A Kill For A Kill
17 21 Sacramentos
Para Marshal, era Lucas ali, mas não para Mila, embora ela olhasse para a pessoa à sua frente com igual surpresa, boquiaberta. Para ela, quem estava ali era o seu pai, vestido como da última vez que o vira, antes de assassiná-lo. Para Marshal, Lucas estava – pelo menos ele imaginava que sim – do mesmo jeito que estava quando levara uma surra dele e de seus amigos naquele fatídico dia. Ao pensar nisso, manchas e cortes na boca do garoto surgiram e as roupas, que antes estavam impecáveis, de repente pareceram surradas e bem maltratadas. Havia uma grande mancha de sangue em sua barriga enorme, sujeira que devia provir de algum ferimento que havia sido feito na região. Marshal se lembrava que um de seus amigos estava com uma chuteira pesada naquele, o que muito provavelmente devia ter causado o ferimento, que parecia grave, mas que causava nenhum espanto ao garoto que o possuía.
Marshal estremeceu no lugar e mal conseguia se levantar. De quatro, ele encarava com expectativa um Lucas de olhar sombrio, quase assassino, e esperava que qualquer coisa fosse acontecer a partir daquele instante. Talvez ele fosse matá-lo com uma faca que guardava no cós da calça e finalmente se vingar. Marshal estava disposto a lutar, mas sabia que não conseguiria fazê-lo da melhor forma possível, pois estava muito cansado. Mesmo assim, tentaria vencer. Mas talvez saísse morto daquele embate.
Sentiu um aperto no coração ao considerar a hipótese de morrer ali. Tinha muita coisa a fazer, não podia deixar a vida para lá naquele momento. O aperto no peito foi tão grande que ele levou uma mão até ele, como se, massageando-o, fosse capaz de se livrar do sofrimento.
E foi fazendo isso que percebeu que não havia mais tiro nenhum por ali. O furo feito pela bala no aeroporto não existia mais.
Marshal arregalou os olhos e suspirou alto.
- Não há mais razão pra esse ferimento continuar com você. Ele não te pertence mais – Lucas disse, rouco, quase como se não tivesse interesse em começar aquela conversa. – Há feridas que nascem em momentos importantes e que deixam cicatrizes para que a gente jamais se esqueça da ocasião. O tiro que você recebeu já não existe mais, porque não precisa. Mas o rastro dele vai estar sempre presente no seu peito.
Marshal ajoelhou-se e levantou a camiseta para constatar o que Lucas falava. Passou o dedo com cautela e repulsa pelo desenho de pele em que o tiro se transformara em seu peito. Milagrosamente, não havia mais qualquer dor ali, mas o garoto já estava acostumado a senti-la, então ainda tinha medo de tocar a cicatriz. Por um momento, pensou que aquilo pudesse ter sido fruto de sua imaginação e que talvez nunca tivesse sido alvejado realmente, mas o sangue que manchara sua camiseta não deixava a memória mentir. Ele de fato tinha sido alvejado, mas, de alguma forma, agora estava curado.
- O mesmo vale pras suas dores de cabeça, Mila – Lucas disse, voltando-se para a garota. A aura do garoto piscou com uma imagem diferente assim que ele se voltou para Mila, e Marshal teve a impressão de ter visto Lucas se transformar numa outra pessoa, num homem, que ele não conhecia.
O cenário continuava negro como antes, como se estivessem todos no meio de um lugar que não existia. Contudo, o chão de pedra continuava tão palpável quanto antes, e inclusive tão frio. Por mais que parecesse firme, nem Marshal nem Mila tiveram vontade de se levantar. Estar próximo ao chão trazia a sensação mais próxima da segurança que eles podiam sentir. Fosse o que a pessoa que estava à frente deles quisesse dizer, eles estavam dispostos a ouvir ajoelhados.
- Vocês fizeram um trabalho louvável até aqui – Lucas prosseguiu, sem se mover. – Sabe quantas pessoas conseguem chegar até O Hospital? Não consigo me lembrar de muitas. Nem Walter Sullivan conseguiria, como jamais conseguiu. Ele tem tanto medo da verdade que jamais conseguiria alcançá-la, mesmo que estivesse à sua frente, pois sua mente cria obstáculos em seu caminho. Aliás, é por isso que vocês estão aqui, não?
Marshal não sabia o que dizer. Manteve-se quieto, apreensivo.
- Vocês estão aqui porque, mais do que nunca, sentem que precisam da verdade, para poderem se livrar das correntes de Silent Hill. Acreditam nisso porque foi essa a informação que passaram a vocês, não é mesmo? O Sullivan. Mas o que vocês não sabem é que o conhecimento que ele tem do que é feito aqui, no Hospital, é resumido a livros e artigos que foram escritos por outros moradores de Silent Hill. Mas nem sempre o que se vê aqui é igual de pessoa para pessoa. Aliás, também não são todos os que saem os mesmos, no final de tudo.
“Acontece que Walter Sullivan é muito religioso, então está acostumado a acreditar em tudo o que está escrito, como na Bíblia. Como a maioria dos religiosos, na verdade. Não é alguém que duvida e que vai atrás de um conhecimento verdadeiro. É uma pessoa que acredita no que foi escrito, se você disser que aquilo é verdadeiro. Deixa-se guiar mais pelas emoções do que pela razão, e acredita em entidades mais do que você ou a garota ao seu lado é capaz de acreditar” Lucas continuou, olhando de relance para Mila.
