A Kill For A Kill
16 Marshal e Lucas Encontram Suas Verdades
Ele me irritava.
Eu o observava caminhar com aquela pança enorme, ofensiva, pelo colégio, aquele quadril que se movia de um lado para o outro como se pertencesse a uma mulher obesa demais, que já tivera inúmeros filhos e que agora tinha o corpo de quem sofria as consequências disso, e sentia repulsa. Ele estava errado e muito provavelmente sabia disso. Só era preguiçoso demais para fazer algo a respeito, então se acomodou naquela forma enorme de um barril de vinho antigo. Além do mais, como era ousado por simplesmente ousar passar na minha frente com todo aquele corpo nojento! Ele devia saber que a aparência dele era um problema para as pessoas e que o melhor que tinha a fazer era ficar em casa, se escondendo do mundo e fingir que não existia! Faria um bem para a humanidade.
Mas ele não fazia nada disso. Pelo contrário, até que parecia bem seguro com a aparência que tinha. Circulava pelos corredores da escola como se nada houvesse de errado. Parava professores em suas rotas para tirar dúvidas sobre matérias que ele já conhecia e dominava. É claro que fazia isso com o intuito de se divulgar! Era o queridinho de todos aqueles professores medíocres e sem vida! E é claro que aquele garoto e sua pança enorme só faziam esse tipo de coisa, essa babação de ovo, porque era a única coisa que ele conseguia fazer, tendo a aparência que tinha. Não conseguia amigos e, portanto, nunca namorara. Duvido que um dia tenha beijado alguma garota, ou até algum garoto. Ninguém iria querer tocar naquele corpo gorduroso e imenso.
Ele me incomodava num nível que parecia ser doentio. Eu não suportava vê-lo na escola e até preferia que ele sumisse do meu bairro. Contudo, não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, e até os meus amigos concordavam com isso. Ele não me dera um motivo concreto para que eu tomasse alguma atitude, então tudo o que eu tinha a fazer era aceitar que ele era parte do meu universo e deixá-lo de lado, como se não tivesse importância.
Isso mudou alguns dias depois.
A ocasião não podia ter sido melhor. Eu precisava de uma razão para acertar aquela fuça imensamente gorda e a tive em um momento muito mais do que oportuno.
Naquela época, eu saía com uma garota, talvez a mais popular da escola, segundo o que dizia o meu grupo. Eu saí da escola naquele dia e fiquei do lado de fora a esperá-la, do outro lado da rua, procurando uma visão ampla de todo o prédio e das ruas ao redor. Fiquei lá por tempo suficiente para ver os portões serem selados pela inspetora de classes, que passou um cadeado nas grades, e entrar para a escola, sumindo pela porta. De um instante para outro, algo que deve ter durado cerca de meia hora, eu vi aquela que era uma região pra lá de movimentada em épocas escolares se tornar uma praticamente abandonada. Não havia ninguém nas ruas e podia-se inclusive ter a impressão de que não havia ninguém na escola. Isso significava que a garota com a qual eu ia sair também não estava lá.
A menos, é claro, que ela tivesse ficado dentro da escola, com o portão trancado. E se essa fosse mesmo a verdade, eu precisava fazer algo a respeito.
Andei tranquilamente até o portão principal, sem me preocupar em atravessar a rua, uma vez que não havia movimento nenhum ao redor, o que excluía a possibilidade de algum carro surgir do nada, e segurei as grades dos portões. Olhei até em cima, para verificar se havia alguém às janelas. Não havia ninguém. Sacudi os portões e pedi ajuda, mas ninguém apareceu – e olha que eu fiquei muito tempo sacudindo aquelas drogas de portões. Desisti minutos depois e voltei-me para trás. Não havia nada que eu pudesse fazer. Eu tinha levado um bolo e tinha que me conformar com isso.
No dia seguinte, eu acertaria essas contas.
