A Irmandade - Dota 2
2 Mirana e Luna, As Filhas da Lua
O temporal não parecia tão ameaçador para aquele pobre coelho. Não tanto quanto aquelas criaturas terríveis como demônios que ele vira correndo por ali. Quando saltou por entre os arbustos espinhentos sentiu dor, mas não se importou. Precisava estar fora da vista daquelas criaturas. Ele encaixou o focinho pálido entre as folhas verde-escuro e esperou, encarando a floresta encharcada pela chuva com seus olhos vermelho-escuro.
Não muito distante dali, estavam duas feras. Uma era um grande tigre branco rajado com listras azuis e prata. O monstro exibia os dentes afiados, ronronando como um imenso gato enquanto uma bela mulher de cabelos castanhos e uma brilhante tiara de ouro azul acariciava-lhe no pescoço. A outra fera era uma puma gigante cujas orelhas estremeciam quando os pingos de chuva se debruçavam sobre seu pêlo negro. O coelho assistia enquanto outra mulher se aproximava.
Esta era mais alta e mais forte do que a primeira. Vestia uma reluzente armadura da noite, semelhante à do tenebroso exército dos mortos. Porém, um toque especial havia sido acrescentado. Um elmo feito com o ouro azul, onde desenhos de uma lua minguante haviam sido gravados. Sob o elmo, uma densa cabeleira azul-prata. Em sua mão direita, ela carregava um afiado bumerangue, um presente dado pela Ordem da Noite-Prata.
_ Nem sinal de qualquer um deles, Mirana._ advertiu a recém-chegada.
A mulher de cabelos castanhos e tiara girou o rosto para encará-la.
_ Eles cruzaram a fronteira. Eu os vi perto da entrada do covil da Besta Roshan.
Luna pestanejou e olhou por cima dos ombros. Ali, não muito distante daquele punhado de árvores verdes estava o Rio Vespertino, um rio caudaloso e rumorejante. E mais além dele, estavam as Florestas Mortas. Um punhado de árvores apodrecidas, encrustadas num solo de pedra negra. o lar das criaturas vis que a deusa Selemene amaldiçoara.
_ Como eles eram?_ perguntou à Mirana.
_ Ambos eram muito fortes. E surpreendentemente rápidos._ explicou a outra._ Um deles era familiar. Já veio até a floresta antes, procurando por sangue fresco. Nós o chamamos de Perseguidor da Noite, mas do outro lado do Rio, ele é chamado de Balanar.
_ O Bebedor de Sangue?
Mirana assentiu com um gesto sombrio e silencioso e só o que se ouviu por um instante foram os pingos da chuva açoitando a Floresta Verde e o pesado ronronar de Sagan, o tigre rajado.
_ E o outro?
_ No princípio achei que fosse um cavaleiro sombrio. Mas ele era brilhante. Selemene inundou o rio com luz e eu o vi. Não se parece com nada que nós já tenhamos visto, Luna. Era...um touro...um touro falante. Muito forte. E muito rápido também. Ele me viu no princípio, mas eu clamei por Selemene e ela assoprou a sombra sobre mim.
Luna avançou para a puma negra e ergueu a mão para a fera e afagou-lhe as orelhas úmidas.
_ São sinais, Mirana. Invasões, tropas inteiras de mortos-vivos tentando atravessar o Rio...e, pelo que eu soube, Carl se aliou ao Warlock.
_ Malditos!_ praguejou._ Tenho certeza de que Carl quer os livros de necromancia.
_ Esse é o menor dos problemas._ observou Luna._ Se ele se opôr à nós...
_ Deixe. Selemene cuidará dele, eu imagino.
_ E o que você sugere que façamos?
_ Não sei. Talvez eu precise de consultar à Deusa Lunar sobre isso. Ou...
Luna aguardou pelo fim da frase, mas Mirana não terminou. Em vez disso, agarrou o arco bruscamente e puxou a Flecha Sagrada da aljava pendurada em Sagan. Luna recuou com o movimento brusco ao ver a outra agarrando a maior de todas as flechas, mas não era ela o alvo. Mirana disparou contra a floresta, para dentro das sombras e no instante seguinte, ouviu-se um estrépido alto seguido de um berro de dor.
As duas rapidamente correram na direção da Flecha, que reluzia como uma brilhante jóia na escuridão absoluta. Sagan saltou atrás delas e a puma espreguiçou-se despreocupadamente para seguir Luna.
_ Au! Au! Au!_ alguém uivou na noite.
As duas encontraram ali um ser magro e pequeno. Chifres longos e encurvados se espiralavam no topo de uma cabeça azul. A criatura pressionava entre as mãos, duas afiadas adagas. A Flecha Sagrada havia acertado em seu ombro e abrira ali uma fenda de onde um espesso sangue púrpura fluía. Ele estava atordoado e dolorido, preocupado demais com a dor para se importar com a presença das duas.
