A Lâmina de Ferro
3 Cortesias de um francês
Notas iniciais
Por mais que quisesse, seu celular estava sem internet.
Já havia tentado várias vezes... apenas naquela manhã. Mas o resultado era sempre o mesmo... sempre aquelas palavras em dinamarquês, para avisá-lo de que não havia internet no ar... e, para piorar, nem mesmo um ponto aparecia.
–Porque eu ainda tento...?
Ele passa lentamente os olhos pelo corredor, entediado. Não gostava de ter que esperar ali... sempre demoravam, e não havia nenhum atrativo interessante. O piso era de uma pedra branca, bem polida e limpa, nem ao menos um pedaço minúsculo de papel jazia sobre sua superfície. As paredes estavam encobertas por um papel de parede azul escuro, adornado de detalhes minúsculos em dourado. O teto não era muito alto... e lá fora construído com uma exemplar madeira branca, limpa até a última sujeira... sustentando esferas de vidro, contendo lâmpadas fluorescente. O corredor não era muito longo... mas abrangia diversas portas, e móveis. Que iam desde mesinhas simples e pequeninas até sofás vermelhos, de um estilo clássico e belo.
Apesar de todos estes detalhes, que deixariam um conhecedor de decoração fascinado... nosso personagem não parecia dar a mínima para o local onde estava.
Estava a se sentar em um dos sofás vermelhos. A posição não poderia ser considerada certa... ombros mais baixos do que deveriam, e as pernas estendidas pelo chão preguiçosamente, as costas curvadas. O tênis branco parecia obstruir qualquer um que quisesse passar... e que, até com pessoas do alto escalão, nosso personagem não se dava ao luxo de tirá-los do caminho. Calças de um preto escuro e um pouco amassadas faziam par com o tênis branco. Vestia também uma blusa azul, com detalhes em prata, e zíper da mesma cor. O zíper estava aberto, revelando uma camiseta branca, decorada com algum dizer em inglês... que nosso personagem não parecia dar a mínima.
Ele abaixa os olhos lenta e preguiçosamente para sua tela. O dedão ia de um aplicativo ao outro... qualquer coisa que pudesse aplacar o tédio da espera, ele iria agradecer.
Havia apenas poucos minutos que havia se ocupado com algum game... quando algo tapa a luz que vinha da lâmpada.
–Ele quer te ver.
–Oh... que surpresa... – diz ele, elevando o olhar até o do ajudante.
–Quer fazer as honras, Klaus?
Ele bufou, guardando o celular.
–Eu acabei de iniciar um jogo de xadrez com o computador... não posso nem tentar bater meu recorde?
Ele dizia tudo com tanta ironia que o ajudante o ignorou. Mal havia uma semana que Klaus estava ali, e ele já estava se acostumando com aquele garoto. Não no sentido positivo.
Enfim, Klaus se levanta, entediado. Balança levemente seu cabelo com uma das mãos, espetando os fios ruivos para cima. Os olhos verdes pareciam conter muito mais do que a mistura incrível de tonalidades de verde e, ocasionalmente, de azul... mas, o que quer que seja, estava bem ocultado pelo tédio.
Ele faz um movimento com as mãos, em direção à porta.
–Primeiro as damas.
O ajudante revira os olhos negros. Não havia tantos detalhes audaciosos nele... nada que fugisse de um cabelo muito aparado, de tal forma que apenas pontinhos negros se viam em sua cabeça. Vestia uma camiseta branca de botões, que ficava bem com sua calça negra para terno, e sapatos negros e bem polidos. Apesar de toda a formalidade que queria transmitir, fora a autoridade... não conseguia convencer Klaus disso, e nem suportar o jeito que ele o tratava. Porque o Mestre ainda gostava dele, afinal?
Sem mais delongas, ele abre a porta de madeira escura, indicando para que Klaus entrasse. Estava doido para fazer alguma piada a respeito... mas simplesmente não a encontrou na mente. Por isso, simplesmente entrou no cômodo.
