Nyren estava morrendo.

A floresta, antes viva, agora parecia um campo de espectros. As árvores antigas exalavam uma fumaça escura, e galhos tremiam sem vento. As raízes sangravam se cortadas. E os Feraluzes, que antes corriam livres, agora uivavam de dor — ou estavam mortos.

Agnes e Odel observavam de uma colina escondida. A cabana onde ela crescera ardia em chamas. Ao redor, os Caçadores vasculhavam cada canto, guiados por cães mágicos e bússolas de prata que giravam sozinhas.

Odel rangeu os dentes.

Eles queimaram tudo... Estão limpando os rastros de magia. É isso que fazem. — Agnes respondeu com os olhos fixos no fogo. — Um encantamento por vez.Ela sentiu uma pontada no peito. Não pela cabana mas pelo grimório de sua mãe, que não conseguiu recuperar. Odel puxou o manto sobre o rosto. Miruan, empoleirado em seu ombro, estava agitado. Suas asas tremulavam, mas não alçavam voo. O que faremos? — ele perguntou. Há um antigo caminho entre raízes, abaixo da Colina da Três Pedras. Leva para fora da floresta, até os ermos de Darnis. É perigoso, mas mais rápido que cruzar os campos abertos. — ela respondeu. Perigoso como? Espíritos antigos. Espíritos famintos.Odel assentiuEntão é por ali que vamos.


A entrada do caminho era coberta por um carvalho imenso, suas raízes entrelaçadas como costelas de uma criatura antiga. Agnes tocou uma runa escondida no tronco. O chão tremeu.

— Nunca pensei que usaria isso... — ela murmurou.

As raízes se moveram, abrindo um túnel escuro e úmido, coberto de símbolos de luz pálida.

— Depois de você. — Odel disse, tentando esconder o medo.

Lá dentro, a escuridão era quase sólida. Apenas as marcas nas paredes iluminavam o caminho.

Era como andar por dentro de um antigo ser adormecido.

— Sente isso? — Odel sussurrou.

Agnes parou.

Havia um som... não, uma vibração. Uma espécie de canto sussurrado, vindo de todas as direções. Era a Canção dos Ventos, mas distorcida. Corrompida.


Miruan se agachou, eriçado.

De repente — GRITOS.

Atrás deles. Caçadores.

Tinham encontrado a entrada. Estavam vindo.

- Corre! — Agnes gritou, puxando Odel pela túnica.

Eles correram por túneis serpenteantes, enquanto sons de combate ecoavam atrás.

Flechas mágicas zumbiam pelo ar. Uma delas raspou no ombro de Odel.

- Continue! — ele gritou.

Mas então o caminho se dividiu em três. As luzes nas paredes começaram a piscar, como se a caverna estivesse perdendo a magia.


Agnes parou. Olhou os três caminhos. Respirou

— Escuta... — ela fechou os olhos. — Escuta o vento...

Odel olhou pra ela, incrédulo.

E então, o vento cantou.

Um dos túneis respondeu com uma nota suave, quase triste. Ela abriu os olhos.

— Por ali.

Eles seguiram. Atrás, gritos de frustração dos caçadores indicavam que tinham perdido o rastro. Mas a vitória durou pouco.

Na saída do túnel, à beira de um desfiladeiro, algo os esperava.

Um ser de pedra e fumaça.

O Guardião do Caminho.

Antigo. Cego. Mas com a alma ainda acesa.


Agnes se encolheu instintivamente.

- Isso é magia do Primeiro Vento... isso não devia estar acordado!

Odel sacou a lâmina.

— Então a gente faz dormir de novo!

A criatura avançou. O chão tremeu. Suas mãos eram como martelos de rocha viva.

Odel rolou para o lado, tentando distrair. Agnes conjurou espinhos de vento cortante, mas mal arranharam a pele mágica da criatura. A coisa gritou, um som que fazia os ossos tremerem.

A música... a música! — Agnes gritou. — Odel, canta! O quê?! Canta qualquer coisa! Confia em mim!

Odel fechou os olhos e, com a voz rouca, começou a cantar uma canção antiga — uma que sua mãe cantava quando ele era criança.

Fraca. Torta. Mas sincera.


O guardião parou.

Agnes se juntou a ele, sussurrando as notas da Canção dos Ventos que ouviu nos sussurros.

A criatura recuou... e desapareceu em poeira.

Silêncio.

Eles estavam livres.

Odel caiu de joelhos.

- O que foi isso...?

Agnes respirava com dificuldade.

- A primeira chave. O primeiro selo está acordando. E ele... nos ouviu.