A Kind Of Magic

2 Just A Normal Day.


Notas iniciais
Demorou, mas saiu. Essa fanfic é antiga, foi postada nos tempos de ouro do Orkut. E foi terminada. Mas eu estou passando a limpo, corrigindo, enquanto escrevo uma outra fanfic (com uma co-autora, que em breve iremos postar aqui) e me serve para "relaxar" as ideias. Então sim, pode demorar, mas vai sair inteira !!!

Londres, agosto de 2014.

Sem ritmo. Aquilo estava começando a lhe irritar. Ela cruzou a sala indo até sua mesa onde um jarro de água estava circulado por copos de plástico. Odiava copos de plástico. Mas precisava de água. Ela pegou um copo e colocou um pouco do liquido fresco do jarro e bebeu, lutando contra o pensamento de que o garoto era, de fato, um caso perdido. Não gostava de desistir. Desafios eram extremamente atrativos. Mas depois de um semestre de aula o garoto ainda conseguia errar os acordes mais simples. Já estava impaciente. Era apenas um garoto de classe média que estava ali mais por vontade dos pais que por sua própria. Aprender piano parecia sinônimo de classe e educação. Iriam se surpreender com a quantidade de vagabundos que poderiam tocar qualquer sinfonia de Beethoven perfeitamente – e ela conhecera alguns.

Girou nos calcanhares para encontrar novamente a figura desajeitada de Gregory sentado ao piano – um lindo piano de calda na cor marfim – e acabou desviando o olhar para a janela. Era o segundo andar, mais precisamente a última sala no final do corredor onde ela costumava dar aula no Royal Music Institute, uma escola de música em Hammersmith. Dava aulas de piano. A sala era pequena, nela havia uma poltrona próxima ao piano que ficava bem próximo à janela – além do banquinho onde o aluno sentava-se – no extremo oposto da parede da janela ficava a porta de entrada da sala, uma pequena estante de livros em sua maioria de música, e retratos de antigos alunos. Na lateral esquerda ficava a mesa da professora, que não era muito grande e ficava diante de um quadro negro muito útil nas aulas teóricas. Já na lateral direita da sala ficavam as cadeiras empilhadas, caso fossem necessárias em aulas com mais de um aluno. Isso geralmente não acontecia, entretanto. As paredes eram claras, assim como a cortina da janela que estava levantada, deixando evidente o costumeiro céu cinzento de Londres. Annabeth fez o caminho de volta até a poltrona bege e sentou-se enquanto o garoto voltava a confundir os dedos e as teclas. Seus os seus olhos fixaram-se de forma rápida na janela da sala. Levou o copo a boca e umedeceu os lábios, ouvindo o garoto bufar e levantar-se irritado.

— Já chega, já é o suficiente. – Gregory pisava forte no chão procurando alguma coisa, talvez o casaco que havia deixado lá embaixo no hall de entrada, mas não conseguia se lembrar no momento.

Annabeth desviou o olhar para ele.

— Você já foi mais persistente.

O garoto a encarou de imediato.

— Eu não consigo. – a irritação deu lugar a um olhar triste e resignado.

— Você já memorizou todos os passos dessa canção. Já repassamos isso. – ela notou que sua voz soara entediada demais, se queria passar alguma gota de confiança para o garoto deveria melhorar aquilo — Só precisa de motivação e de muita concentração, Gregory. Você já tem as ferramentas. Use-as. Mas você apenas não consegue se concentrar no que sabe.

— Fala como se fosse fácil. – Gregory Turner tinha apenas onze anos, era um garoto inquieto e falante demais.

Ele cruzou os braços, ela arqueou a sobrancelha. No principio ela pensou seriamente em colar os lábios do garoto com alguma cola bem forte. Ele falava mais que a ouvia. Ele a interrompia mais do que prestava atenção. Claro que ela não faria isso de fato, mas foi algo divertido de se imaginar. E ela não costumava ser má com os alunos, apenas não tinha a paciência como uma de suas qualidades. A grande verdade é que já tivera bons alunos, que agora estavam em boas escolas de música e tinham um futuro. Outros... Bem, nem todos nascem com talentos. Alguns possuem a garra de aprender mesmo quando esse talento não é natural. Outros não passam de imposição ou desejos passageiros. No caso de Gregory, imposição.