A construção das paredes, do piso e do teto era praticamente a mesma do corredor. O que mudava eram os fatores de que aquela era uma sala maior... e que continha móveis diferenciados. Uma grande mesa, feita de uma madeira forte e escura, ocupada o fundo da sala. Estava ela iluminada por um pequeno lustre... que também iluminava o lustroso tapete vermelho, que ocupava quase toda a sala. Sua luz também deixava à mostra um par de quadros... que retratavam muito bem cenas da Revolução Francesa.
Por mais que o cômodo fosse belo, Klaus pouco olhou para tais detalhes. Já conhecia bem aquela sala... e não estava na hora certa para tal atitude. Não era do estilo de Klaus prestar atenção nas coisas na hora certa.
Ao invés disso, seu olhar foi direto ao ser, atrás da mesa.
–Klaus! Enfim podemos conversar! Sente-se!
Klaus obedeceu tranquilamente, enquanto encarava o homem. Parecia ser um pouco mais jovial que o ajudante... possuía cabelos negros lisos, penteados para trás com gel. Fios brancos aqui e ali davam um toque especial à aparência. As rugas da testa ficam à mostra, formadas por deformidades de uma pele pouco exposta no sol. Olhos castanhos encaravam o ruivo com um sorriso satisfeito, que ficava bem com um cavanhaque ralo, combinando com um bigode negro... ambos pareciam ter sido aparados recentemente.
Combinado à isso, estavam suas vestes. Diferente dos demais de seu nível, este vestia um paletó azul escuro aberto, mostrando uma camiseta branca de botões, bem ajeitada e com poucos amassados. A mesa impediam que a visão das calças azuis escuras e o sapato de couro negro brilhante ficassem visíveis... e era até bom, porque esse último poderia causar inveja ao ajudante, que parecia estar com os sapatos menos cuidados.
Ele sorria, enquanto Klaus se sentava na cadeira, oposta a mesa. O ajudante ia se posicionando em um canto da sala... como se pretendesse vigiar a conversa e a sala, sem se intrometer, mais podendo ouvir e ver todos.
–Demorou dessa vez – diz Klaus, encarando o homem com um sorriso sarcástico, mas alegre e brincalhão.
–Sabe como são as coisas, Cher Klaus... Estou com tantos trabalhos que até me embebedei de café... sem ao menos ter tempo de guardar um pouco para você.
–Que triste... eu esperava alguma cafeína de qualidade essa manhã...
–Não gosta do café da nossa cafeteria?
Klaus lança-lhe um sorriso.
–Não é melhor do que o seu, claro. Você sabe caprichar na temperatura e na quantia de açúcar... impecável. Nem o daquela cafeteria lá encima era assim.
Ele dá um sorriso vermelho, mas não saindo do motivo de estar ali.
–Sua sinceridade é tão tocante que chega a parecer mentira... bem... sem mais delongas...
Ele se ajustou direito na cadeira, enquanto pegava uma pasta amarela. Enquanto Klaus não se movia na cadeira... apenas uma posição que poderia ser considerada “aceitável”, mas não ideal. O homem abre a pasta... e começa a revirar os arquivos contidos ali com o olhar.
–Klaus Draco Altair... anda fazendo um progresso incrível em sua estadia na França.
–Jacques Russeau... não há de quê. Apenas faço meu trabalho.
–Oh! Mas faz muito bem! Magnus deve ter orgulho de o ter como um de seus discípulos.
–Não sei se ele tem... ele anda ocupado ultimamente, se me entende.
–Oh sim... todos os Mestres estão ocupados... pelo menos os que representam nossas fortes nações, com seus mantos lustrosos... mas não tanto quanto a sábia mente deles.
Klaus o olha mais detalhadamente.
–Você fala bem dos mantos... para quem não o usa.
–Eles são incríveis! Cada um tem seu significado histórico e cultural para nós... mas, digamos que, com essa guerra terrível... estamos nos modernizando. Principalmente Mestre de tal ramo.
