A Kind Of Magic
1 Prólogo
Morella, Espanha.
02 de maio de 1998.
Relâmpagos clareavam o céu naquela noite inquietante. No alto de uma colina dominante sob o pequeno povoado do interior da Espanha erguia-se um imponente e antigo castelo de pedra cuja história remonta à própria pré-história, passando por inúmeras invasões. O castelo tinha o aspecto mais estranho possível, cercado por uma muralha em ruina. Mesmo com aquela áurea sinistra, ninguém conseguia ignorar a sua presença contrastando com a paisagem simples. Mas naquela noite algo mais importante acontecia dentro das paredes de pedra do castelo. Lá fora a chuva começava a cair. Um raio cortou o céu escuro em algum momento, chamando atenção pelas vidraças da torre onde ficavam os aposentos de Eve. Ela estava sentada em uma cadeira e balançava o corpo para frente e para trás lenta e constantemente. Levantando o olhar para as vidraças, as velas iluminaram o rosto marcado de quem já havia vivido mais de um século. Seus olhos cheios de olheiras, cansados, refletiam uma amargura interior. Se pudesse escolher, não viveria para ver os próximos segundos.
No corredor dos aposentos ouviram-se passos apressados – provavelmente eram os servos do castelo, pequenas criaturinhas cujas roupas eram rasgadas e sujas, donas de um corpo magro e miúdo, bracinhos finos como dois gravetos de madeira – além de vozes, algumas dos próprios elfos, outras femininas e humanas. Eve ficou tensa de repente, juntou os lábios ressecados em uma linha fina. Seu desejo era que fosse outro fracasso. Seu desejo era que aquilo finalmente acabasse. Mas não poderia ter os dois. Amaldiçoava o dia em que León saíra de seu ventre. E a verdade era que amaldiçoava a si própria por não ter feito algo quando pode, quando viu seu filho sedento de poder sucumbindo às trevas. Havia sido fraca ou estava cega. Agora era tarde em demasia para salvar a alma de seu filho. E a sua.
“As trevas se espalham ao vento como poeira, pois nenhum trono pode ficar vazio por muito tempo” a voz soou em sua mente, uma voz que a acompanhou durante a vida e Eve fechou os olhos cor de avelã. E em seguida ouviu-se o choro de bebê, mas este não era em sua mente. O choro ecoou pelo castelo inteiro. Pela sétima vez. Internamente desejando que fosse mais uma tentativa falha. Mais passos. “¡Ándale, ándale!” uma voz esganiçada gritava, Eve reconheceu-a como a voz de um dos elfos. Mais correria. E o choro. Num estalar de dedos Eve apagou todas as chamas das velas deixando o cômodo completamente escuro dando a impressão de ser mais frio do que realmente era. A mulher sentindo o corpo cansado levantou-se devagar, caminhou em direção à porta com seu xale de tricô cor de poeira sobre as grossas vestes rosa pálido. Seu olhar alternou de um extremo ao outro quando chegou ao corredor iluminado por castiçais de ouro. O choro que vinha do lado esquerdo estranhamente soava ao longe agora, e por fim Eve optou pelo direito.
Na sala principal da casa um homem estava sentado em uma poltrona de tecido vermelho bem em frente da lareira que, por sua vez, estava acesa e aquecia todo o cômodo. A sala era oval e enorme, havia sofás clássicos por todo o espaço elegantemente colocados. Em outros tempos incontáveis bailes da alta sociedade aconteceram por ali. Já fora mais iluminado, já tivera mais vida. Agora era só um cômodo empoeirado e ainda assim era o seu preferido, sua sala do trono talvez. Nas paredes havia quadros de antigos membros notáveis da família. As pinturas faziam movimentos, ora cochichavam uns com os outros. León simplesmente ignorava. Levou a taça de vinho aos lábios e tomou um gole lentamente. Os olhos amarelos vivos fixados no fogo da lareira de pedra escura. A chuva estava mais forte. Os estalos da madeira no fogo. Trovões. O choro da criança. Lobos e cães uivando ao longe. León estalou os dedos e os animais foram aos poucos silenciando. Abriu um sorriso no canto da boca para o nada, friamente. Sentiu o liquido descer pela garganta. Sentiu que não estava mais sozinho.
— Mamãe – os olhos amarelos encontraram os olhos avelãs, León levantou-se da poltrona com a taça entre os dedos e Eve parou nos últimos degraus da escadaria, seu rosto duro e sério fez com que León abrisse um sorriso debochado — Quer me dar os parabéns, aposto! – mas Eve não respondeu, continuou sustentando o olhar — Sabe o que vai acontecer, não sabe?
— Honestamente espero que seja outro fracasso. – a mulher de cabelos longos e acinzentados desceu os últimos degraus da escada adentrando a sala, o homem de olhos amarelos seguiu-a com o olhar sem desfazer o sorriso — Já seria o sétimo, não é mesmo?
León inclinou a cabeça, brincando com os dedos na taça de cristal que tinha nas mãos. Não viu motivo para levar aquilo a sério, seu rosto ganhou uma expressão de deboche muito maior. O homem tinha cabelos castanhos claros cuidadosamente alinhados. Sua pele era pouco rosada e de perto, levemente escamosa. Mas o que mais chamada atenção eram as duas esferas muito amarelas, não humanas, que eram seus olhos. Assustadoras. Animalescas.
— Ora, querida Eve... – sua voz arrastada, carregada de ironia — Toda a mãe quer que os seus filhos lhe deem netos.
— Você não é meu filho. – retrucou rispidamente, ele fingiu um ar indignado.
