A Irmandade - Dota 2
3 Invoker, O Mago
O assassinato do príncipe herdeiro dos Drow não pesava em sua mente. Nem mesmo a aniquilação do clã supremo dos sátiros da Floresta Verde. Ele não sentia remorso nenhum. Apenas fizera o que lhe fora pedido em troca dos pergaminhos dos anciãos. E agora ele os tinha.
Eram um total de treze, os pergaminhos perdidos dos magos anciãos. Ele ainda possuía apenas sete. Adquirira um com o inimigo do povo Drow, o Feiticeiro Frio chamado Lich, recentemente, em troca de um "favor". Carl deveria assassinar o príncipe Ne'Hax, dos Drow. Outros dois haviam sido obtidos pelas mãos de Mauaki, um sátiro que conspirava contra a família real dos sátiros azuis.
Quanto aos outros quatro, ele havia conseguido em perigosas viagens e com trocas de favores. Jamais sentia remorso, por mais inescrupulosos que fossem seus atos. Ele precisava dos Treze Pergaminhos. Quando soube de outro homem que também possuía outros pergaminhos, ele seguiu para cruzar o Rio Vespertino, do lado onde as árvores estão mortas.
A Floresta dos Mortos era sombria e escura demais. Cada movimento na escuridão era preocupante, mas não para Carl. Ele conhecia aquela região como conhecia a palma da mão. Já fizera viagens longas até muito além daquela área podre e descobriu que o que reina além daquela terrível floresta é o perigo. Mas Invoker estava acima de todos. Não haviam riscos suficientes que o fizesse pensar duas vezes.
Já havia cruzado quase metade do bosque morto quando encontrou os rastros dos golems infernais. Invoker sorriu. Estava no caminho certo. Mais de uma vez viu um vulto faiscante seguindo-o na floresta, mas não temeu. Reconheceu o estalar das asas e os olhos incendiados de crueldade.
_ Você é silenciosa, mas não mais do que essa pobre floresta, minha cara._ ele sorriu.
A criatura alada não respondeu. Suas asas faiscaram na selva morta e Invoker sentiu um golpe bruto nas pernas que o teria derrubado, não fosse pelo seu talento exótico de se erguer alguns centímetros do chão para flutuar livremente entre as árvores.
_ Está mais rápida._ ele murmurou, admirado.
Mas as asas já haviam faiscado novamente e não havia rastro de monstro de olhos brilhantes em lugar nenhum ao seu redor. Uma risada fria e cruel ecoou entre as sombras das árvores. Uma voz feminina, ele reconheceu.
Quando o monstro tentou um novo golpe, mais rápido e mais poderoso do que o último, Carl girou as mãos num movimento silencioso e o vento se moveu na floresta. Como um tornado que se ergue da terra, o vento fez o monstro girar e girar e cair no chão, sentada.
_ Minha querida Akasha._ sorriu Invoker mais uma vez, vitorioso.
Akasha encarou-o com raiva. Sua pele era tão pálida que quase tomava um tom azul. Seus olhos faiscavam a todo instante, assim como as asas, largas e negras, cobertas por um grosso couro escamoso e ornadas em chifres vermelhos, que também brotavam no topo de sua cabeça. Com um movimento brusco, Akasha gritou, tão alto que o barulho poderia ter ido além do rio, na Floresta Verde. Carl fez uma careta e precisou cobrir as orelhas para que seus tímpanos não explodissem.
_ Eu compreendo que esteja chateada. Mas nem todas as lutas podem ser ganhas, não é mesmo?
_ O que você quer, Invocador?_ ela rosnou, fuzilando-os com aquele par de olhos em brasa.
_ Vim trazer o que prometi à Warlock. Onde está ele?
O monstro feminino sacudiu os ombros e estalou as asas, pousando num grande galho de uma árvore antiga.
_ Foi se reunir com o Conselho. Dar as boas vindas aos novos membros.
Invoker franziu a sobrancelha, surpreso. Novos membros haviam sido convocados, mas ele não havia sido chamado. Em silêncio, invejou até mesmo Akasha, porque até mesmo ela era uma das guardiãs dos segredos do Conselho dos Temidos.
