A Irmandade - Dota 2

11 Shendelzare, a Princesa dos Céus


Haviam vários dias desde que ela começara a ouvir o canto das sereias. Sempre o mesmo canto, as mesmas vozes, a mesma entonação. O Povo do Céu jamais tivera qualquer proximidade com as sereias, mas ali estava ela. A princesa que caíra do céu, humilhada no leito de um rio.

Sirena era um povoado das sereias exiladas. Estendia desde as profundezas escuras do Rio Anil até as margens e algumas partes úmidas e pantanosas da floresta. Mais acima, havia o Rochedo Branco e o castelo Ninho Espectral, onde um dia Shendelzare fora princesa. Mas ela tombou. Suas asas eram apenas fragmentos agora. Fragmentos de sua antiga glória.

As sereias e tritões de Sirena a acolheram e trataram de suas feridas enquanto ela permaneceu desacordada. Foram nove dias de sono profundo, febre e dores intensas que se mesclavam com as terríveis lembranças. Quando ela acordou, Naga Siren, a própria líder do povoado, estava debruçada sobre ela, cantando as canções de cura do povo sireno. E desde então, Shendelzare estivera ali, no leito do rio. Apenas admirando o Rio, sem poder se aproximar ou se afastar dele. As dores ainda não haviam sumido.

Até então, ela não tinha memória alguma de sua queda. Apenas tinha vislumbres rápidos do momento em que caía, tentando bater as asas desesperadamente...mas elas não a levavam para o alto. Por quê?

“Por quê?”, perguntava a si mesma. O que teria acontecido? Pelos Céus, não poderia imaginar quão vergonhoso seria quando retornasse para o Ninho Espectral e encontrasse a irmã mais nova e todos os outros membros da Corte. Todos eles encarando os tocos ossudos das asas que um dia ela tivera. Até mesmo Dragonus...Ao perder suas asas, ela perdera também a honra. Simplesmente não queria voltar para casa.

Chorou por noites seguidas, mas Naga sempre a alegrava com algumas boas canções. Por vezes, ela até fazia a Magia das Águas, algo que só as sereias mais poderosas possuíam. O rio parecia dançar quando Naga Siren cantava. E assim, as noites não ficavam tão terrivelmente tristes.

_ Todas as sereias se orgulham em cantar._ disse Naga para ela numa manhã morna e nublada.

_ O orgulho do meu povo é voar._ Shendelzare disse com tristeza. Cada vez que pensava nisso era como ser atravessada por uma espada.

_ Eu lamento por suas asas.

_ Não mais do que eu. Não acho que vou retornar ao Ninho. Na verdade, não quero.

_ Mas você é a princesa deles. Eles lhe devem obediência._ indignou-se Naga Siren.

_ Você bem sabe que não é assim. Você é uma sereia exilada, não é? O que fez para que eles a expulsassem de seu reino?

Naga se aproximou da margem e sentou-se ao lado de Vengeful, para encarar a água corrente no rio.

_ Eu desobedeci a um juramento. Eu...falhei.

Shendelzare hesitou por um momento. Não apenas por sentir pena de Naga, mas também por que os cortes profundos em suas costas, coxas e rosto ainda ardiam cada vez que ela respirava.

_ É o mesmo com os Skywrath. Eu era a princesa deles enquanto tinha asas. Um Skywrath sem asas é apenas...algo.

Naga Siren soluçou. Quando Shendel virou-se para encará-la, viu lágrimas pesadas brotando nas beiradas de seus olhos.

_ Talvez fosse nosso destino, minha amiga._ murmurou Naga entre os soluços._ Exílio. Eu só...só queria poder ver minha filha pela última vez. Mas eles a tiraram de mim.

Não haviam palavras no mundo que consolasse a dor e a saudade de uma mãe. Shendelzare preservou o silêncio, encarando o rio e pensando em sua família, no topo de Rochedo Branco. O Ninho deveria estar um verdadeiro caos. Com Shendelzare desaparecida, eles deveriam estar a sua procura. Mas sentia-se aliviada em não ter sido descoberta ali, em Sirena. Com as asas quebradas e cheia de cortes e dores.

