A Jornada do Punhos de Ferro
2 A tristeza de Snow
Notas iniciais

White Kingdom, Reino dos Ursos de Armadura.
Khal Lockrage adentrava cada vez mais naquele tal reino. Antes de ser levado para uma enfermagem, o guerreiro urso que havia sido derrotado por Khal contou que era Cuddly, o comandante da guarda primária dos ursos daquele lugar. O bicho também pediu para que o urso de pelugem castanha , chamado Scone, acompanha-se o forasteiro até o castelo.
– O capitão Cuddly não é tão destemido assim, como você pôde percerber. Ele só tem um trabalho ruim — o urso logo se tornou amigo do homem, que tinha que se movimentar escondido em um caixote que era levado pelo urso. Não podia correr o risco de ser visto, mais de cem enormes ursos se jogariam em cima dele ferozmente.
– Eu não entendi o que seu chefe quer que eu faça com o rei. Ele quer que eu o salve, mas de quê? Por quê ele precisa ser salvo se já está envolto por muros de mais de 30 metros de altura? — perguntou o Punhos de Ferro, sussurrando com um tom de sarcasmo. Se sua voz já era baixa, imagine sussurrando. Mas o urso tinha uma boa audição e conseguia escutar tudo claramente.
– Você descobrirá em breve, humano — O urso não falou mais nada dali em diante, só continuou carregando o caixote com Khal dentro e indo sempre em frente. O homem decidiu aproveitar esse tempo para observar a cidade.
Foi só nessa hora que percebeu que ali era muito frio, mesmo usando aquela sua manta negra que lhe cobria todo o corpo e estando dentro de um caixote que só tinha uma abertura para ele poder olhar para fora e respirar. A cidade era cheio de casas mais grandes que o normal, com portas que mais pareciam portões para os ursos poderem passar, telhados em forma de cones, altos e cheios de neve. Não tinham cavalos nem nenhum tipo de montaria ali, então as carroças eram puxadas pelos próprios ursos. Existiam pequenas lojas ali, sendo que as mais comuns eram de Ferreiros, para poderem comprar armaduras e de Venda de peixes, algo que não poderia faltar em uma cidade de ursos. Lá tinham muitas árvores, que geralmente ficavam espalhadas em pequenos grupos dentro da cidade, uma estratégia para que todos tivessem madeira, já que elas eram muito altas e quase totalmente aproveitadas. O céu estava nublado, mas mais ao longe estava fazendo um sol forte, e que provavelmente mais tarde também chegaria ali.
Muito mais à frente deles, havia uma grande escadaria que terminava em um castelo com torres altas e pontiagudas, com as paredes feitas de pedra. Na porta do lugar, Khal conseguia ver a imagem de um grande urso branco pintada ali, como se estivesse rugindo ferozmente. O caminho ainda era longo, então o guerreiro decidiu tirar um cochilo. Não dormira a muito tempo...
Um grito. Uma risada. Uma explosão. E um ruído agudo e atordoante, que fazia parecer com que os ouvidos dele fossem estourar. Abriu os olhos.
Estava sentado em um trono feito de ouro, em uma sala gigante e bonita, com um imenso tapete vermelho no chão. Usava uma coroa do mesmo material que o trono, mas que continha uma estranha pedra laranja cravada em si. Usava roupas de seda real, como se fosse um próprio rei. Ele reconheceu a pedra imediatamente, já que tinha ouvido falar nela. Era o que tanto procurava... A Pedra Filosofal. E estava tão perto dele... Tirou a coroa e tentou arrancar a pedra, mas era impossível, por mais que tentasse.
– O que está fazendo, senhor? — uma voz masculina, mas delicada e culta, perguntou. Khal olhou para o lado e, para sua surpresa, tinha um homem ali. Olhos dourados chocantes, cabelos loiros que lhe caíam até os ombros, pele muito pálida e uma pequena cicatriz na bochecha esquerda. Usava roupas como as de Khal, mas não tão belas.
Sem pensar duas vezes, Lockrage saí correndo sem olhar para trás. Uma pena, pois se tivesse olhado veria que o estranho havia lançado um feitiço. Quando o atingiu, Khal caiu agonizando no chão, sentindo muita dor.