— Bem, não importa. – ele deu de ombros, colocando a taça em uma mesinha quadrada feita de carvalho avermelhado que estava por perto — Vai acontecer hoje à noite de qualquer jeito. Você deveria rever suas atitudes, Eve. Minha paciência não é ilimitada.
Eve estreitou o olhar.
— Faça o que quiser, eu não ligo. – havia uma calma nela que o deixou espantado por alguma razão — Faça o que fizer, o tempo continuará sendo seu inimigo como foi até aqui. O tempo é o verdadeiro senhor da vida e da morte. Só uma coisa é mais forte que o tempo, uma coisa que você desconhece, está além de sua compreensão.
— Que frase mais clichê, Eve. – ele continuou debochando — Está ficando velha e piegas. – ele viu uma sombra se aproximando através do corredor que se abria na parede oposta, do outro lado da escadaria — Bem, preciso fazer o que deve ser feito.
Eve virou-se para encarar a figura estranha dos irmãos Pascual, gêmeos conjuntos, dividiam a maior parte do mesmo corpo. Chegando ao tórax a condição dos dois ficava evidente. Mas não era um problema de má formação na gestação, não era uma condição natural. Era uma ideia de León, obviamente. Juntos, Ted e Téo Pascual formavam o melhor mestre de poções de toda a península Ibérica. De uso particular de León, obviamente. Mas não só em poções os gêmeos eram bons, eles eram a mão direita de León no que se tratava de todo o tipo de magia. Magia negra principalmente, a especialidade de León – e sua maior culpa. León passou por ela como um tufão de vento, seguindo com os gêmeos até as masmorras do castelo. O bebê já deveria estar lá. Uma sensação de repugno surgiu em Eve. O bebê tinha poucos minutos de vida. Como León poderia ser tão cruel?
Eve desviou os olhos do corredor e subiu novamente pela escadaria, voltando ao corredor. Os elfos passaram por ela em certo momento, carregando uma bacia de água e sangue e toalhas sujas do parto. Levantaram o olhar para ela, mas nada disseram. Eve passou reto pela porta do próprio quarto e seguiu pelo estreito e longo corredor até a última porta, a que já estava entreaberta. “As trevas se espalham ao vento como poeira, pois nenhum trono pode ficar vazio por muito tempo” repetiu a voz como um eco em sua cabeça. Empurrou a porta. Um elfo logo estava na sua frente e o quarto pouco iluminado, que fez Eve forçar o olhar para a criaturinha.
— E Lorena? – perguntou ao elfo que hesitou.
O nome do elfo fêmea era Martha, era a mais velha trabalhando no castelo e a única que ainda tinha alguma lealdade a Eve. Todos os demais atendiam exclusivamente as ordens de León. No passado Martha havia se arriscado juntamente a Eve, numa noite bem parecida com aquela.
— A senhora Lorena está fraca, senhora. Pascual disse ao mestre que talvez a senhora Lorena não resista muito mais. – o elfo disse com pesar.
Eve passou por Martha e adentrou o quarto onde há muito tempo Lorena dormia sozinha. León havia mudado seus aposentos para a torre mais alta do castelo e permitia a visita de Lorena só ás vezes. Na cama de ferro delicada estava a mulher que dormia pesadamente, exaurida, tinha a respiração falha e as roupas suadas pelo esforço. A pele perolada, os traços delicados de um rosto bem feito, os cabelos negros e encaracolados espalhados pelas almofadas. Eve observou a mulher por alguns segundos. O que existia de beleza nela, existia de maldade. Inveja. Invejou o primo ao invés de reivindicar o que era seu, escondeu-se dele ao invés de enfrentá-lo. E para permanecer escondida, aliou-se a León. Não se importou com a crueldade. E agora que o seu marido iria ascender e seu primo seria derrotado, ela estava morrendo. Que ironia era a vida.
O temporal era mais severo em Londres.
Os pingos grossos caíam no telhado do segundo e ultimo andar daquele orfanato e ali existiam alguns dormitórios. Já havia faltado energia elétrica, obrigando o uso de velas. As freiras que cuidavam do lugar andavam pelos quartos para acalmar os mais novos que estavam assustados pelo som da chuva e dos fortes trovões. Mas havia uma órfã que elas não poderiam acalmar.
A cobra rastejava pelo chão de madeira deixando rastros de sangue. Silencio. Trovões. Chuva. Mais silencio. Dor. Muita dor, de repente. Olhos verdes. Annabeth acordou de sobressalto, seu peito ardia, sem respirar direito. As lágrimas escorreram quentes pelo seu rosto. Ela não sabia o motivo, mas queria desesperadamente chorar. Uma das freiras percebeu e de imediato se pôs a caminho de sua cama, tentou tranquilizá-la, sussurrou baixinho que ela não se preocupasse com a tempestade que logo passaria. Começou a murmurar orações em voz quase inaudível, passando a mão pelos longos cabelos negros da garota que tinha pouco mais de seis anos. Mas o problema de Annabeth não era a tempestade e sim o pesadelo que lhe tirara o folego. Pouco a pouco ela fechou os brilhantes olhinhos cor de mel, algumas gotas de lágrimas rolaram pelas bochechas enquanto Annabeth ia se concentrando nas palavras de conforto.
O tempo era uma força estranha.
Enquanto naquele exato momento um acreditava ter se tornado finalmente o único mestre da varinha das varinhas, outro se tornava o senhor soberano da própria morte.
Passado e futuro se cruzavam.
E o fim era apenas mais um capítulo.
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