Klaus tentou se lembrar para que ramo estava servindo mesmo... essas coisas fugiam-lhe fácil da mente.
–A facção de “Operações Especiais Sigilosas”?
–Exatamente! Como sabe... nossas atividades se tornaram importantes, depois que essa guerra começou. O que exigiu que nossos artefatos tecnológicos e bélicos fossem atualizados... bem como as vestimentas.
–Não sabia que o Mestre da OES estava livre para andar como quiser por aí.
–Faz parte do que a OES significa. Não possuímos tanta formalidade conservadora, como outras facções o tem. Eu os respeito... do mesmo jeito que também há essa formalidade aqui. Porém... o próprio “Comando Central” nos garantiu que não havia necessidade dos mantos. Então...
Jacques faz um gesto elegante, indicando seu paletó.
–Decidi tirar minhas vestes favoritas do armário.
Klaus faz um olhar surpreso, como se tivesse acabado de notar o terno.
–Belo terno... liquidação?
Jacques revira os olhos, mas com um pequeno sorriso.
–Sua qualidade mais incrível é seu pior defeito... não, não foi por liquidação, infelizmente.
–De qualquer maneira... acho que não me chamou aqui para falar de seus ternos, não?
Ele pareceu retomar o foco e um pouco da seriedade. Logo, começa a fazer anotações nos arquivos... com uma caneta azul, que tira de algum bolso do paletó.
–Analisamos o Smartphone que nos arranjou...
–E...?
–...Digamos que o que achamos foi... interessante e surpreendente, no mínimo.
Os olhos de Klaus, antes vagando de um ponto ao outro, se fixam em Jacques. O assunto chegara a um ponto que interessa o Assassino Branco.
–E do que se trata...?
–Talvez algo que posso conduzi-lo para uma missão... uma missão no exterior, ainda.
O olhar sério e analítico de Jacques encontra o de um curioso Klaus.
–É uma base deles?
–De certa forma.
–Já sabem onde fica?
–Não exatamente... temos pistas para a cidade.
–E onde fica?
–Isso... iremos discutir outro dia.
Klaus volta a encostar suas costas na cadeira.
–Me chamou aqui para isso? Que alegria... uma hora da minha vida desperdiçados naquele sofá.
–Te chamei aqui para atualização geral... e digamos que não temos certeza de que é lá realmente – Jacques encara um ponto a outro dos documentos – não esperávamos que não fosse nas cidades que achávamos que era...
Klaus adorava fazer suspense das coisas... mas odiava quando faziam isso com ele.
–Pelo menos me diga que me chamará novamente logo...
–Talvez.
–“Talvez”?
–Talvez.
Klaus bufa, entediado.
–E ainda me perguntam porque eu tenho o “péssimo” costume de burlar as leis...
Jacques ergue os olhos para ele.
–As vezes burla-las é essencial... se fosse escolher entre você e seus amigos, quem escolheria?
Klaus pensou um pouco, antes de responder.
–Depende do contexto.
–Como assim?
–Se salvá-los fosse condenar a humanidade... eu pensaria na humanidade.
–E porque?
–Não sei... amigos geralmente são chatos... e a humanidade tem café.
Jacques deu uma risadinha.
–Porque você não vai procurar sua fonte de energia por aí, então? Tenho trabalho a fazer...
Klaus suspira.
–Vai me chamar, para eu saber se devo colocar nas malas agasalhos ou regatas?
–Quando eu estiver disponível, o farei.
Klaus já estava caminhando para a porta, quando se vira rapidamente.
–Tem 5 Euros para me emprestar?
–Para...? – ele não tirava os olhos dos documentos.
–Sabe... o café de hoje não está barato, nem para um Assassino.
Jacques demorou alguns segundos para responder.
–Levando em conta tudo o que fez por nós e sua generosidade... minha resposta é não.
Klaus suspira, e diz, ironicamente:
–“Sua generosidade toca meu coração... e o esfaqueia com uma adaga”.
E saiu.
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