A Jornada Da Bruxa (Quando Os Ventos Cantam)
9 Capítulo 9 - O Mar que Não Dorme
O norte profundo não tinha trilhas só neve, silêncio, e um mar que se estendia além do horizonte — congelado na superficie, mas pulsando por baixo.
Era ali que o Vento do Oeste foi selado.
Não em pedra.
Não em fogo.
Mas no tempo.
Enquanto caminhavam sobre o gelo, Agnes sentia as vozes. Pequenas, distantes, como suspiros vindos debaixo da superfície.
— Ele não fala... — ela murmurou. — Ele se infiltra. Como veneno no ar.
Odel andava com a mão na espada.
Miruan não piava. Ficava pousado no ombro de Agnes, imóvel, com os olhos vidrados no infinito.
Era como se o mundo ali estivesse...
dormindo.
Ou fingindo que dormia.
O Último Altar
No centro da planície congelada havia uma ilha de gelo negro — o último altar.
Mas diferente dos outros, este não parecia chamá-los.
Ele os repelia.
A cada passo, Agnes sentia a canção dentro dela enfraquecer. Como se as notas estivessem sendo arrancadas, sugadas.
- Algo está errado. Muito errado.
E então a Voz da Mãe surgiu.
O Confronto
Ela não apareceu como espectro.
Ela chegou. Em carne e osso.
Vestes negras como o céu sem lua, o cabelo esvoaçando mesmo sem vento. Os olhos dela...eram dois abismos.
E em sua mão, ela carregava um fragmento de cristal escuro.
Vocês fizeram bem. Três fragmentos...
bravamente conquistados.
Mas só existe um fim possível: libertar o
Vento do Oeste.
Odel avançou com a espada.
— Você quer acordar esse espírito pra destruir o mundo?
A Voz da Mãe sorriu.
Não pra destruir.
Pra reiniciar.
Ela olhou para Agnes.
— Você já ouviu os sussurros.
— O mundo está doente. Envenenado pelas guerras, pelos pactos, pelas mentiras das bruxas antigas.
— Você mesma carregando sangue delas.
— Sabe que não há salvação. Só renascimento.
Agnes hesitou.
— E os ventos... seriam os juízes?
— Não. Seriam os limpadores.
— Quando os quatro forem reunidos... a Canção original tocará.
— E o mundo será varrido. Só quem tiver ouvido limpo de medo ouvirá o novo começo.
O Escolhido
Nesse momento, o gelo sob os pés começou a rachar.
Do altar, o Vento do Oeste começou a emergir.
Não tinha forma.
Era uma sombra líquida.
Um mar de vozes esquecidas.
A junção de todas as dores, traumas e promessas não cumpridas.
Agnes caiu de joelhos.
Miruan começou a chorar. Um choro humano.
Odel gritou:
LUTA, AGNES!
VOCÊ É MAIS DO QUE O PASSADO!
Mas ela não conseguia. O vento dentro dela... estava sendo consumido.
Foi então que Odel correu.
Não pro altar.
Mas pra Agnes.
E abraçou ela.
Não com magia.
Mas com amor. Verdadeiro. Queimando.
Eu te escolho. Agora. Com tudo.
Mesmo se o mundo acabar.
A luz dos três fragmentos brilhou no peito de
Agnes.
E o do Oeste... hesitou.
Por um segundo, a sombra tremeu.
E Agnes cantou.
A Canção de Todos os Ventos
Não era a canção de destruição.
Era a canção dos quatro juntos.
Ela uniu os assobios do Sul, a gravidade do Norte, a fúria do Leste e... o sussurro do Oeste.
Ela não selou o espírito.
Ela o escutou.
E fez ele escutar de volta.
O Vento do Oeste parou.
E pela primeira vez... chorou.
O Silêncio Pós-Canto
A Voz da Mãe caiu de joelhos.
— Não era pra ser assim...
— Eu só queria... que tudo recomeçasse...
Agnes a olhou, sem raiva. Só com pena.
— O mundo não precisa recomeçar.
— Ele precisa se lembrar de quem é.
— Como os ventos.
Fale com o autor