— Eu jamais disse que seria fácil. Mas não iriamos ficar eternamente na teoria. A prática requer muito de você. Requer que se esforce e você simplesmente não está se esforçando. – Annabeth olhou Gregory nos olhos, o garoto parecia quase não prestar atenção nela, esperava alguma resposta que lhe fosse mais convincente, ela rolou os olhos — Estamos tentando tocar Twinkle Twinkle Little Star, não uma ópera, Gregory. Se acalme.

Annabeth viu Gregory baixar o olhar e encarou as próprias mãos, imitando os movimentos que costumeiramente repetia no piano de ébano da casa de sua professora. O observou durante os segundos seguintes. Quando o garoto ergueu o rosto parecia estar um pouco mais calmo.

— Acha que eu devo continuar tentando, senhorita Castello?

— Eu acho que você sempre deve tentar outra vez, Gregory. – respondeu solicita — E se você quer muito alguma coisa, principalmente.

Ele balançou a cabeça afirmativamente e voltou a sentar-se. Suas mãos deslizaram pelas teclas do piano e procuraram pelas certas. Não foi um pleno sucesso, obviamente. Ainda estava sem ritmo, mais acertou muitas mais notas. Annabeth franziu a testa. Talvez o garoto não fosse um completo desastre, mais ainda não estava concentrado como se esperava. Suas emoções eram muito óbvias. Raiva, frustração, ele sucumbia a elas. Deveria começar a trabalhar nisso para se concentrar em algo.

Gregory era seu quarto e último aluno do dia. Finalmente era sexta-feira e Annabeth só queria descansar nos próximos dias. Mas provavelmente Taylor a arrastaria para algum lugar. Não que isso fosse totalmente ruim. Ela tinha seus vinte e três anos, era jovem demais para aprisionar-se em um pequeno apartamento. Agindo como uma senhora. Sentindo-se uma senhora. Bufou. Já estava dentro do taxi a caminho de casa. Dirigir nunca foi um de seus talentos. A garoa era fina e a temperatura era agradável para uma tarde de verão. O prédio no qual morava ficava ao sul de Earls Court. Mirou as ruas cheias de arvores pela janela. Adorava a arquitetura daquela área de Londres. Estava distraída, acabou sobressaltando quando o celular vibrou no bolso da calça jeans escura que vestia. Olhou para a tela. Mostrava a foto de uma mulher de cabelos ruivos e muito curtos. Tocou na tela, assim a música parou ela levou o celular aos ouvidos.

— Alô.

“Anna. Espero que não esteja atrapalhando a aula...” do outro lado da linha estava Angela com uma voz casada, quase rouca.

— Eu já estou indo para casa. – Annabeth franziu a testa levantando o olhar para o motorista e depois para o caminho, pelo vidro da frente — Aconteceu alguma coisa?

“Eu queria te pedir um favor...” a voz titubeou “Me desculpe pedir isso. Mas eu terei que ir até o hospital no começo da noite para substituir uma enfermeira da equipe de ultima hora. Não vai demorar.” Angela pausou ”Queria saber se as crianças poderiam ficar com você enquanto eu vou?” ela perguntou tímida.

— Sabe que sim. – Annabeth respondeu de imediato — Assim que chegar eu te aviso.

“Obrigada. Eu fico te devendo mais uma...” murmurou antes de desligar.