_ Quem é você?!_ Mirana engajara uma flecha em seu arco e mirava no coração da criatura._ É um invasor da Floresta dos Mortos?
_ N-não! Não! Vire essa coisa pra lá!_ guinchou.
Ambas recolheram as armas ao perceberem que a criatura não parecia lá muito ameaçadora. Os guinchos sonoros fizeram esquilos, veados e até o coelho que as vigiara desde o início, saírem correndo.
_ Diga o seu nome._ pediu Luna num tom ameaçador.
O sátiro azul fixou seu par de olhos pálidos como a lua em Luna e respondeu, enquanto Mirana extraía a Flecha Sagrada de seu ombro.
_ Rikimaru._ ele resmungou.
As duas mulheres se entreolharam.
_ Você não é..._ começou Mirana.
_ Um sátiro de Rio Abaixo?_ terminou Luna.
O sátiro fez que sim com a cabeça, enquanto fazia caretas de dor.
_ Como diabos vocês me viram?_ ele praguejou, mas não parecia exatamente zangado. Estava quase admirado.
_ Isso não importa agora._ cortou-lhe Luna, avançando para mais perto do sátiro._ Nós fazemos as perguntas. O que um sátiro de Rio Abaixo faz tão distante de casa e a esta hora da noite?
Rikimaru estalou a língua.
_ Então as notícias não correm rio acima? Todos os membros da dinastia Tahlin foram mortos. Os antigos governantes, a rainha, o príncipe herdeiro e seus irmãos. Todos mortos.
_ E você é o assassino?_ Mirana encarou-o com olhos faiscantes.
Afinal, a Floresta Verde era extensa e seguia desde à nascente até o desaguadouro do Rio Vespertino. Todas as criaturas e seres daquele lado onde as árvores cresciam fortes e firmes eram aliadas. Desde os sacerdotes da Noite-Prata até os espíritos florestais e sátiros das florestas muito abaixo daquele ponto. Mirana e Luna conheciam o senhor-rei dos sátiros. Era um velho sátiro egoísta, mas não hesitava quando o assunto era defender a margem do Rio.
Rikimaru baixou o olhar. Era incapaz de responder e as duas compreenderam. Não, ele não era o assassino. O chifre, o nariz, os olhos e até mesmo os pêlos que cresciam em tufos escuros no queixo do sátiro remeteram a elas a imagem perfeita do senhor-rei. Rikimaru era o filho dele. O último a estar vivo.
_ Nós lamentamos muito._ murmurou Mirana com uma súbita voz solene._ Então, você está fugindo. Acho que posso abrigá-lo no Templo Lunar, da Floresta Nightsilver.
Uma sugestão de sorriso surgiu no rosto do sátiro.
_ Verdade?
_ Sim._ Mirana sorriu também e saltou para cima de Sagan.
Luna montou Nova, sua sonolenta puma negra e sorriu para Riki também.
_ Os mestres do Templo ficarão felizes em ver um sátiro. Há tempos que não são visitados pelas criaturas da Floresta.
Rikimaru ergueu-se com algum esforço, incomodado pela dor. Mirana guiou Sagan até uma árvore próxima e arrancou uma folha verde de um galho retorcido. O sátiro viu que ela arrancava cuidadosamente os brotos de um frutinho verde e brilhante das folhas. Ela se aproximou dele e fez um gesto para que ele comesse.
_ Tango._ ela murmurou._ Vai ajudá-lo a se recuperar mais rápido. Desculpe pela flecha. Vamos, não estamos seguros aqui.
Luna puxou o pequeno sátiro com um único e poderoso braço e colocou-o sentado sobre o lombo de Nova, que reclamou do peso extra com um ruído engraçado.
_ Ora, vamos, Nova. Ele é nosso amigo.
Mirana riu quando a puma bocejou, abrindo a boca enorme e cheia de dentes afiados como agulhas.
_ Temos um longo caminho para percorrer. Enquanto isso, Rikimaru, porque não nos conta sobre a conspiração contra sua família? Você conhece a razão disso?
***
Foi realmente um longo caminho. O dia começou a cair e a Floresta Verde ficou dourada sob os raios luminosos do sol daquela manhã de verão. Tudo parecia excepcionalmente comum. O trio já se aproximava do Templo Lunar quando Riki terminou sua história sobre o assassinato de sua família.
_Eu não sei bem porquê alguém faria isso._ ele disse à elas. _Mas sei que esse alguém vai pagar. Pagar caro.
_ E você sabe quem foi que fez isso?_ perguntou Luna.
_ Um de nossos aliados, se quer saber. Ou pelo menos, achávamos que era um aliado. Meu pai o chamava de Invoker.
Mirana e Luna se entreolharam, ambas reconhecendo no olhar uma da outra, o temor que as cercava. Carl, o Mago, também conhecido como Garral, Invoker, ou Invocador, havia realmente se aliado ao lado negro dos que moravam do outro lado do Rio Vespertino. Daqueles que habitavam na sombria terra de pedra. A Floresta dos Mortos.
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