A Jornada Da Bruxa (Quando Os Ventos Cantam)

6 Capítulo 6 — O Espírito e a Canção


O Vento do Sul rugiu como uma tempestade viva.

Seu corpo — um vendaval de areia escaldante — girava em torno do altar partido, rasgando o céu com correntes e trovões de poeira. Seus olhos de luz morta fixaram-se em Agnes, e o chão se partiu sob seus pés.

Odel puxou Agnes para trás no último segundo, rolando com ela para uma fissura de pedra. Um redemoinho cortou o ar onde eles estavam.

Miruan voou em círculos acima, gritando para a bruxa como se pedisse: canta de novo!

Agnes se levantou.

A música... só a música pode acalmá-lo! Então canta, bruxa! — Odel gritou, preparando sua espada. — Eu seguro o monstro!


Odel correu para o espírito com a lâmina em mãos, mesmo sabendo que aquilo não podia ser morto com aço. Ele sabia disso — e mesmo assim foi.

Enquanto ele distraía a criatura, Agnes se ajoelhou.

Fechou os olhos. Tocou o chão.

Respirou fundo e ouviu o vento.

Mas algo estava errado.

A Canção não vinha.

Era como se o espírito gritasse alto demais.

Como se a música do mundo tivesse sido soterrada.

Foi aí que ela percebeu: o que o Vento do Sul precisava não era silêncio. Era memória.

Ele não estava furioso à toa. Ele estava perdido.

Esquecido.

Ela sussurrou:

- "De onde você veio, espírito do deserto? O que foi tirado de você?"

A resposta veio como uma visão brutal.


Visão da Areia


O Vento do Sul, um dia, fora Zariun, o

Guardião das Dunas.

Ele trazia as chuvas para os mares do sul, cantava nas caravanas, embalava sementes no deserto.

Era amado.

Mas quando os humanos construíram torres de pedra e canais de ferro, tentaram prendê-lo.

Diziam que ele levava embora o ouro das minas, que causava tempestades mágicas.

As bruxas — incluindo a mãe de Agnes e a mãe de Odel — foram forçadas a selá-lo.

Mas Zariun não odiava elas.

Ele gritava de dor... porque estava sozinho.

Esquecido.

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Agnes abriu os olhos, em lágrimas.

Ela entendia.

O Vento do Sul precisava lembrar quem era.

Ela se levantou, firme, e cantou.

Mas não a canção dos mapas.

Ela cantou uma canção nova — feita ali, na hora, com notas de lamento e esperança.

Uma canção para um guardião caído.

Uma canção de perdão.

O ar ao redor vibrou. O espírito parou.

Odel, quase desmaiando, olhou a cena.

O Vento do Sul ergueu-se aos céus, imenso...

E gritou, não de fúria, mas como se suspirasse após séculos.

Sua forma começou a se dissolver.

A areia caiu como chuva dourada.

E ali, flutuando onde antes havia tempestade, ficou um fragmento de cristal translúcido, pulsando com luz suave.


Agnes se aproximou. Tocou o cristal.

Zariun sussurrou:

"Três ventos dormem ainda... mas ela os chama.

A Voz da Mãe.

Vocês devem impedir o despertar completo... ou o mundo será varrido."

Agnes guardou o cristal.

Odel caiu de joelhos, exausto.

Você cantou... e ele te ouviu. Porque ele só queria ser lembrado.

Miruan pousou no ombro dela, enroscando-se como se dissesse "muito bem".


Mas o momento de paz foi breve.

No topo de uma duna próxima, A Voz da Mãe os observava.

Bravo, pequena bruxa. — ela disse. — Você acalmou o espírito. Mas não poderá fazer o mesmo com os outros. O do Norte... ele não canta. Ele devora.

E ela desapareceu num redemoinho negro.