A Jornada Da Bruxa (Quando Os Ventos Cantam)

7 Capítulo 7 - O Julgamento de Pedra


As Montanhas de Nhar eram mais antigas que os reinos humanos.

Diziam que nasceram quando os Ventos lutaram uns contra os outros pela primeira vez, e o Norte caiu sobre a terra como um punho de gelo.

Odel, Agnes e Miruan chegaram ali após semanas entre os desertos e planícies. Os três estavam diferentes: mais duros, mais atentos, e — no caso de Agnes — mais assombrados pelo que a Canção dos Ventos começava a revelar.

No vale gelado que cortava Nhar ao meio, não havia animais. Nem vento.

Só o som dos próprios passos, ecoando nas pedras como se estivessem sendo julgados.

Isso aqui parece um túmulo — disse Odel. Talvez seja. — respondeu Agnes, olhando ao redor.


Eles chegaram a um antigo círculo de pedra. No centro, um menir negro marcado por runas.

Parecia que alguém — ou algo — o havia esculpido com dedos maiores que humanos.

Quando Agnes se aproximou, sentiu um peso esmagador no ar.

Está aqui. — ela disse. — O segundo Altar. Algum espírito gigante vai levantar e gritar com a gente de novo? Não. Aqui, o espírito espera. E observa.

Ela colocou a mão sobre a pedra... e foi tomada pela Canção.


Visão da Rocha

Neve.

Escuridão.

Uma criatura feita de pedra viva e gelo antigo.

O Vento do Norte, chamado Arkhom, o Primeiro Juiz.

Ele não gritava.

Não rugia.

Apenas olhava.

Sua função? Julgar as almas dos ventos.

Quando a Canção era usada para o mal, ele era despertado.

Mas quando os humanos começaram a usar os ventos para guerra... para matar e corromper...

Arkhom condenou o mundo.

E decidiu:

"Se a Canção foi profanada, então o silêncio será a sentença."

_________________________________


Agnes voltou ao presente. Estava com a mão trêmula.

- O Vento do Norte não é furioso. Ele é frio.

Imparcial.

— Ele vai nos julgar.

Odel se aproximou.

— E se ele achar que a gente merece morrer?

Agnes olhou para ele, e pela primeira vez, duvidou.

- Talvez... a gente mereça.


O Julgamento


As pedras ao redor começaram a tremer. O ar ficou denso, gelado. Do chão, lentamente, Arkhom emergiu — um colosso de rocha viva e olhos de cristal branco.

Ele não falava com palavras.

Falava na mente. Com o peso de eras.

"Vocês despertaram o Vento do Sul.

Carregam em si fragmentos do poder que selamos.

Por quê?"

Agnes respirou fundo.

Porque o mundo está morrendo. E a Canção dos Ventos está tentando nos avisar. Queremos entender. Ajudar. Ou... consertar o que nossas mães quebraram.

O gigante os encarou.

"Vocês carregam culpa herdada. Dor que não é sua.

E mesmo assim... querem responder por ela?"

Odel, mesmo tremendo, falou:

Nossos pais escolheram o silêncio. Nós escolhemos a verdade.

Arkhom então estendeu a mão.

- Então cantem. Mas se mentirem... este será o fim.

Agnes e Odel se entreolharam.

E começaram a cantar.

Mas desta vez, não era só magia. Era uma confissão.

Eles cantaram as visões. As dúvidas. As dores.

Agnes cantou o medo de se tornar como a mãe.

Odel cantou o vazio de crescer sem saber a verdade.

A montanha ouviu.

Arkhom não falou mais.

Ele apenas desfez-se em pedra leve, como se tivesse cumprido seu papel.

No lugar onde estava, restou uma segunda pedra de vento, brilhando em azul-claro.

Agnes a pegou com reverência.

Agora tinham dois fragmentos. Dois Ventos

acordados. Dois julgamentos passados.

Mas no alto da montanha, uma figura encapuzada observava.

A Voz da Mãe.

Dessa vez, ela não sorriu.