A Lâmina de Ferro
4 Neve Vermelha
Notas iniciais
A noite não parecia segura.
Um ar gélido e denso pairava na atmosfera... se misturando à uma leve neblina, que parecia vir de todos os cantos da cidade... e de nenhum, ao mesmo tempo. Os prédios antigos da cidade estavam iluminados por luzes... que pareciam fracas, se misturadas ao ar, e à situação. Já nevava na cidade norueguesa... finos flocos de neve desciam dos céus negros, encobertos em uma grossa camada de nuvens, enegrecida pela própria escuridão. O inverno deixa uma camada de neve de vários centímetros pelo asfalto. Algo belo de se ver, mas que parecia desafiar qualquer cidadão a ultrapassar suas fronteiras geladas e brancas. Nenhum carro... nenhum pedestre... nada. Apenas o vento, os flocos... e a luz fraca das lâmpadas. Nenhum humano parecia se atrever a sair dos edifícios... nem mesmos os mais selvagens animais pareciam ousados o suficiente para tal.
Mas, como sempre... em algum lugar, de qualquer cidade... havia uma criatura curiosa.
O branco de seu manto se confundia ao branco da neve... mas a facha vermelha na cintura revelava a posição dele. Um manto branco, encoberto por tecidos extras e apropriados para os invernos nórdicos, a criatura desconhecida ainda parecia sentir um pouco de frio, cruzando seus braços, sem os apertar contra o corpo. Um capuz branco ocultava sua face... e a fraca luz dos postes não ajudava-nos a identificar o forasteiro. Em seu cinto de couro, pendia uma machadinha de ferro, com uma aerodinâmica moderna, projetada para um melhor desempenho durante o trabalho. Em frente ao cinto, via-se o símbolo triangular em prata, que indicava de qual facção dos Assassinos ele pertencia.
Não se podia ver com clareza... mas seus olhos iam, lentamente, de um ponto a outro da rua. A visão era muito boa, agachado na cobertura de um prédio de dimensões pequenas, de apenas dois andares. O olhar parecia lento... mas vasculhava cada detalhe da pequena ruela, encoberta pelo cobertor branco. Os postes de metal pouco iluminavam... e as lojas estavam fechadas, principalmente naquela hora da noite. Geralmente os donos gostavam de cochilar em suas camas no começo de madrugadas... o mesmo para a maioria de seus clientes.
A maioria.
Foi quando ele apareceu.
Um pequeno barulho de passos surge pela rua. Bem... na verdade não eram passos, e sim o som que eles faziam ao se chocar contra a neve, no caminho. Parecia estar vindo de um dos becos... ou logo da entrada de um para a rua, como os olhos do nosso observador Branco puderam notar. A criatura misteriosa saia de um beco escuro e sombrio... e não aparentava ser diferente da descrição do beco. Vestia uma jaqueta de couro. Vários pares de calça deixavam suas pernas grossas, dificultando a caminhada. As botas negras ajudavam, mas nem tanto. Uma toca negra impedia nosso observador de identificar o cabelo da criatura... mas do rosto conseguia tirar algo. Feições atentas, nervosas e rápidas combinavam com uma barba grossa e astuta de cor negra, que cresciam sob uma pele levemente bronzeada.
Mas, por mais que os detalhes não sejam poucos, não era neles que nosso observador estava prestando mais atenção.
A criatura andava pela extensão da rua com uma certa dificuldade, carregando dois pacotes grandes em seus braços. Pacotes aparentemente simples... lacrados com papelão e muita fita adesiva, e algum selo de identificação em cada. Nada de tão anormal assim... produtos do correio, talvez?
Bom... se fosse isso, nosso observador não estaria ali.
Não teve mais dúvidas... só poderia ser ele. Batia com todas as descrições e investigações... e estava correndo (ou tentando correr) sozinho em uma rua da Noruega, totalmente exposto e sem alguma proteção descente.
O Branco pega uma adaga.
A lâmina desliza lentamente para fora da bainha, localizada na bota marrom do nosso elemento. Sem maiores dificuldades ou hesitações, ele se levanta um pouco, para poder ganhar mira. Leva a adaga a altura dos olhos, mirando diretamente para onde o homem abaixo iria estar dali a poucos milésimos de segundos. O brilho da lâmina mostrava o como havia sido polida e afiada... mas não ficaria limpa assim por muito tempo. Com um rápido movimento, o Branco a lança no ar.
A lâmina percorre o ar, o rasgando rapidamente... e atinge a perna direita do homem.
–AH!
O grito foi curto e fraco... mas foi o suficiente para fazê-lo perder a corrida. Cai de cara na neve, os pacotes de papelão voaram mais a frente, fazendo crateras na neve. Com outro grito de dor, o homem se vira para cima, agarrando a faca, enterrada profundamente em sua panturrilha direita. Um rio de sangue corria para fora do ferimento... tingindo a neve branca com cada vez mais vermelho.