Houve uma pausa tenebrosa em seu discurso. Marshal conseguiu ouvir a própria respiração durante esse instante.
- E por acreditar no que lê, ele acreditou em algo que está escrito na Bíblia, mas não na que vocês estão acostumados a ler, não, não. É uma muito diferente, um livro que é regido pela mesma religião que rege Silent Hill. O problema é que essa Bíblia foi escrita pela parte má daqui, então qualquer consequência de um ato feito a partir do que está escrito nela sempre vai ser ruim também. Pelo menos para um dos lados.
“No caso de Sullivan, o sacrifício que ele fez em prol da mãe foi muito bom para ela, mas apenas para ela.” Lucas fez uma pausa reflexiva. “Vocês já ouviram falar dos ‘21 Sacramentos’?”
Marshal e Mila sacudiram negativamente a cabeça.
- Sullivan leu que, se fizesse esse ritual, o espírito de sua mãe, morto há muito tempo, seria purificado e poderia, finalmente, ir para o céu, ou para o paraíso, o nome que vocês quiserem conceder. Os “21 Sacramentos” nada mais são do que uma série de assassinatos que se faz tendo como intenção a purificação do espírito de alguém. Você mata e em seguida arranca o coração de quem matou. Isso garante que um espírito seja purificado e que você ganhe uma espécie de “vida eterna”, mas que o mantém preso ao local onde o sacrifício foi feito.
“Para que os ’21 Sacramentos’ sejam efetivos, é preciso assassinar e arrancar o coração de dez pessoas primeiramente. Feito isso, você assassina a si próprio. Nesse instante, o local onde você se suicidou, visando o sacrifício, se torna o seu templo, o seu refúgio. Por mais que você queira ‘morrer’ e deixar aquele lugar, você se manterá preso a ele para sempre. Mas nada te impede de sair e prosseguir com o ritual. Por isso, você deve matar mais dez pessoas, arrancando-lhes o coração, e então o ritual é finalizado. O espírito de alguém é purificado, mas há uma consequência ruim.
“O dono do sacrifício e as pessoas assassinadas ficam vinculadas a Silent Hill. Aqui se torna suas moradas para todo o sempre, onde vivem a sofrer e sempre ficam com a memória daquilo que os levou à morte.”
É por isso que estamos aqui, Marshal pensou com um nó na garganta.
- Percebendo que o ritual funcionava, Sullivan viciou nele. Não viu mais problema em fazê-lo outras vezes, então decidiu refazê-lo e, dessa vez, para purificar o espírito do irmãozinho. – Lucas parou e fez uma cara de surpresa. – Vocês não sabiam que Sullivan matou o próprio irmão no primeiro ritual? Acho que me esqueci de mencionar. Tentando purificar esse espírito foi que ele foi atrás de outras mortes, mas ele não queria ser o responsável por elas. Ainda lendo sua “Bíblia”, descobriu que tudo o que ele precisava fazer era motivar o assassinato, e suas mãos jamais seriam sujas com o sangue alheio.
“Sua mãe estava motivada pelo ódio que Sullivan era capaz de provocar, Mila” Lucas prosseguiu, olhando pra garota. “E Sullivan estava lá, mesmo que espiritualmente, quando ela pensou que seria uma boa ideia te matar. O mesmo aconteceu a você, Marshal” e nesse instante, ele se voltou para o garoto. “Foi Lucas quem te matou. Cara, você o provocou por tanto tempo, motivando o ódio que havia nele, que Sullivan não teve quase trabalho nenhum em fazê-lo querer te matar. Quando menos pôde perceber, Sullivan viu Lucas contatando assassinos de aluguel, que conheceu em favelas, e, por uma bagatela, conseguiu fazer com que você fosse assassinado em um momento oportuno. Lucas sabia que você estava feliz com sua viagem, então nada melhor para servir como vingança do que tirar sua vida quando você estava mais empolgado. E Sullivan estava lá.”
Lucas pigarreou uma vez e pareceu sorrir.
- Foi ele quem os trouxe pra cá. Faz parte do ritual. Silent Hill abriga esses espíritos perdidos, que tiveram suas vidas arrancadas para fins que estão fora do ciclo normal da vida.
- Nós estamos mortos – Marshal disse. Não era uma pergunta.
- Estão – Lucas não hesitou em confirmar. – Mas isso não significa que está tudo acabado pra vocês.
Mila chorava copiosamente ao lado do garoto, abalada. Não conseguiria mais agir como antes, depois de tudo isso. Precisava de ajuda, mas depois Marshal se preocuparia com isso. Por ora, estava tão abalado quanto ela.
- E o que a gente faz? – ele perguntou a Lucas.
- Vocês devem acabar com o Sullivan enquanto ele está do lado de cá. Só assim essas almas perdidas se libertarão dessa jaula chamada Silent Hill e poderão ser livres.
- E como faremos isso?
- Deixe que a pessoa certa o ajude.
Lucas concedeu um olhar assustadoramente malicioso na direção de Marshal, mas esse entendeu bem o que ele queria dizer.
Estava de frente para o principal responsável por todo o mal que havia em Silent Hill. E aceitaria a ajuda dele mesmo assim.
Fale com o autor