincular e ter um filhote. A guerra costuma mudar as coisas.
O outro apenas observou, sem saber o que responder. Sim, haviam passado por provações que ninguém em tão tenra idade deveria enfrentar. Possuíam uma experiência de vida que os fizera amadurecer e deixar as brincadeiras de lado. Mas, ainda assim, eram quase crianças...
— Pode dormir se quiser. Vou terminar isso antes — Shino mostrou a garrafinha de sake e caminhou até a porta de vidro, para tomar o ar fresco da noite, debruçado na grade da sacada.
— Oyasumi — Kiba disse baixinho, antes de se enfiar debaixo do lençol e respirar fundo.
Lá se fora o primeiro dia da sua nova vida.
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