Desesperado, ele encara todos os lados, procurando identificar a origem daquilo. Mas não havia nada... nada que seus olhos pudessem identificar naquela ruela, encoberta pela leve neblina e flocos de neve. Suor percorria seu rosto... originário da dor, do desespero, do medo. Aí que se lembra... ele logo volta seu olhar e seu corpo para frente, onde consegue visualizar um revólver cinza, afundado na neve, e começando a ficar encoberto por ela. Seja lá o que fosse... poderia protegê-lo.
Precisava ir até as caixas e o revólver... e rápido.
Seu punho saí da adaga... e se afunda na neve. Logo o outro punho faz a mesma coisa... e o homem começa a se arrastar pela rua, lentamente. Os sulcos que seu corpo e roupas fazia na neve era preenchido por sangue... o que deixava um caminho de sangue cada vez maior. Os pacotes não estavam longe... mas, para o homem, parecia estar mais longe do que o horizonte. Seus esforços produziam resultados pequenos... mas e se...
Um barulho. Pareciam... passos na neve?
O homem se arrisca a olhar... o que não foi a melhor coisa que já fez na vida.
O vulto branco andava, em um passo acelerado, em sua direção. Estava vindo de trás do homem... e este não sabia de onde o vulto surgira. O passo rápido na neve fazia o manto e a facha vermelha tremularem... quase ocultando a machadinha em sua mão direita. O brilho da lâmina, segurada firmemente pelo vulto branco, pega o homem de surpresa... mas não foi essa a pior parte. O capuz do vulto ocultava suas expressões... mas ele tinha uma estranha certeza quanto a isso.
Estava olhando para ele... e não tinha intenções amigáveis.
Ele se arrasta ainda mais rapidamente do que antes... tentando desesperadamente alcançar o revólver, agora a apenas 20 centímetros de sua mão. Mas, por menor que seja a distância fisicamente... parecia distante para o homem. E o vulto atrás estava se aproximando... e rápido.
O homem tenta, tendo todas as esperanças de sua vida, estender a mão esquerda, para tentar alcançar o revolver. Os dedos se estenderam ao máximo na neve... esperando, enfim, poder tocar a alma, para se proteger do predador a vista. Mas... não foi exatamente o resolver que conseguiu tocar.
A machadinha de ferro afunda na neve... levando junto a mão do homem. A lâmina curva se enterra nas costas da mão, perfurando-a e a levando para dentro da neve. Sangue jorra para cima... se misturando com um urro alto de dor. A mão direita agarra a machadinha... mas o sucesso que ele teve foi tanto quanto com a adaga. Estava enterrado fundo demais em sua carne para fazer alguma coisa... E, mesmo que fizesse, era tarde demais.
Mal teve tempo de ouvir os passos dele já ao seu lado... e já é surpreendido novamente. O vulto branco o agarra pelos lados, e o vira, de barriga para cima, em um movimento rápido e violento. Ao ter a chance de encarar os céus... o homem perde o fôlego. Encarando-o, havia um rosto duvidoso, misterioso... oculto pela sombra do capuz.
–Hva vil Du?! – grita ele ao vulto
Nenhuma resposta.
Após longos segundos, o Branco reage. A sola de sua bota direita é pressionada contra o peito do homem, fazendo-o gemer de dor. Além da dor... surgia-lhe inúmeros outros sentimentos. Dentre eles... a própria dúvida assolava a mente do homem. Várias perguntas estavam em sua mente... mas o vulto não parecia disposto a responder nenhuma delas. O homem, porém, estava rezando em seu interior, para que ele não estivesse disposto a fazer o que estava pensando que ia.
O vulto Branco se agacha sobre o homem... e a mão esquerda agarra a gola deste. O desespero do homem só aumentava... conforme gaguejos e suor se tornavam mais frequentes. Não estava entendendo... tudo bem que o que estava fazendo era ilegal, mas... isso? O que era tudo isso? E... pior... o que era ele?
O vulto Branco ergue sua mão direita aos ares. De dentro da manga branca... água começa a subir para os dedos do Branco. Parecia mágica... a água subia rapidamente pelos dedos brancos, serpenteando até chegar à ponta das unhas. O homem assistia, assustado, a água se solidificando na ponta dos dedos... em formato de garras, longas e afiadas. Um gelo branco... parecia duro, ao mesmo tempo que pontiagudo, faziam as mãos do vulto parecerem patas de uma criatura demoníaca... ou pior.
O homem já havia desistido das súplicas. O suor parara, a boca se estabiliza... o coração se acalmando... e o olhar apontando apenas para uma coisa. Já havia perdido as esperanças... não poderia reagir, não havia como. Mas o pedido ainda estava lá... esperando que o Assassino o perceba.
Mas ele não percebe. O homem nota que o vulto vira o rosto para encarar as garras. Ao fazer isso... a luz do poste incide um pouco sobre seu rosto. A surpresa vem ao homem, quando percebe os traços joviais no rosto daquela criatura sanguinária. E esta mesma criatura, depois de dois segundos, volta a encarar o homem. Os olhos negros pareciam não transmitir nada... mas até mesmo o homem conseguia perceber alguma coisa mais... que logo iria ficar claro.
Com um sorriso no rosto, Kevin desce as garras, em direção ao pescoço do homem.
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