Estava pronto para engatar a caminhada que me levaria até em casa quando vi um movimento na rua. Sorri com desgosto quando percebi quem vinha – eu ainda tinha a esperança de que a menina fosse aparecer em algum momento. Era aquele gordo, o Lucas, quem vinha. Para a minha surpresa, ele caminhava despreocupado, muito provavelmente por conta dos dois pitbulls que trazia consigo, o que certamente garantia a segurança dele em ruas isoladas como aquela. Talvez estivesse fazendo sua caminhada diária, a fim de emagrecer aquela pança gigantesca, um esforço que levava a nada, pelo visto. Esperei que ele se aproximasse para poder fazer alguma piada. Ele não tinha ninguém para defendê-lo ali.
E de fato o Lucas passou na minha frente, mas me ignorou como se eu não estivesse lá. Seu olhar permaneceu focado à frente, como se nada fosse capaz de distraí-lo. Os únicos que notaram a minha presença foram os cachorros, que viraram as cabeças na minha direção e cheiraram o ar, como se verificassem se me conheciam. Mas também não se proclamaram a respeito. Encontrei, então, a motivação de que precisava para seguir adiante com o meu plano.
- Você tem licença pra andar com essa bagagem toda pelas ruas, ô garoto? – falei em tom de deboche, pronto para rir da minha própria piada.
Lucas parou no lugar e virou a cabeça na minha direção.
- Como é que é? – ele perguntou, não porque não entendera o que eu havia dito, mas porque queria confirmar se eu o havia insultado mesmo, hoje posso dizer.
- Você é tão gordo que tive que me esmagar contra a parede para deixá-lo passar. Isso é uma ofensa a minha pessoa, balofo. Você devia ficar em casa e deixar de incomodar as pessoas normais.
- Está insinuando que eu não sou normal porque sou gordo? – ele perguntou, apertando bem os olhos.
- Pelo visto, seus pais não passaram pra você o manual de boa convivência em sociedade. Deve ser porque você é gordo e nada do que lesse fosse fazer alguma diferença na sua vida.
- Isso é algum tipo de bullying e eu tenho que começar a me preocupar e pensar em fazer algo sobre...?
- É claro que deve. Que tal começar a não passar mais pelo meu caminho, senão eu arrebento essa sua cara enorme?
- Isso é bem ofensivo.
- Imagino que você já esteja acostumado, já que não recebe muitos elogios.
Aquilo foi o suficiente para Lucas. O que veio a seguir aconteceu em pouquíssimos segundos, mas, para mim, pareceram muitos minutos corridos.
Lucas largou as correntes dos cachorros e apenas os observou virem na minha direção. Havia frieza em seu olhar, como se ali não houvesse motivo nenhum de arrependimento. Os cachorros avançaram ferozes e vivazes na minha direção. Mesmo se eu tivesse corrido, não teria conseguido me esquivar deles, porque com certeza eram mais rápidos do que eu. Quando menos pude perceber, eu estava deitado no chão enquanto dois animais me mordiam aqui e ali. Já havia sangue salpicado no meu corpo, decorrente dos ferimentos graves que foram feitos nos meus braços e nas minhas pernas. Eu sentia tanta dor que percebi que iria desmaiar. Meu coração batia tão forte, desesperado, que parecia que ia rasgar pelo peito. Se um guarda na rua não tivesse surgido e assustado os cachorros com um tiro de pistola no ar, talvez eu tivesse morrido ali, no chão, na frente da escola.
- Por que não o ajudou, mocinho? – o guarda perguntou, dirigindo-se ao Lucas.
- Eu...
- Sem mais brigas, ok? – agora ele falou, olhando para mim.
Os ferimentos eram graves, mas nada que tivesse levado muito tempo para serem cuidados. Em casa mesmo, fui cuidado pela minha avó, que usou metros e mais metros de gazes e esparadrapos e litros e mais litros de remédios para ferimentos, a fim de amenizar o meu sofrimento. De qualquer forma, a dor, para mim, não era o problema. Eu estava em choque, e qualquer um teria percebido isso se olhasse na minha cara com mais atenção. Foi naquele momento que passei a ter trauma de cachorros, o que me impedia de ver o menor deles na rua sem estremecer.
