A Jornada Da Bruxa (Quando Os Ventos Cantam)

2 Capítulo 2 - O Caçador e a Bruxa


Os passos ecoavam como marteladas no chão da floresta. Agnes apertou o mapa contra o peito e correu, puxando Miruan pelos ombros, com as pequenas asas dele tremendo em pânico.

Ela conhecia bem aquela tropa. Não eram soldados do reino — eram Caçadores de Bruxas, homens treinados para rastrear magia e destruí-la. Seus olhos brilhavam com sal, e seus narizes eram afinados com essência de cinza que os permitia sentir magia fresca no ar.

Eles estavam ali por ela.

Agnes mergulhou por entre raízes altas e troncos retorcidos, tentando não fazer barulho. A floresta, mesmo silenciosa, ainda conhecia seus passos. Vinhas se afastavam ao seu toque.

Galhos se curvavam para protegê-la. Mas ela sabia que aquilo não seria suficiente.

Miruan chiou em alerta. Atrás dela, um assobio.


Uma flecha passou a centímetros de seu rosto e se cravou em uma árvore, brilhando com um encantamento de contenção. O feitiço se espalhou como gelo pelas folhas. Ela quase tropeçou, mas continuou.

Mais uma flecha. E dessa vez, mais certeira.

Agnes virou o corpo instintivamente — e foi atingida no ombro. Uma dor aguda cortou sua respiração. Ela caiu de joelhos, mordendo o lábio para não gritar. O feitiço da flecha não paralisava o corpo... paralisava a magia.

Miruan voou em direção ao atacante com um rosnado feroz. Garras reluzentes cortaram o ar, mas o guerreiro bloqueou com facilidade. Ele não contra-atacou o animal. Apenas ergueu a mão, pedindo silêncio.

Agnes tentou levantar-se, mas o corpo fraquejava.

Foi então que o viu de perto.

O homem da cicatriz.


Alto, pele bronzeada de sol e poeira. Olhos cinzentos como pedra molhada. A cicatriz na mandíbula esquerda fazia-o parecer sempre tenso. Ele se aproximou devagar, observando-a como se analisasse uma armadilha.

— Você é... a bruxa da floresta? — ele perguntou com voz baixa, quase neutra.

Agnes tentou falar, mas seu sangue latejava. A flecha ainda estava presa, sugando sua energia.

— Não tem medo de mim? — ela conseguiu murmurar, cuspindo um pouco de sangue.

O homem hesitou.

- Medo? Não. Mas deveria ter. Meu nome é Odel. E eu deveria te levar presa.

Ela arregalou os olhos. O nome soava familiar.

Um dos Caçadores mais perigosos — o filho do comandante desaparecido na Guerra das Três

Luas.


- Então faça. Acabe com isso. — ela fechou os olhos.

Por um instante, o silêncio voltou.

Mas Odel não se moveu.

Miruan rosnava, pronto para atacar a qualquer gesto hostil. Agnes abriu os olhos e viu o rosto dele

confuso. Você... não é como as outras. — Odel disse. —

O vento... ele... cantou quando eu te vi.

A flecha brilhou e quebrou. A magia voltou a fluir.

Agnes, com um último impulso, lançou uma onda de vento que empurrou Odel contra uma árvore.

— Nunca mais me chame de "outra"

", caçador. -

ela disse, se afastando com o mapa na mão. — E se me seguir, vai ouvir o verdadeiro canto do vento... o que grita antes de matar.

Ela desapareceu na névoa da floresta, deixando Odel ajoelhado, ofegante. Mas ele não sorriu.

Não a amaldiçoou.


Apenas tocou o chão onde ela havia caído... e sussurrou:

- O mesmo símbolo do mapa... no grimório da minha mãe.