A Jornada Da Bruxa (Quando Os Ventos Cantam)
4 Capítulo 4 — A Fuga de Nyren
Nyren estava morrendo.
A floresta, antes viva, agora parecia um campo de espectros. As árvores antigas exalavam uma fumaça escura, e galhos tremiam sem vento. As raízes sangravam se cortadas. E os Feraluzes, que antes corriam livres, agora uivavam de dor — ou estavam mortos.
Agnes e Odel observavam de uma colina escondida. A cabana onde ela crescera ardia em chamas. Ao redor, os Caçadores vasculhavam cada canto, guiados por cães mágicos e bússolas de prata que giravam sozinhas.
Odel rangeu os dentes.
Eles queimaram tudo... Estão limpando os rastros de magia. É isso que fazem. — Agnes respondeu com os olhos fixos no fogo. — Um encantamento por vez.Ela sentiu uma pontada no peito. Não pela cabana mas pelo grimório de sua mãe, que não conseguiu recuperar. Odel puxou o manto sobre o rosto. Miruan, empoleirado em seu ombro, estava agitado. Suas asas tremulavam, mas não alçavam voo. O que faremos? — ele perguntou. Há um antigo caminho entre raízes, abaixo da Colina da Três Pedras. Leva para fora da floresta, até os ermos de Darnis. É perigoso, mas mais rápido que cruzar os campos abertos. — ela respondeu. Perigoso como? Espíritos antigos. Espíritos famintos.Odel assentiuEntão é por ali que vamos.A entrada do caminho era coberta por um carvalho imenso, suas raízes entrelaçadas como costelas de uma criatura antiga. Agnes tocou uma runa escondida no tronco. O chão tremeu.
— Nunca pensei que usaria isso... — ela murmurou.
As raízes se moveram, abrindo um túnel escuro e úmido, coberto de símbolos de luz pálida.
— Depois de você. — Odel disse, tentando esconder o medo.
Lá dentro, a escuridão era quase sólida. Apenas as marcas nas paredes iluminavam o caminho.
Era como andar por dentro de um antigo ser adormecido.
— Sente isso? — Odel sussurrou.
Agnes parou.
Havia um som... não, uma vibração. Uma espécie de canto sussurrado, vindo de todas as direções. Era a Canção dos Ventos, mas distorcida. Corrompida.
Miruan se agachou, eriçado.
De repente — GRITOS.
Atrás deles. Caçadores.
Tinham encontrado a entrada. Estavam vindo.
- Corre! — Agnes gritou, puxando Odel pela túnica.
Eles correram por túneis serpenteantes, enquanto sons de combate ecoavam atrás.
Flechas mágicas zumbiam pelo ar. Uma delas raspou no ombro de Odel.
- Continue! — ele gritou.
Mas então o caminho se dividiu em três. As luzes nas paredes começaram a piscar, como se a caverna estivesse perdendo a magia.
Agnes parou. Olhou os três caminhos. Respirou
— Escuta... — ela fechou os olhos. — Escuta o vento...
Odel olhou pra ela, incrédulo.
E então, o vento cantou.
Um dos túneis respondeu com uma nota suave, quase triste. Ela abriu os olhos.
— Por ali.
Eles seguiram. Atrás, gritos de frustração dos caçadores indicavam que tinham perdido o rastro. Mas a vitória durou pouco.
Na saída do túnel, à beira de um desfiladeiro, algo os esperava.
Um ser de pedra e fumaça.
O Guardião do Caminho.
Antigo. Cego. Mas com a alma ainda acesa.
Agnes se encolheu instintivamente.
- Isso é magia do Primeiro Vento... isso não devia estar acordado!
Odel sacou a lâmina.
— Então a gente faz dormir de novo!
A criatura avançou. O chão tremeu. Suas mãos eram como martelos de rocha viva.
Odel rolou para o lado, tentando distrair. Agnes conjurou espinhos de vento cortante, mas mal arranharam a pele mágica da criatura. A coisa gritou, um som que fazia os ossos tremerem.
A música... a música! — Agnes gritou. — Odel, canta! O quê?! Canta qualquer coisa! Confia em mim!Odel fechou os olhos e, com a voz rouca, começou a cantar uma canção antiga — uma que sua mãe cantava quando ele era criança.
Fraca. Torta. Mas sincera.
O guardião parou.
Agnes se juntou a ele, sussurrando as notas da Canção dos Ventos que ouviu nos sussurros.
A criatura recuou... e desapareceu em poeira.
Silêncio.
Eles estavam livres.
Odel caiu de joelhos.
- O que foi isso...?
Agnes respirava com dificuldade.
- A primeira chave. O primeiro selo está acordando. E ele... nos ouviu.
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