Annabeth parou encarando a tela touch do celular por alguns segundos quando ela finalizou a ligação. Franziu a tela. Peter era um grande idiota. Estava perdendo uma linda família. Um tolo infantil. E ela podia sim pensar assim dele, afinal se consideravam como irmãos. Angela e Peter começaram uma relação que rendeu dois gêmeos – Annabeth era a madrinha dos dois – mas a relação dos dois agora ia de mal a pior. Peter não estava em Londres no momento. Estava em Nova York a trabalho. Era Angela que agora que tinha toda a responsabilidade. Trabalhava de enfermeira no Spiritus Hospital Of London, nem sempre tinha os turnos mais flexíveis, a rotina era cansativa. Annabeth não se importava em cuidar do casal de gêmeos de seis anos, Louise e Mathew, ajudando Angela. Infelizmente nem sempre podia.

Desceu do taxi e ligou para Angela. Subiu para o terceiro andar onde ficava seu apartamento. Angela e as crianças moravam no quinto e ultimo andar do prédio, apartamento comprado por Peter quando ele e Angela foram morar juntos. Teria subido até lá para ficar com as crianças, mas Angela quem insistiu que não era necessário. Quando o elevador parou e se abriu no final do corredor, Annabeth já os viu. Angela era uma mulher pouco mais alta que Annabeth, cabelo Chanel que ficavam na altura do queixo em um tom natural de vermelho, olhos castanhos. Seu rosto cansado, com leves olheiras. Já Louise sorria de orelha a orelha, enquanto Mathew estava mais distraído com um jogo eletrônico. Ambos eram ruivos como a mãe, tinham olhos marrons como Peter e Angela, mas Louise tinha um queixo mais fino e Mathew tinha orelhas maiores. O cabelo de Louise era comprido e encaracolado. Cachos herdados do pai. Cachos que Mathew também tinha, entretanto seus cabelos eram um pouco espetados.

— Obrigada, Anna. – Angela sorriu quando Annabeth se aproximou, honestamente ela era seu maior apoio.

Annabeth sorriu. Com as chaves em mãos, abriu o apartamento. As crianças entraram. Ouviu-se um miado se aproximar da porta. Era Dracula. Um jovem gato de pelagem muito negra e olhos verdes vivos. Annabeth sorriu quando o felino começou a arranhar a porta e, assim que a abriu, o gato se esfregou nas suas pernas e começou a ronronar. Antes de entrar, voltou-se em direção de Angela com um olhar significativo.

— Preciso falar com você, depois.

Angela balançou o rosto positivamente.

— Eu também quero te contar uma coisa. – disse Angela antes de sair com um olhar estranho.

Annabeth a observou, ela tinha absoluta certeza que era sobre Peter. Annabeth pegou Dracula no colo e entrou, foi diretamente até a cozinha para alimentá-lo enquanto Louise e Mathew se espalharam pela sala. Uma sala compacta. Havia uma estante com alguns livros, bonequinhos de porcelana, meia dúzia de fotos onde Annabeth estava com os amigos, além da televisão e outros aparelhos. As paredes eram brancas e existiam duas janelas no lado oposto da estante. Diante da estante havia um sofá de três lugares e uma mesinha de centro de madeira ficava ali entre as duas coisas. Atrás do sofá, uma pequena mesa de tampo de vidro com quatro cadeiras. Do outro lado da estante havia um piano elétrico, uma vez que um piano convencional não iria caber. No lado esquerdo da porta de entrada e bem abaixo da janela, uma mesinha quadrada com um toca-disco e alguns vinis. No lado oposto as portas do quarto, do minúsculo banheiro e da cozinha que também não era muito grande. Desta porta saiu Annabeth, trazendo leite e biscoitos.

As crianças já estavam confortáveis no sofá. Mathew já havia ligado a TV. As mochilas largadas no canto ao lado da estante. Já estavam muito acostumadas a estarem lá. Desde que nasceram. E Annabeth os adorava. Mathew era mais quieto e Louise adorava saber todos os porquês das coisas. E aparentemente Louise não se distraia com qualquer coisa. Lá estava o ruivinho muito concentrado na tela do videogame portátil, apertando os botões agilmente. Annabeth parou na porta do quarto encarando-o. Estava ficando incomodada com isso. Já estavam ali há bons quarenta minutos e ele continuava vidrado naquela coisa. Tecnologia não era ruim. Mas existia um mundo de coisas para serem feitas do que ficar jogando todo o tempo. No meio dos dois no sofá, o gato de pelagem negra parecia dormir profundamente. Louise afagava o seu pelo. A garotinha prestava mais atenção no gato. A essa altura já haviam lanchado, só restavam farelos de biscoito no prato e copos sujos de leite sobre a mesinha. Annabeth largou o seu caderno de anotações ali para dobrar as mangas da camisa branca até os cotovelos. A pele era levemente rosada, os traços eram fortes e bem marcados. Olhos de mel, brilhantes. Cabelos escuros que davam pouco abaixo dos ombros, ondulados. Levantou o olhar para os gêmeos. E Louise olhou para ela. Parecia triste.

