A Jornada Da Bruxa (Quando Os Ventos Cantam)

1 Capítulo 1 - O Sussurro da Floresta


O vento parou de cantar naquele dia.

Era como se o mundo tivesse prendido a respiração.

Agnes sentiu primeiro no silêncio. Costumava acordar com o sussurro das folhas e os assobios sutis que cortavam a copa das árvores de Nyren.

Mas naquela manhã, apenas o som do próprio coração ecoava em seus ouvidos. Nenhuma brisa. Nenhum farfalhar. Nada.

Ela se sentou em sua cama de musgo e madeira trançada, o cabelo castanho-ruivo emaranhado pela noite agitada. Miruan, o pequeno felino alado de pelagem dourada que ela criava desde filhote, dormia enrolado aos pés da cama. Mas até ele parecia inquieto, com as orelhas tremendo em espasmos.

— Tem algo errado... — ela murmurou, erguendo-se.


A cabana cheirava a ervas secas e fumaça fria, como sempre. Frascos com pós coloridos, raízes amargas e penas encantadas estavam dispostos em prateleiras entalhadas. Um grimório repousava sobre o altar da lareira, aberto na última página lida. Era o livro de sua mãe.

Agnes cruzou a porta. O ar da floresta estava estranho. Parado demais. Árvores colossais que costumavam balançar como se dançassem estavam imóveis. Nenhuma folha caía. Os pequenos espíritos que viviam entre os galhos — que costumavam brincar com a bruxa — estavam ausentes.

Ela caminhou até o rio. E lá, encontrou a primeira tragédia.

Um Feraluz — criatura mágica da floresta, parecida com um cervo de cristais — jazia morto na margem. Seus olhos de âmbar estavam opacos. Sua pele tremeluzente, apagada. E o mais estranho: sem nenhum ferimento.

Agnes ajoelhou-se, tocando o peito do animal.


- Isso não faz sentido... você não deveria... — seus olhos se encheram de lágrimas. — A

floresta tá doente.

Foi então que ela ouviu.

Um som distante... como se alguém, ou alguma coisa, sussurrasse seu nome através das folhas.

"Agnes..."

Ela se virou bruscamente, mas não havia ninguém.

Miruan apareceu do nada, com as asas ligeiramente abertas. Ele rosnou para o nada, como se pressentisse uma presença invisível.

- Viu algo? — ela perguntou, tentando parecer firme.

O felino olhou para o céu, depois para o grimório que ainda estava dentro da cabana. Suas pupilas dilataram.


Agnes correu de volta, os pés descalços pisando em folhas frias. Assim que entrou, o grimório se fechou com um estalo seco. Uma corrente de vento — finalmente um vento! — atravessou a janela... e varreu o altar.

Entre as páginas abertas, um envelope antigo deslizou até o chão. Era de couro grosso e selado com um símbolo desconhecido: quatro linhas curvas, como ondas girando em círculo.

Ela nunca tinha visto aquele símbolo. Mas o nome escrito no envelope fez seu coração disparar:

"Para Agnes, quando o vento parar."

Seus dedos tremiam enquanto abria a carta.

Dentro, havia uma única coisa: um mapa. Velho, desenhado à mão, e com quatro pontos marcados em tinta azul prateada. Um deles pulsava levemente.

Agnes encostou o dedo e sentiu algo quente. O mapa a reconhecia.


Miruan pulou no altar e sibilou, suas asas se eriçando. Do lado de fora, algo se movia entre as árvores. Passos. Pesados. Organizados. Não animais.

Homens.

Ela correu para a janela e viu. Armaduras de couro escuro. Lançadores. Tochas. Caçadores de bruxas.

E à frente, um homem de olhos cinzentos e rosto marcado por uma cicatriz longa na mandíbula.

Ele parou. Olhou direto para ela. E não deu nenhum comando.

Ele apenas a observou.

Agnes sentiu o frio subir pela espinha. O mapa pulsava de novo.

O vento havia retornado — mas não como antes.

Desta vez, ele vinha anunciar mudança.