_ E quem são os novos membros?
Akasha tornou a sacudir os ombros, indiferente enquanto murmurava as identidades e nomes.
_ Há muitos novos. Alguns são forasteiros, de terras diferentes, conjurados de outros mundos e de livros secretos de magia. Ouvi dizer que há uma mulher...
Ela hesitou, antes de prosseguir, como se refletisse sobre o quão tolo aquilo soaria.
_ Que morre e volta para o mundo dos vivos. Um espectro chamado...
_ Krobelus._ completou Carl, surpreendendo Akasha.
_ Você a conhece?
Ele apontou para além das árvores, na direção das catacumbas das montanhas.
_ Aquela história sobre a Profetiza da Morte, nas catacumbas. Nunca foi uma lenda. Eu a vi pessoalmente, alguns anos atrás. Ela tem um poderoso exército, muito mais macabro do que qualquer coisa que eu já tenha visto.
Akasha riu, displicente.
_ Então você ainda não conhece o outro monstro que o Conselho recrutou.
_ O Conselho está cheio de monstros._ zombou Carl, fitando a mulher-demônio com uma expressão de puro desdém.
Ela o encarou sem compreender suas palavras e suspirou antes de dizer:
_ Barathrum é o novo monstro. Não sei explicar o que ele é, na verdade. Feroz como um touro e monstruoso como um gigante. E ele corre mais rápido do que o próprio Balanar. Eles só andam juntos agora, sabe. Warlock os enviou numa missão para capturar aquele guerreiro a quem chamam de Ulfsaar, o Ursa.
_ E por que querem capturar o mestre da tribo dos ursos?
A mulher-demônio roncou estranhamente no topo da árvore, antes de respondê-lo.
_ Ele liderou ursos e homens na batalha pelo norte do rio. E ganhou._ ela sorriu com seus brilhantes dentes brancos._ Warlock enviou aquele cavaleiro sombrio, Lorde Arlon, contra os ursos e os homens. Mas o pobre homem foi derrubado do cavalo. E Ulfsaar estraçalhou-o como se ele fosse um pedaço de merda.
Akasha riu novamente, uma gargalhada cruel e gélida ecoando pela floresta silenciosa.
_ Lorde Arlon morreu?_ Invoker perguntou num tom de indignação.
_ Ah, sim._ Akasha continuou rindo e zombando do falecido cavaleiro._ Mas Warlock pediu-o de volta ao Deus Morto. Digamos que Lorde Arlon esteja um pouco...diferente agora.
Carl imaginou o cavaleiro estraçalhado por um urso. Ele mesmo não se dava bem com o orgulhoso povo ursino e não gostava nem um pouco de Ulfsaar, o Ursa.
_ Então Lorde Arlon voltou?
Um sorriso malicioso brincou nos lábios de Akasha.
_ Eles agora o chamam de Undying, o Imortal. O homem está apodrecendo e fede como enxofre, mas tem vida. Ou algo parecido com isso. Anda por aí se arrastando de um jeito ridículo...
Um cheiro terrível de sangue invadiu a clareira na qual Invoker e Akasha conversavam. Ele fez uma careta, mas ela gemeu com um sorriso que mesclava sua perversidade e o prazer. O silêncio na floresta foi interrompido pelo leve sussurrar de pés se arrastando entre raízes duras e na pedra lamacenta. No instante seguinte, uma criatura horrenda saltou dentre os arbustos espinhentos para cheirar o manto de Invoker.
Da boca da criatura, sangue pingava. Humano ou animal, Carl não saberia dizer. Mas surpreendeu-se com a chegada intoleravelmente repentina do terceiro. Ele o rondava como um lobo ronda sua presa antes de atacá-la. Mostrou-lhe dentes desiguais e sombreados por uma máscara de metal vermelho e rosnou. Depois parou, tão de repente como começou e se afastou novamente para dentro da selva.