– Você está aqui, não é? Eu posso sentir você... Khal Lockrage, o Punhos de Ferro. Eu consigo sentir sua presença dentro do corpo do rei... Vá embora. Ainda não é hora de você aparecer por aqui — o homem, que ainda agonizava no chão, consegue perceber que o estranho está rindo.
Sem esperar, ele aparece em sua frente e começa a chutá-lo até sangrar. O efeito do feitiço ainda não tinha passado e ele não tinha como lutar. Simplesmente fechou os olhos. Depois de tantas lutas, iria morrer para um merda como esse...
Abriu os olhos. Estava dentro do caixote, usando sua capa e sem nenhuma coroa nem Pedra Filosofal. Não tinha ninguém junto com ele. Decidiu espiar pela abertura que a caixa tinha. A essa altura, já tinha se esquecido da maior parte do pesadelo. Sempre que ele dormia, sonhava com essas coisas. E logo depois se esquecia de tudo.
Agora estava em uma sala, provavelmente dentro do castelo porque as paredes eram da mesma textura que o lado de fora, feitas de pedras. Era cheia de caixas e bugigangas, a maioria empoeiradas. Era a sala onde o rei guardava os presentes que recebia.
Quebrou a tampa do caixote com um soco, e percebeu que fez muito barulho depois que dez guardas ursos entraram no quarto, assustados.
– Humano! Como que entrou aqui? — um deles perguntou, com uma cara raivosa. Khal achou melhor não responder.
– Calado, hã? O Rei Snow vai abrir sua boca e arrancar sua língua! Vamos homens, levem-no- três ursos o agarraram e o levaram para fora da sala, junto com os outros. Estavam num corredor, e entraram em uma porta na ponta dele.
Khal entrou no Salão Real, que era imenso e cheio de vigas para segurar o teto, escoltado de perto pelos dez ursos. Porém, nenhum deles chegava aos pés da criatura que se encontrava deitada em uma espécie de cama, no outro lado do salão. O Rei Snow tinha pelugem branca, olhos azuis e garras negras afiadas e grandes. Usava uma espécie de pintura na cabeça. Sua armadura era feita de ouro, algumas partes tinham algumas pedra azuis para enfeitar. Algumas partes eram feitas de seda e malha, e em cada braço haviam duas pontas de marfim feitas para perfurar o corpo dos inimigos.
O Rei levantou sua cabeçorra branca como a neve e cheirou o ar, sentindo o aroma que o humano exalava.
– Quem ousa invadir meu reino?! — urrou. Todos os ursos no recinto encolheram-se involuntariamente, porém Khal permaneceu impassível.
– Sou Khal Lockrage, mais conhecido como Punhos de Ferro - era a única informação que o homem precisava dar.
– Já escutei falar sobre um homem que chamavam assim, na antiga grande guerra... Diziam que era bem forte. Mas depois que ela acabou, ele sumiu do mapa. Então é você... É verdade que tem ferro cravado nas mãos? Que tristeza... Deixa que eu tiro pra você! — Khal ficou impressionado com as coisas que o rei sabia sobre ele, mas não podia ficar assim. O urso tinha acabado de ameaçá-lo.
Snow levantou-se, as afiadas garras à mostra. O humano ficou em posição de combate e esperou que o inimigo viesse atacar. O monstro, por mais enorme e bruto que fosse, era muito rápido. Veio correndo sobre as quatro patas, e quando chegou perto de Khal, levantou uma delas, lançando um golpe que poderia arrancar a cabeça de um humano normal. Porém o homem também era rápido. Desviou do ataque e, com um movimento incrivelmente rápido, agarrou a manzorra do urso.
Lockrage torceu a pata que segurava, girando-a no ar. O animal urrou de dor e fúria. Seus olhos foram tomados por uma raiva instintiva, e o mesmo abandonou seu lado racional. Tentou uma investida pela esquerda, porém o homem ainda segurava sua pata e o rolou para o chão.