— Quer conversar sobre alguma coisa? – Annabeth sentou-se na pontinha da mesa de centro, com a mão afastou uma mecha de cabelo do rosto da menina.

Louise hesitou.

— Papai não vai voltar mais para casa. – respondeu murcha — Ele não sente nossa falta.

— Claro que sim, meu bem. – Annabeth apressou-se em dizer — Claro que ele sente a falta de vocês, nunca mais diga isso.

— Eu os ouvi hoje... – Louise explicou-se mordendo o lábio inferior, Annabeth pensou se seria esse o assunto do qual Angela queria falar — Kathy disse que com os pais dela foi assim. Eles se separaram.

— Quem é Kathy? – indagou Annabeth, desviou os olhos para Mathew que grunhiu frustrado com os olhos cravados no videogame, mas voltou-se para Louise rapidamente.

— Uma amiga da escola. – respondeu encolhendo os ombros.

— Louise, seu pai sente falta de você e do seu irmão. – outro grunhido de Mathew, Annabeth já estava ficando irritada — É só um problema de casal, ás vezes acontece. Seu pai deve morrer de saudades. Além do mais, ele foi trabalhar. E volta. Mesmo que seus pais um dia tomem uma decisão como essa, nada nunca vai mudar. Eles vão te amar. E vão estar lá quando precisar. As coisas são assim. Não pense nisso. Não agora. – foi passando a mão nos fios macios e ruivos do cabelo de Louise que pareceu querer dizer algo, mas não disse, apenas assentiu — O que acha de... – olhou para Mathew e puxou o game de suas mãos — Fazer algo mais produtivo?

Mathew se pôs de pé, indignado.

— Eu estava jogando!

— Ah, eu vi. O tempo todo. – Annabeth guardou o aparelho no alto da estante sob o olhar bem irritado de Mathew — Não é bom que jogue isso o tempo todo, Mat.

— Mas eu estava...

— Jogando, eu ouvi da primeira vez. – ela cortou — Mas você pode dar uma pausa, que tal nós fazermos alguma coisa juntos?

Mathew cruzou os braços, bufando.

— Continua lendo Harry Potter, tia Anna! – Louise pediu.

— Ah não, isso é chato. Bruxos não existem. – a voz de Mathew era manhosa — Prefiro zumbis.

— Zumbis realmente existem, inclusive comeram o seu cérebro. – a resposta foi de Louise.

Annabeth franziu a testa. Meteu-se antes que Mathew respondesse.

— Sem brigas. Não vamos fazer nada que os dois não concordem. – cruzou os braços.

— Concordamos que eu devo continuar jogando. – Mathew fingiu um sorriso.

— Bela tentativa. – Annabeth ironizou.

Ele voltou a ficar emburrado.

— Por favor... – pediu Louise mais uma vez

— Eu nem lembro onde paramos. – Annabeth disse, fazia semanas.

— A Pesagem Das Varinhas! – Mathew disse por impulso e se arrependeu de imediato.