Mas aquilo não acabaria ali.
Esperei uma semana, até meus ferimentos melhorarem, e chamei todos os meus amigos para me ajudarem com algo. Naquele dia, eu iria acabar com a raça do Lucas e ele aprenderia que o ele fez comigo nunca foi certo.
Porque há pessoas que só aprendem se levarem uma boa porção de socos na cara.
Então, ao fim da aula, eu e meus amigos, quatro meninos, esperamos do lado de fora da escola, do mesmo jeito que eu tinha feito ao esperar aquela vadia. Lucas apareceu minutos depois, ainda na companhia de seus cachorros. Não precisei fazer sinal nenhum para fazer meus parceiros correrem na direção do balofo, que nos percebeu e logo soltou os cachorros, esperando que eles avançassem em nós. Dois dos meus amigos já estavam preparados para isso e, com tacos de baseball, acertaram em cheio a fuça dos animais, que caíram desmaiados no chão. Agora Lucas não tinha mais como se defender. Teria que ouvir o que eu tinha a dizer.
Outros dois amigos meus seguraram os braços do garoto e o jogaram contra a parede. Quando coloquei meu braço embaixo do seu queixo, segurando-o com força média, para não enforcá-lo ainda, meus amigos se afastaram, e então a conversa se resumiu a mim e ao Lucas.
- Você mexeu com a pessoa errada – falei e acertei-lhe um soco no estômago. – Mas é claro que você sabe disso, não é?
Ele não conseguiu responder. A dor devia ser muita.
- Responde, seu monte de merda! – incitei e agora o soco foi em cheio em sua face direita. Ele cuspiu sangue, que devia ter se originado da mesma ferida que fez seu dente voar longe. – Você acha que aquilo que você fez foi certo? ACHA?!
- Cinco contra um é bem injusto... – ele disse, mas eu não tinha conseguido entender muito bem, porque ele estava com problemas para falar.
- O QUÊ?! – eu gritei e então o esmurrei com meu punho esquerdo. Aquilo chegava a ser excitante. – Fala direito, seu maricas!
- Se for me matar, faça isso de uma vez! – ele pediu e havia filetes de sangue escorrendo pelos cantos da sua boca. Se eu olhasse bem, podia ver que o nariz também expelia parte desse sangue.
- Eu não vou te matar, porque a morte seria um presente pra você! O seu inferno vai ser aqui, meu jovem, nessa escola! – mais um soco em seu rosto. Ele cuspiu outro dente e deu de ombros, como se desistisse de resistir.
Então eu o acertei com um pontapé e o derrubei no chão. A partir daí, não me lembro de mais nada, além de uma profusão de pés e braços que trataram aquele Lucas como um verdadeiro saco de pancadas, o tratamento que ele merecia. Ele parecia bem tranquilo quanto a isso, o que me irritou ainda mais, mas teve um momento em que ficou muito assustado. Não sei se é porque finalmente considerou a ideia de que estava prestes a morrer ou se foi porque Walter Sullivan de repente apareceu por ali, acertando-o com alguns pontapés também, sorrindo.
Fato é que, depois desse dia, esse Lucas nunca mais foi visto. Eu sei que ele ainda frequentava a escola, mas era tão cauteloso que evitava os mesmos caminhos que eu. Melhor para ele.
Ao fim dessa memória, eu acordei num lugar escuro, de chão de pedra, e gritei, sufocado, como se tivesse estado sem respirar há muito tempo. De gatinhas, virei minha cabeça para o lado e encontrei Mila, que tinha uma expressão igualmente assustada no rosto, embora estivesse bastante pálida. Respirei fundo e olhei para frente, em busca de uma referência sobre que lugar poderia ser aquele. Não encontrei nenhuma. Mesmo assim, havia algo mais naquela sala, além da pura escuridão.
Era o Lucas que, em pé a alguns metros de mim, me observava com um ar de superioridade surpreendentemente assustador.
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