O caminho até o Monte Douran, o vulcão vivo do Leste, era sufocante.

As pedras queimavam sob os pés. O ar vibrava de calor.

Mesmo Miruan, acostumado com magia e tormentas, voava em círculos baixos, com as penas eriçadas.

— Aqui não é só fogo. — disse Agnes. — Tem fúria... mágica. Sentimentos vivos.

Odel olhava em silêncio para a fumaça que subia do cume.

Eles estavam perto do terceiro Altar — mas algo deixava Odel estranho. Calado. Tenso.

Quando acamparam numa caverna próxima, Agnes pressionou:

- Odel... você conhece esse lugar?

Ele hesitou.

- Meu pai morreu aqui.


Silêncio.

Diziam que foi um acidente. Mas minha mãe... ela sabia. Ela dizia que o Vento do Leste o julgou. E que o sangue dele... acordou as chamas.

Agnes sentiu um arrepio.

— Seu pai... tentou despertar o Altar?

Odel assentiu.

— Ele não acreditava no selo. Achava que os ventos eram armas.

A Voz da Mãe... era parte do mesmo círculo. Quando ele morreu, ela desapareceu. E minha mãe fugiu pro norte comigo.


Na manhã seguinte, chegaram à Boca de Douran.

O chão tremia. Gases mágicos subiam em espirais coloridas.

Ali, ao centro da cratera, flutuava um círculo de pedra flamejante, o Altar do Leste.

Mas não estava vazio.

Uma mulher esperava ali.

Cabelos vermelhos como lava, olhos âmbar, pele marcada por brasas vivas.

Ela cantava uma melodia ardente, e as chamas dançavam em torno dela como serpentes.

— Sejam bem-vindos. — ela disse. — Eu sou

Anya, a Guardiã do Altar.

Agnes ficou alerta.

— Você serve à Voz da Mãe?

Anya sorriu.

Não. Eu sirvo ao Vento do Leste. E ele não aceita o equilíbrio. Ele exige sentimento. Decisão. Desejo.

Ela olhou diretamente para Odel.

— E ele arde em você.


O Despertar


Odel sentiu o calor subir como febre.

O Altar brilhou intensamente.

O Vento do Leste se ergueu das chamas — uma entidade em forma de serpente flamejante, com olhos como carvões vivos e um rastro de fogo atrás do corpo.

Seu rugido era um misto de riso e grito de dor.

Não julgava. Não ouvia. Exigia.

"Mostra tua chama, guerreiro.

Ou queima com as cinzas."

Odel foi puxado para dentro da cratera.

Agnes tentou correr atrás, mas Anya bloqueou o caminho.

- Não é sua batalha. O Vento do Leste só reconhece o fogo pessoal.

Dentro da cratera, Odel caiu num tipo de mundo de memória viva.


A Provação de Odel


Ele estava num campo de batalha.

Seu pai diante dele. Feroz. Orgulhoso.

"Você é fraco, Odel. Sempre foi." "O que você vai proteger? Essa bruxa? Esse mundo em pedaços?"

O chão ardia.

Odel gritou:

— "Eu não quero ser como você!"

O pai avançou. A lâmina em mãos.

Mas Odel não sacou a espada.

Ele apenas cantou.

Uma nota só.

A nota que Agnes cantara para acalmar o Sul.

Mas mais grave. Mais humana.

O fogo respondeu.

O Coração Aceso


O Vento do Leste recuou.

A serpente de fogo se desfez em brasas.

O campo de memória queimou em luz.

Odel surgiu da cratera... carregando um fragmento incandescente.

Seus olhos estavam diferentes.

Firmes. Assombrados. Claros.

- Eu senti tudo. O ódio dele. O meu.

Agnes se aproximou.

E você venceu? Não. Eu aceitei.


Anya sorriu. Tocou o ombro de Odel.

Três ventos. Três fragmentos. Mas cuidado. O último não sopra. Ele devora.

E desapareceu em fumaça quente.