Louise soltou um risinho. Era o seu jeito de mostrar que cedia, já que não iam lhe devolver seu jogo. Mathew adorava ouvir Annabeth ler Harry Potter, embora ele não fosse admitir jamais. Já estavam no quarto livro e toda vez que iam até lá, Annabeth acabava lendo um pouco. Era estranhamente prazeroso. Como Mathew, ela nunca ia admitir. Annabeth tinha onze anos quando ganhou o primeiro livro de presente secreto no natal. Secretíssimo, pois jamais soube quem lhe deu. As freiras do orfanato ficaram loucas quando a viram com o livro. Tiraram de suas mãos. Era bruxaria! Ela não terminou de ler o livro na época, só sete anos depois soube que na verdade era o professor estranho de turbante que queria roubar a pedra filosofal. Ela comprou a coleção inteira com um dos seus primeiros salários, quando já havia deixado aquele orfanato aos dezoito anos. Leu apenas uma vez. E viu os filmes. Só agora estava relendo. Para as crianças. Uma bela desculpa. Foi até a estante pegando o quarto livro da saga. Harry Potter e o Cálice de Fogo. Sentou-se entre eles e folhou o livro, em busca do capitulo.

— Quando Harry acordou no domingo de manhã, levou algum tempo para se lembrar da razão pela qual se sentia tão infeliz e preocupado. Então, a lembrança da noite anterior o engolfou. Ele se sentou e afastou as cortinas da cama, com a intenção de falar com Rony, forçar Rony a acreditar nele, mas encontrou a cama do amigo vazia, obviamente já fora tomar o café da manhã. – e a leitura continuou.

Não demorou muito mais e logo Angela já estava de volta. As crianças despediram-se e foram na frente, deixando Annabeth e a mãe sozinhas. Annabeth analisou a ruiva por algum tempo. A amiga estava visivelmente cansada.

— Aconteceu alguma coisa? – Annabeth indagou, Angela encostava as costas na parede, seus olhos nublados por algum motivo — Louise me falou sobre Peter...

— Ele volta em um mês. – Angela interrompeu a morena — Pretende alugar uma casa.

— Isso significa que estão se separando? – Annabeth franziu a testa.

— Eu não sei o que isso significa. – Angela suspirou, Annabeth grunhiu indignada — Não posso obrigá-lo a voltar. – fechou os olhos.

— Não pode assumir toda a responsabilidade. – Annabeth retrucou — Ele não pode ficar assim encima do muro para sempre. Precisa exigir uma atitude.

— Não é tão simples.

— Obviamente não é! – a morena ironizou — Ele é pai. Isso não é mais uma coisa simples. – um momento de silencio se seguiu entre as duas — Eu não vou me meter, mas também não posso evitar pensar. Há muito mais envolvido, muito mais em jogo. Louise e Mathew estão no meio de tudo.

Annabeth parou, observando a ruiva. Conheciam-se há mais ou menos uns sete anos. Desde que Annabeth começou a trabalhar em uma lanchonete, ainda morava no orfanato na época, tinha dezesseis anos. E Peter também trabalhava lá para ajudar a pagar sua faculdade. Lá Peter e Angela se conheceram também. E os três viraram grandes amigos. Pode contar com os dois quando precisou mais, ao completar dezoito anos estando legalmente pela sua própria conta. Ela confiaria sua vida aos dois. E a Taylor. Peter era seu irmão de coração. Adorava-o. Mas não poderia fingir que aquilo não era errado. Ele era pai. Pai de dois lindos filhos que já não via há seis meses. Um pai ausente. Era algo com que ela não concordava. Crescera em um orfanato, deixada lá com algumas horas de vida. Não sabia absolutamente nada sobre seus pais. Sabia o que era desejar saber. Peter deveria assumir suas atitudes. Era pai. Mesmo sendo jovem, se tornou pai. Quando conheceu Angela, ele tinha seus dezenove anos. E ela tinha vinte. Era infantil que se distanciasse logo na primeira crise.

— Eu sei. – Angela voltou a encará-la — Vou conversar com ele quando Peter voltar. – mas era a hora de mudar de assunto, Angela não queria falar mais sobre ele — E a pesquisa? Taylor teve algum avanço?

Annabeth moveu os ombros, escorada na guarda do sofá. Estava começando a se arrepender de ter pedido a Taylor que tentasse descobrir algo sobre suas origens. Nunca lhe disseram uma só palavra sobre isso. Talvez tentar fosse inútil.

