A Irmandade - Dota 2
1 Traxex, A Silenciadora
Notas iniciais
O inverno no Vale da Lua era extremamente rigoroso. Lá por aqueles lados do Grande Norte, até mesmo o mais feroz dos lobos cinzentos se acovarda nessas épocas. As árvores de tronco longo são vestidas pelo véu branco da neve e o chão se transforma num irregular piso de mármore.
Vinha lá longe, fardada de pele de lobos e do grosso couro do andelin do Vale, o vulto com a cabeça envolta num capuz branco. Os cabelos cor de prata balançavam ao vento forte. Deixava pegadas profundas na neve alta, mas se locomovia tão calmamente que não parecia se importar de sentir o terreno afundar sob os pés. Parecia estar morrendo de frio porque a pele estava azulada como a de um elfo noturno. Talvez fosse isso. Nos olhos frios e violetas espelhava-se um mistério mortal.
Nas costas do vulto jazia um arco. Quieto e silencioso assim como sua portadora. Mas na aljava, cerca de trinta flechas metálicas tiniam umas contra as outras e o som era abafado pelos uivos do vento. Aí então surgiu uma criatura mais pálida do que a neve e mais silenciosa do que o vulto azul e branco. A lince da neve, espreitando-a por entre as árvores. O vulto suspirou e encontrou ali seu inimigo.
A Lince da Neve era muito conhecida pelo povo Drow. Dizia-se por muito tempo que aquele que matasse a criatura teria para si nove desejos realizados. Desde então, os elfos negros caçadores saíam pelo Vale da Lua em busca do precioso animal. Alguns a encontraram e disseram tê-la matado, mas ela sempre volta ao bosque para realizar mais nove desejos de outro caçador.
A mulher sob a capa de pele de animais semicerrou os olhos violeta e escorregou a mão para trás. A lince fez um barulho estranho e suas garras e dentes prateados brilharam. Dizia-se que aquele que fosse ferido pela Lince seria amaldiçoado pelos deuses acima do céu e abaixo da terra. A fera armou o pulo na arqueira, mas antes que o fizesse, estava caído no chão. Inerte. Sangue escoava por uma ferida em seu focinho, aberta por uma flecha.
Então algo estranho aconteceu. A Lince se dissipou na neve e apenas um novo vulto, ainda mais alvo do que a própria Lince, surgiu. Aos poucos tomava forma, a forma de uma mulher. Alta, com um corpo esbelto e...
_ Traxex._ berrou uma voz atrás da mulher de capa._ Traxex!
Ela virou-se abruptamente e viu Zaio correndo entre as árvores. Baixo, gordo e com uma ampla cara redonda acinzentada, sacudindo a mão roliça no ar para que fosse visto. Quando Traxex olhou para a frente mais uma vez, o vulto pálido não estava mais lá.
Zaio chegou arfando, escorando-se nos joelhos para respirar. Da boca que mais parecia um rasgo no rosto saía uma névoa branca. Ele ajeitou as vestes imundas no corpo gorducho e cuspiu arrogantemente no chão.
_ Dah’Ul quer falar com você. Ele disse que é urgente.
Traxex rosnou furiosa.
_ Você me interrompeu. Eu já disse que não gosto quando isso acontece.
_ Reclame com Dah’Ul! É ele quem a convoca!_ respondeu o baixinho petulantemente.
Os dois se encararam com uma frieza sombria. Os olhos violetas de Traxex se estreitaram e seus lábios se contraíram. Zaio fitou-a nos olhos, expondo um punhado de dentes tortos, grandes e amarelos. Rosnaram um para o outro. E riram.
_ Você é patético._ comentou a mulher.
_ Você é feia. Não é a toa que nenhum Drow a pediu em união.
_ Cale a boca ou transformo seus dentes num colar novo para mim.
Os dois seguiram o caminho de volta pelo Vale. Passaram por um punhado de árvores até encontrar as grandes pedras geladas, coroadas de branco com a neve que caía do céu. A cidade dos Drows ficava mais além delas, nas profundezas cavernosas de Güenash onde reinava o líder Drow, Dah’Ul.
Quando o par passou pelos portões de pedra da cidade Güenash, foram recebidos pelos guardiões da entrada da cidade. Zaio comunicou a eles que o grande Dah’Ul queria ver Traxex e um deles, corpulento e excepcionalmente horroroso, guiou-os por uma longa escadaria que subia pelo lado externo da montanha que aquele povo venerava.
Acreditava-se que Galandine, senhora dos exércitos da noite e estrela-guia dos senhores Drow, arrancara o próprio dedo mindinho da mão para transformá-lo naquela montanha e deu-a de presente para os elfos negros depois da primeira guerra pelo Grande Norte. Por isso, a montanha foi chamada de Galand’Eredrui, que traduzindo da velha língua negra dos elfos significa presente da Estrela Galandine. No topo da montanha havia um grande saguão onde mora o rei dos elfos negros. Era para lá que Traxex, Zaio e o guarda de Güenash estavam indo.
Quando chegaram no saguão, encontraram Dah’Ul sentado em sua grande cadeira de pedra, esculpida pelos primeiros elfos. Ele segurava um prato de ouro brilhante onde jazia uma cabeça. Traxex sentiu o coração apertar. Sabia a quem aquela cabeça pertencia. Era de seu melhor amigo, Ne’hax. Também conhecido como Príncipe Herdeiro dos domínios Drow.
_ Eliminado por um daqueles nojentos sacerdotes dos deuses do sul._ grunhiu Dah’Ul, de cabeça baixa. Sua voz era tão cheia de raiva que fez uns de seus servos estremecerem._ Eles deixaram uma marca no rosto.
Dah’Ul agarrou a cabeleira pegajosa e ensanguentada do filho e ergueu a cabeça morta diante dos olhos de Traxex. Ela viu mais claramente que havia uma marca, um selo na bochecha do rosto cadavérico. O olho sem pupila.
_ Você encontrará quem quer que tenha feito isso, Traxex._ a voz autoritária do senhor do povo Drow soou para todo o saguão._ Você parte amanhã, antes do nascer do dia.
Traxex assentiu e reverenciou Dah’Ul, desagradada com a ideia. O inverno estava castigando severamente as terras do norte e aquela era sua época preferida. Mas o assassinato de seu amigo e príncipe herdeiro significava que ela deveria fazer uma longa viagem até os bosques inferiores, lá naqueles lugares sombrios perto das margens do Rio Vespertino.
Quando deixou o lar de Dah’Ul, ela voltou para o bosque congelado do Vale da Lua e ali meditou. Sua intimidade com aquele lugar era grande, desde quando ela era pequena. Ali perto foi encontrada pelos Drow e por eles foi criada como se fosse da família. Chamaram-na de Traxex e deram-lhe a sabedoria dos elfos negros, embora não fosse nem um pouco parecida com eles. A maneira como foi acolhida por um povo tão mal visto entre as outras raças a marcou profundamente. Existia alguma piedade nas entranhas duras e rígidas dos Drows. E por isso é que ela estava tão profundamente decidida a se tornar a vingadora de Dah’Ul e de todo o seu povo.
“Estou pronta para voar.” Ela disse a si mesma. Sacou uma das suas flechas, mirou alguma coisa se arrastando ao longe, no meio das árvores, murmurou o encantamento dos elfos negros e disparou. Depois se afastou em passos silenciosos enquanto o Morto-Vivo tombava para o lado, congelado da cabeça aos pés, com a flecha fincada no olho direito.
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