Ela olhou novamente para as mãos, braços e para a coxa. Depois debruçou-se sobre o rio e encarou o próprio rosto refletido na água tremulante. Céus, estava em ruínas. Um dia fora estonteantemente bela, a mais bela senhora dos céus, uma verdadeira princesa. Mas toda a sua beleza lhe fora tirada. Como? E por quê? Desejou tanto se lembrar.

_ Queria que Dragonus estivesse aqui._ ela disse.

Naga parou de soluçar e murmurou com uma voz fraca.

_ Não teria vergonha se ele a visse com...com as asas assim?

_ É claro que teria._ respondeu Shendel sem despregar os olhos do rosto marcado, no rio._ Mas sei que somente ele não me julgaria. Somente ele me chamaria de princesa, mesmo que minhas asas tivessem sido arrancadas.

A sereia colocou a mão sobre o ombro de Shendelzare.

_ Shendel, eu acho que esse é o momento. Aguarde por mim.

E com um salto acrobático, Naga mergulhou para as profundezas do rio. Shendel viu o reflexo luminoso de suas escamas coloridas desaparecendo sob a água e algum tempo depois, a sereia retornou com um objeto brilhante e metálico entre as mãos.

Quando saltou para fora da água, Shendelzare viu o que ela segurava.

_ Isto é seu, mesmo que não queira se lembrar disto.

_ Minha coroa?_ supreendeu-se a princesa Skywrath.

Naga assentiu e não a entregou nas mãos de Shendel. Coroou-a e fez uma breve e respeitosa reverência.

_ És a Princesa dos Céus, ainda que lhe falte asas.

Desta vez foi Shendel quem não pôde reprimir as lágrimas. Estivera tão alheia ao povo sireno e tão fechada ao seu castelo no Rochedo que se esquecera de como era ser...humana. Sim, humana. Se esquecera de amar. Se esquecera de sofrer. Se esquecera de viver.

_ Obrigada._ ela agradeceu comovida. Naga Siren sorriu em resposta e recuou para admirá-la com a coroa na cabeça.

_ Também é hora de eu lhe dizer, minha amiga_ começou a sereia e o sorriso desapareceu lentamente para se transformar numa expressão sombria._ Que você...você não caiu.

Shendelzare não compreendeu. Ela se moveu desconfortavelmente pela margem lamacenta e sentiu as dores cravarem-se em seu corpo.

_ Como assim? O que quer dizer, Naga?

Naga Siren suspirou.

_ Sei que somos amigas há pouco tempo e sei que você ainda não me conhece tão bem quanto gostaria. Mas eu sei muito sobre você, Shendelzare.

Novamente, não havia palavras. Shendel apenas franziu as sobrancelhas e tentou gaguejar algo, mas Naga continuou.

_ Na noite em que você caiu, Shendel, nós a encontramos. Você não estava ferida. Estava morta. E suas asas estavam...sendo devoradas pelas lesmas do pântano.

_ Não._ exclamou a princesa debilmente._ Não.

_ Você estava completamente quebrada. Nós não compreendemos como ainda estava inteira, mas então...então nós encontramos a sua coroa. E descobrimos que você era a Princesa do Céu.

Um bloco de pedra parecia estar se movendo lentamente nas entranhas de Shendelzare.

_ Eu enviei notícias ao seu povo e um dos seus me respondeu. O nome dele era Dragonus, o seu amigo. Eu achei que ele mandaria alguém para resgatar o seu cadáver, mas ele veio pessoalmente aqui, em Sirena. Nós já a tínhamos embalsamado, Shendel. Mas aí...ele...ele veio e...

Naga suspirou e retomou o fôlego.

_ Ele conjurou um feitiço que eu jamais vi antes. Era algo sobre uma longa noite, uma deusa estranha e fria que habita o mundo espectral e...de repente, você estava viva, com ossos remendados. Mas a suas asas ainda estavam destruídas e ele chorou. Eu nunca imaginei que um amor assim pudesse existir. Ele vendeu a alma para trazê-la de volta.

_ Não!

_ Mas então ele teve que ir de volta para o Ninho Espectral porque recebeu um chamado da...da Rainha dele.

As entranhas de Shendelzare se retorceram.

_ Não existe uma rainha em Ninho Espectral há séculos. Você está mentindo, Naga.