— Não. – respondeu — Nenhum registro, nenhum papel, nada oficial. Ele está tentando entrar em contato com alguém. – deu de ombros — Eu sei que quando fui deixada lá, fui deixada por uma pessoa que esteve conversando com a madre superiora. Geralmente registram algo. Não no meu caso. – mordeu o lábio inferior, pensou em Taylor, parecia que não o via há séculos.

— Espero que consiga algo. – Angela cruzou os braços, desencostando as costas da parede.

— Eu já nem sei. – Annabeth enrugou a testa com o olhar um pouco perdido, pensativa — Não faz diferença.

Nunca fez. E no fundo, Annabeth já não tinha certeza se queria saber algo. Angela não ficou ali por muito mais. Estava exausta. Deixando Annabeth sozinha, do jeito que estava acostumada. Já era quase meia-noite. Sentada no sofá da silenciosa sala, Annabeth terminava as anotações. Tinha pelo menos nove alunos na próxima semana. Uma semana não tão cheia quanto a ultima pelo menos. Eram pelo menos três aulas por dia, ás vezes quatro. E a tendência era que fossem diminuir consideravelmente quando as aulas recomeçavam para as crianças. E recomeçariam em setembro. Faltava pouco. Tal pensamento lhe fez desviar a atenção.

Setembro. Seu aniversário era no primeiro dia do mês. Automaticamente desviou o olhar para o livro sobre a mesinha. Harry Potter. Até os onze anos nunca tinha realmente ganhado algo só dela. As freiras costumavam fazer um lanchinho especial nos dias dos aniversários. Mesmo que ás vezes o tal lanchinho fosse apenas um pão incrementado, mas era o que poderiam fazer. Era um lugar bem simples. Naquele dia do seu décimo primeiro aniversário as internas mais velhas a acordaram. Traziam um embrulho. Havia chegado pelo correio. Apenas um embrulho com o seu nome e um cartão de “feliz aniversário”. Geralmente eram as internas mais velhas que iam buscar a correspondência por sorte, se fossem as freiras ela nunca teria tido o livro em mãos. E não havia nenhum nome, nada que indicasse quem havia lhe enviado. Isso não importava mais. Havia sido há muito tempo. Não deveria importar, pelo menos. Mas algumas vezes se pegava pensando nisso. Fazia voltas nessa lembrança. Como agora.

Silencio. Lá fora, só o som dos carros que passavam ás vezes pela rua em frente ao prédio. Não era o que poderia ser chamada de rua movimentada, mas estava longe de ser pacata. Bocejou, dando-se por vencida. Annabeth deixou o caderno sob a mesinha e tomou um banho rápido. E depois foi se deitar, sentindo as pálpebras pesando. Estava acordada desde o inicio da manhã. Não demorou a dormir. Logo Dracula foi se juntar a ela, se aninhando ao seu lado.

Annabeth teve um sonho. Estava de pé na beirada de um edifício muito alto. Tão alto que tudo lá embaixo era minúsculo, como formigas, pontinhos em movimento. E o vento batia em seus cabelos. Caracóis negros dançando no ar. Levantava o olhar para o horizonte. Nada além das luzes de Londres deixando as estrelas mais opacas. Só bastaria um impulso. Uma troca de pés. E depois a sensação de estar caindo. Caiu sem parar, como se o chão não existisse. Um monte de imagens embaralhadas ao seu redor. E ela só sentia seu corpo cortar o ar, atraído ao chão pelo efeito gravitacional. Um chão que nunca chegou. Como se ela tivesse caindo em direção ao País das Maravilhas.

Abriu os olhos calmamente. Respirou fundo. Tudo o que via era o teto branco do seu quarto. Tudo que ouvia eram as buzinas de carros ao longe. Só um sonho. Não era a primeira vez que tinha esse sonho. E era apenas um sonho. Não um pesadelo. A sensação da queda era estranha e libertadora. Mas o sonho em si não era incomum, até que sonhos assim eram bem normais. Qualquer especialista diria isso. Ouviu por um momento o som dos carros, um rumor bastante conhecido aos seus ouvidos. Dracula dormia com a cabecinha encima das patas esticadas, logo ao seu lado. Annabeth suspirou, se deixando levar. Acabou voltando a dormir também.