_ Que tipo de monstro era aquele?_ ele perguntou irritado._ Outro novo membro do Conselho que eu não conheça?
_ Não. Oh, não, não!_ Akasha suspirou, tentando absorver ao máximo o cheiro de sangue que se esvaía lentamente._ Aquele é o Bloodseeker. O novo cãozinho do Conselho. É mais burro do que a aquele açougueiro gordo e idiota do Pudge. Mas é perigoso em batalha. Muito perigoso.
_ Ora, ora. O Conselho está mesmo se levantando. Eu só queria saber o porquê.
Akasha fitou Invoker.
_ Eu sei que você quer entrar para o Conselho dos Temidos, Invoker, mas eles não são idiotas. Sabem que você não tem um lado para escolher.
_ Eu sempre fui aliado do Conselho._ interpelou ele.
_ Você é aliado de você mesmo. E de seus interesses._ o sorriso no rosto de Akasha desapareceu para transformá-la numa figura demoníaca e sombria._ Acha que eles não o vigiam? Eles sabem sobre a sua amizade com aquela vadiazinha, a serva de Selemene.
Invoker lembrou-se, por um breve momento, da bela moça de cabelos castanhos e tiara lunar do outro lado do Rio Vespertino.
_ Eu precisava dela. E da deusa dela. Sacerdotes lunares conhecem magia elemental, eu precisava...
_ Isso não é problema meu._ Akasha murmurou, mas sua voz soava tão alto que quase lhe pareceu um grito._ Explique-se para Warlock e para Razor.
_ É o que pretendo fazer._ Carl respondeu, pondo um fim definitivo na conversa.
Ele marchou por entre as árvores, seguindo o rastro dos golems e deixando Akasha, a mulher-demônio para trás, enquanto ela dizia a ele com sua voz terrivelmente aguda.
_ Ele vai procurá-las, sabia? O Bloodseeker. Vai atrás da sua querida Mirana e da Luna, que dizem ter sido escolhida pessoalmente pela própria Selemene. Logo à noite, ele cruzará o rio. Vamos ver se a Deusa Lua vai ocultar o cheiro do sangue delas. Blood é muito preciso quanto a isso.
Invoker ignorou-a tentando não pensar nas pessoas do outro lado do rio. Algo o incomodava, mas ele tentou afastar isso de sua mente. Mirana e Luna poderiam se cuidar. Uma era exímia caçadora e a outra, uma guerreira sob a luz da lua divina. Não que se importasse realmente com elas. Ou será que se importava?
O leve sussurrar de passos atrás dele o fez se lembrar de Bloodseeker. Já havia se embrenhado na mata espinhenta e pouco se importava quando a barra da capa se prendia aos arbustos e galhos. Apenas continuou andando, irritado demais para dar atenção ao encurvado monstro sanguinário. Já estava prestes a se virar para fazer Bloodseeker se afastar, mas algo denunciou que não era ele o seu perseguidor.
_ Que o silêncio te aflija._ murmurou uma voz etérea e feminina.
Uma onda de vento gélido repentino fez os cabelos loiros e compridos de Invoker sacudirem. Ele virou-se e agitou as mãos, clamando pelo auxílio dos elementos para enviar sua onda de gelo sobre quem estivesse atrás dele. Mas a onda não veio. Ele agitou novamente as mãos e não conseguiu produzir nada. Nem mesmo um fragmento de cristais de gelo. Intrigado, ele ergueu os olhos para a figura entre as árvores. Mas quando deu por si, havia uma flecha de gelo a centímetros da ponta de seu nariz.
Segurando um arco, semi-oculta por um capuz e capa, havia uma elfa de pele azul. Longos cabelos prateados caíam em torno dos ombros. Os traços eram belíssimos, mesmo para uma Drow. Ela encarou-o por um instante e reparou nos olhos dele.
_ Olhos sem pupila._ ela murmurou.
_ Eu..._ ele disse.
Mas Carl não chegou a terminar a frase. Antes que o fizesse, viu apenas a flecha sendo disparada contra ele e no instante seguinte, não havia mais nada. Apenas o silêncio.
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