A caverna de pedra escura onde Agnes se refugiou ficava atrás de uma queda d'água esquecida, envolta por névoa densa e musgo azul-brilhante.

Era um dos antigos refúgios de sua mãe — ela reconheceu pelos símbolos entalhados na entrada: três luas cruzadas por uma linha de vento.

Com os dedos ainda trêmulos, Agnes acendeu uma chama mágica com o estalar dos dedos. A luz oscilava conforme ela estendia o mapa sobre a pedra. Miruan deitou-se ao lado, com o olhar fixo nos contornos do pergaminho.

O mapa parecia comum à primeira vista: montanhas, florestas, rios. Mas agora, com o silêncio da noite e a chama encantada, ele começou a brilhar.

Quatro pontos circulares pulsavam em um tom prata-azulado. Cada ponto era ligado ao centro por linhas curvas, como se fossem os braços de uma rosa dos ventos antiga. No meio, havia um símbolo gravado com tinta mais escura:


ZOINK — uma escrita ancestral, ilegível para ela.

Mas algo dentro de si murmurava:

Almas dos Ventos. Guardiões da Canção.

Ela passou os dedos pelo ponto mais ao sul — localizado numa região marcada como "As Terras de Cinza". Um deserto escaldante, que antes fora um mar. Nunca estivera lá.

— Se minha mãe queria que eu visse isso só quando o vento parasse... então o que está selado nesses quatro pontos? — ela murmurou, pensando alto.

Miruan rosnou suavemente. Ele também sentia.

Agnes fechou os olhos, inspirou profundamente e tocou o símbolo central.

Uma explosão de vento varreu a caverna. As chamas tremularam, mas não se apagaram. Por um segundo, tudo se calou.

E então ela ouviu.


"Agnes..."

"Filha da Canção..."

"Os Quatro precisam ser libertos... antes que a Mãe os consuma."

Ela recuou, ofegante. O som vinha de dentro da própria mente. Era como se o mapa... falasse com ela. Como se algo adormecido tivesse despertado ao ser tocado por seu sangue.

Nesse instante, uma sombra cruzou a entrada da caverna.

Odel.

Agnes ergueu-se num salto, conjurando uma lâmina de vento em cada mão.

— Você me seguiu!

Odel ergueu as mãos.

- Vim sozinho. Não alertei os outros. E... — ele hesitou, tirando algo do bolso — encontrei isto.


Ele jogou um colar no chão. Agnes arregalou os olhos.

Era idêntico ao que sua mãe usava. E ao da mulher que Agnes viu na visão, no dia em que o cervo mágico morreu.

- Minha mãe tinha esse colar. — Odel disse. — E no verso, gravado... o mesmo símbolo do mapa.

Agnes se aproximou lentamente, ainda em guarda.

Você tá dizendo que sua mãe era uma bruxa? Estou dizendo que ela foi morta como uma. — Odel respondeu, com amargura nos olhos. —

Mas nunca me contaram por quê.

A chama entre eles dançava, lançando sombras nos rostos. Por um instante, Agnes viu algo diferente nos olhos de Odel: dúvida. Dor.

Ela abaixou as mãos, e as lâminas de vento se dissiparam.


As Terras de Cinza. É lá que o mapa quer que eu vá primeiro. — ela disse, guardando o pergaminho. Então eu vou com você. — Odel declarou. Não. — ela respondeu de imediato. — Não confio em você. Eu também não confio em mim. — ele disse com um meio sorriso triste. — Mas talvez, se seguirmos juntos, um de nós sobreviva. E o outro... entenda.

O silêncio caiu de novo. Só o barulho da queda d'água do lado de fora preenchia o ar.

Agnes olhou para Miruan, que a encarou em silêncio. Seus olhos pareciam dizer: confie — ou aprenda do pior jeito.

Ela respirou fundo.

- Ao nascer do sol. Partimos. Mas se me trair, Odel... — ela virou o rosto, deixando a ameaça no ar.


Odel assentiu.

No alto da noite, a bruxa e o caçador se preparavam para cruzar um deserto amaldiçoado.

Sem saber que, no sul, o primeiro Altar já estava corrompido.

E que a canção dos ventos estava prestes a despertar — e gritar.