O telefone tocava pela décima terceira vez. Ou quarta. Ela não sabia ao certo. Insistente. Disse a si mesmo que tinha que atender desta vez, poderia ser importante. Tinha que ser importante. Ou praguejaria por acordarem-na tão cedo. Estava se sentindo azeda logo nas primeiras horas da manhã. Seria um dia de péssimo humor. Annabeth abriu os olhos para vislumbrar um quarto levemente claro. A luz fraca nas janelas. Os olhos se fecharam mais uma vez. E se abriram. Seu braço esticou-se até a mesinha de cabeceira, às cegas, atrás do seu celular. Inclinou o pescoço encontrando Dracula tomava um banho de língua aos pés da cama. Atendeu sem olhar para a tela.

— Alô. – estava sendo uma verdadeira batalha para manter os olhos abertos, sua voz saiu meio ranzinza.

“Francamente, já estava quase chamando a policia, os bombeiros, estou te ligando há milênios querida.” a voz ela logo reconheceu, era Taylor, ao fundo havia sons de vozes e possivelmente carros, tudo misturado.

— E desde quando você madruga? – franziu a testa encarando o teto.

“É brincadeira ou você tomou alguma droga forte?” Taylor ironizou ”Não, porque se tomou já é um avanço...” riu debochadamente.

— Eu que estou achando que você não está muito sóbrio. – disse sem paciência — E que som é esse ao fundo? Onde você está nessa hora da manhã?

“Anna querida, são seis horas...” pausou “Da tarde!“ deu ênfase.

Annabeth tirou o telefone do ouvido e encarou a tela, assombrava. A foto de Taylor estampada como avatar do contato. Taylor era um rapaz de cabelos loiros e espetados, um par de grandes olhos verdes e um belo sorriso. Mas não era para vê-lo que Annabeth encarava a tela. Desviou o olhar para o relógio. 18h21m. Impossível.

Como era possível?

— Como eu dormi tanto? – perguntou mais para si que para o amigo do outro lado da linha.

“Ressaca?” a voz era divertida.

— Não! – ela simplesmente não conseguia entender, não era seu costume dormir tanto.

“Bem, você acordou, Bela Adormecida. Temos que conversar...” Taylor disse mais sério.

— Você vai vir aqui?

“Adoraria, mas não posso. Estou em Canterbury.” se tratava de uma cidade do Reino Unido no distrito de Kent “E acho que tenho a última informação possível de encontrar sobre a noite em que foi deixada no Orfanato Santa Victoria.” sua voz agora era muito séria, concentrada.

— Pensei que não houvesse registros. – Annabeth ficou tensa.

“E não há. Mas sabe que há muito além da história escrita.” Taylor replicou.

— O que significa...? – Annabeth sentia um misto de ansiedade e agonia, Taylor era um grande amigo e um ótimo investigador, normalmente trabalhava para departamentos específicos da policia, tinha se dedicado e trabalhado muito por ela para simplesmente dizer a ele que já não queria ouvir mais nada e, também, não estava muito certa do que queria.

“Eu conversei com quem trabalhava no convento na época. Irmã Germanna McLonson e irmã Augustina Perry. Elas estiveram presentes durante toda a sua infância, você mesmo disse. E elas repetem o que nós já sabemos.” e de fato, essa parte da história Annabeth já conhecia muito bem “Você foi abandonada na calçada do orfanato na tarde chuvosa do segundo dia do mês de setembro em 1991, não parecia estar passando bem e aparentemente ninguém notara o bebê do lado da grade. Não até duas estranhas te encontrarem e chamarem as freiras.” era a história.

— Suponho que seja impossível saber quem me deixou lá. – Annabeth comentou.