– Há anos que ninguém além dos ursos entra aqui, e isto vai permanecer até hoje! Você não sairá vivo daqui! — gritou o Rei. O urso emitiu um barulho gutural e levantou-se. Mancando, porém ainda letal, correu até o Khal e pulou sobre este. O homem, com um impulso, pulou para uma viga e pendurou-se. Analisou o resto da sala. Todos os outros ursos olhavam a cena boquiabertos. Nunca tinham visto alguém humilhar seu rei daquele jeito.
O animal, tomado pela raiva, começou a escalar rapidamente a viga, até chegar perto o suficiente de Khal para poder se jogar contra ele. Mas não foi uma boa ideia, pois o homem chutou-o para se defender, e fez isso com tamanha força que o urso foi jogado diretamente contra a parede, quebrando-a. Os guardas saíram correndo para ajudar seu rei, mas o forasteiro permaneceu no salão. Pulou da viga e esperou sentado no chão, pois sabia que o urso iria voltar, mais cedo ou mais tarde. E foi aí que teve um plano...
De repente, a parede em que o rei fora jogado para fora do castelo começou a rachar. Khal conseguia escutar Snow batendo com toda sua força contra ela. Depois de alguns segundos, ela cedeu, mostrando um furioso, sujo e ensanguentado urso. Antes que o forasteiro pudesse fazer qualquer coisa, já estava sendo atacado. As garras afiadas do rei conseguiram acertar um de seus braços e a barriga, e o urso o chutou para longe. Khal tentou se levantar, mas o animal fez cortes em suas pernas, fazendo com que não pudesse nem se mexer. O feroz Snow levantou sua pata para dar o golpe de misericórdia, mas logo a abaixou.
– Khal Lockrage... Eu nunca havia sido humilhado dessa maneira. Como... Como um simples humano como você conseguia fazer isso comigo? — o urso estava perplexo.
– Talvez seja por que você nunca tinha lutado com alguém de fora dessas muralhas, a não ser na guerra. Snow, já está na hora de você abrir aquele portão e deixar o mundo conhecer este seu reino — Khal percebeu que o rei estava se acalmando. Seu plano tinha dado certo.
– Sabe... Mesmo com toda a raiva que eu tive durante essa luta, você conseguiu me entreter e me divertir, algo que há tempos eu não fazia. Há alguns anos, minha esposa levou meu filho para passear fora das muralhas, e nunca mais voltaram. Mandei todos os meus homens procurá-los, e encontraram um rastro de sangue que ia até uma aldeia de aborígenes. Naquela mesma noite, matei todos da tal tribo e encontrei a pele de minha família lá. Foi por isso que fechei todo o contato com o mundo de fora. Eu pensei que todos eram assim, que todos nos matariam só para ter algumas peça de roupa ou dinheiro.
– Por incrível que pareça, é assim mesmo que as coisas funcionam hoje em dia — Khal estava entendendo a tristeza do rei.
– Depois de fechar o portão, eu perdi o ânimo pela vida. Os cidadãos me traziam presentes para me alegrar, mas nada nem ninguém conseguia. Eu tinha perdido minha família que eu tanto amava — o urso estava lacrimejando — E hoje, alguém vindo de fora conseguiu chamar minha atenção. Ninguém nunca conseguiu passar do comandante Cuddly, que você encontrou no portão. Todos os meus soldados foram fiéis, e não deixavam ninguém entrar aqui, como eu tinha ordenado. O problema era que também não deixavam ninguém sair. Quem tentasse ia ser morto. Eu tinha me tornado um tirano. Mas agora, você me fez perceber que lá fora existem muitos perigos, e não podemos fugir deles e fingir que não existem! Temos que enfrentá-los sem medo e com força de vontade, mesmo sabendo que podemos perder! — Snow deitou-se, e Khal fez o mesmo.
– É assim que se fala! Que tal algum dia você me dar uma revanche, o que acha? — os dois começaram a rir como doidos.
– Por enquanto, vamos apenas descansar... — Snow adormeceu antes de acabar a frase.
O forasteiro ficou ali deitado, ao lado do grande urso, olhando para o teto do castelo. Não queria dormir, pois senão teria outro pesadelo, mas mesmo assim fechou os olhos. E permaneceu ali, com os olhos fechados. Tinha percebido o que Cuddly quis dizer quando pediu para o homem salvar o rei. E tinha conseguido fazer isso.
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