_ A rainha é a sua irmã mais nova, Shendel. Com o seu desaparecimento súbito, ela foi coroada como a nova rainha.

Era impossível de acreditar. Shendelzare não podia acreditar que algo assim pudesse acontecer. Se era um pesadelo, desejava despertar. Se era realidade...bem, se assim fosse, era terrível demais para ela suportar. Sua irmã mais nova fora coroada rainha? Não. Ela a teria procurado. Shindelayre, a sua irmã caçula, teria procurado por ela e não tomado o trono. A menos que...não. Não?

A dura verdade estapeou-a com mãos de aço frígido. As lágrimas de dor e de fúria brotaram instantaneamente e embora já soubesse a verdade, precisava se certificar. Olhou Naga Siren nos olhos e perguntou-a com uma voz trêmula e carregada de todos os sentimentos mais perversos que borbulhavam em suas entranhas.

_ Você...disse...que eu não...não caí. O que aconteceu, então? Me responda, sereia!

Naga desviou o olhar. Também parecia estar sendo transpassada pela dor e pela fúria de Shendelzare.

_ Eles a derrubaram. Todos eles. Os amigos de sua irmã...e ela também. Eles mentiram para você, conspiraram e a quebraram no topo do Rochedo. Dragonus me contou que ele tentou impedir, mas já era tarde demais. Eles a atiraram da janela do seu quarto. E para se certificar de que você não viveria em hipótese nenhuma, cortaram sua garganta.

Shendel deslizou a mão para baixo do queixo e sentiu uma fina linha que se fechara em sua traquéia. Sua voz estivera rouca, mas ela mal reparara nisso. Estivera tão obcecada com as asas que se esquecera de pensar em como adquirira os cortes.

Shindelayre, Shindelayre. Sempre fazendo o papel da boa moça, mas no fundo, Shendelzare sabia que a irmã a invejava. Só não havia enxergado a profundidade disso. Então ela realmente fora enganada. Sentiu-se tão tola que perder suas asas agora lhe parecia o mínimo. Estava humilhada.

Ergueu-se e correu. Naga chamou por ela, mas Shendel a ignorou. Não podia escutar mais nada. Não agora. Feridas mais mortais do que cortes e a inutilização de suas asas foram abertas. Sentiu galhos e folhas açoitarem suas feridas enquanto corria para dentro da floresta escura, mas apenas gritava e gemia de dor, chorando como uma criança perdida e desconsolada. Tudo lhe fora tirado. Odiava cada centímetro de si mesma. Odiava cada centímetro de sua irmã. Odiava o mundo inteiro. E um sentimento desconhecido e ao mesmo tempo flamejante e íntimo a invadiu. Uma cólera amarga, mas que ela não impediu que se espalhasse por seu corpo.

Atirou-se ao chão, no meio de uma clareira. Não agüentaria dar nem mais um passo. Esmurrou o chão enraizado, atirou pedras. Mas nada aliviava o sentimento terrível que a devorava.

_ MORTE!_ desejou._ MORTE!

A floresta a respondeu com um silêncio obscuro, um sarcasmo sobre a solidão que Shendelzare sentia.

_ Morte..._ implorou.

Uma mão fria a tocou. Quando ergueu os olhos, deparou-se com a criatura mais terrivelmente gloriosa que já vira na vida. Era a figura de uma grande mulher, vestida com uma armadura negra e vermelha. Seus olhos faiscavam como o fogo líquido ardente das profundezas da terra. Ela tinha quatro pares de asas com plumagem negra que se estendia ao longo de suas costas. Sua pele era como gelo e pálida como a neve. E embora estivesse na clareira, estava encoberta por uma estranha aura negra e tremeluzente.

_ Morte...?_ perguntou Shendelzare.

_ Não._ respondeu a mulher docemente._ Eu sou a vida, minha criatura. Eu sou a sua vida. A sua ressurreição. Aquela que te içou do mundo dos mortos para assoprar a vida sobre você mais uma vez. Você...Shendelzare...é a minha criação. O seu espírito é meu.

_ Quem é você...?!_ perguntou Shendel recuando cambaleante para longe da estranha aparição.

_ Eu? Eu sou sua mãe, Shendelzare. Eu sou Scree’auk.