“De certa forma. Eu não posso ser objetivo sobre isso. Mas conversei com uma freira que foi a razão pela qual viajei para cá. Irmã Katherine Bristton.” Taylor pausou, dando para Annabeth a chance de tentar lembrar-se da tal irmã.

— Katherine Bristton? – foi inútil, o nome lhe era desconhecido — Tem certeza que ela era do mesmo orfanato onde fui deixada? – uma pergunta que Taylor achou absurdamente tola.

“Anna querida, eu não sou amador.” soou impaciente, indignado e um tanto arrogante “Eu não sigo o rastro errado, meu faro é melhor que o de um Bloodhound. Obviamente você não pode se lembrar dela, não claramente. Ela foi embora do orfanato em 1993, você tinha três aninhos. De qualquer jeito, ela disse se lembrar de algo interessante.” pausou muito brevemente graças aos sons ao fundo que ficaram intensos como se um veículo pesado passasse por perto de onde Taylor estava no momento, fazendo Annabeth morder o lábio ansiosamente “Sabíamos que as estranhas que levaram você até o orfanato teriam entregado você a madre superiora, que elas teriam falado diretamente com ela. Seria o mais normal e lógico naquela situação e é, por isso, uma versão bastante aceitável. Infelizmente a madre superiora que dirigia o orfanato naquele tempo já morreu. Mas segundo a irmã Katherine Bristton, seria inútil falar com ela. Ela contou que as pessoas que levaram você até o orfanato, que supostamente a encontraram do lado de fora do portão, falaram e a entregaram diretamente nos braços da irmã Augustina Perry.” e ele pausou novamente.

— Como? – Annabeth estava confusa com o que acabara de ouvir, a irmã Augustina era, de longe, a irmã mais próxima de Annabeth durante a infância no orfanato — Acha que essa irmã Katherine é confiável?

”Eu acho que ela não tinha motivos para mentir. E você, Anna? Acha que a tal Augustina Perry é confiável?” o tom acusador, o ênfase no óbvio.

— Acha que ela sabe de algo? – devolveu a pergunta.

“Se sabe, não vai contar.” disse convicto ”O que é estranho. Não há motivo para tanto segredo. E se me permite dizer, não acredito que você tenha sido encontrada no lado de fora daquele orfanato por aquelas pessoas. Acho que foram elas que te abandonaram. Acho que tem muito mais coisas envolvidas. E a proposito, segundo Katherine Bristton, a mulher que te levava no colo tinha o sotaque carregadíssimo. Definitivamente não era britânica. Ou é assim que ela se lembra. E a outra, a que a acompanhava, era de estatura muito baixa. Mas ela não sabe dizer o que foi dito a Augustina Perry naquela noite. É uma lembrança bem vaga. Infelizmente, todas as informações acabam ai.” Taylor tinha ido a fundo por cada uma das informações, que agora pareciam ser as únicas, não havia mais pistas.

— Obrigada por tudo, Tay. Mas não se preocupe quanto a isso. Eu também não esperava muito mais, não esperava nomes. E também não acho que mudaria alguma coisa. – Annabeth tentou soar animada, talvez sem muito sucesso — Mas você... O que eu faria sem você? – sorriu.

”Estaria dormindo!” ele riu ”Pretende falar com a irmã Perry? Perguntar?” voltou a ficar sério.

— Não. – Annabeth suspirou — O passado, talvez, deva ficar no passado.

O tempo no orfanato era passado. O abandono, fosse qual fosse o motivo, era passado. Tudo havia mudado. Não havia motivos para continuar com aquilo na cabeça, mas ela continuou. Ao desligar o telefone, os pensamentos estavam fixos na mesma coisa. Decidiu-se por sair, comer fora e ver gente. Desconectar a mente. Precisava. Já estava quase pronta quando a campainha tocou. Cruzou a sala e atendeu a porta. E não entendeu.

Uma mulher de cabelos loiros e olhos radiantemente verdes.

— O que...? – Annabeth fechou a boca, abriu e fechou novamente — Joane Skeeter?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.