A Irmandade - Dota 2

12 Luna, o Raio Lunar


Estivera tanto tempo enclausurada na biblioteca do Grande Templo estudando as fases da lua e suas influências que adormecera entre as montanhas de livros. Foi Gambel quem a acordou na manhã seguinte, dizendo que Mirana esperava por ela, na Torre Minguante.

Luna arrastou os passos para as escadarias da Torre e enquanto o fazia, pensava em Nova. A criatura sabia se cuidar muito bem, mas dentre os três dias em que ela passara na biblioteca, Nova não a vira e provavelmente estaria se sentindo muito solitário. Prometendo a si mesma que iria vê-lo depois de encontrar-se com Mirana, ela subiu os degraus de mármore-da-lua e chegou ao topo da Torre, onde de fato a sacerdotisa da lua a aguardava.

Mirana parecia estar ansiosa demais. Luna já a vira assim antes, uma vez, quando elas se encontraram com Kael. Foi a primeira vez que Luna o vira pessoalmente, mas Mirana já parecia realmente familiarizada com o mago e demonstrava um desgosto pessoal com o rapaz. Também desta vez ela parecia igualmente tensa, com a respiração rápida e um olhar desorientado.

_ Mandou me chamar?_ perguntou Luna calmamente.

_ Eles o capturaram._ respondeu a outra entre os resfôlegos.

_ Quem capturou o quê?

_ Schkyar capturou o Invoker. Ele está interrogando-o nas masmorras.

_ E porque está tão tensa?_ Luna perguntou confusa com a reação da amiga.

_ O Mestre-Elfo é um estúpido. Invoker já teria se libertado, se quisesse, mas ele está quieto demais, pacífico demais. Silencioso demais. Eu acho que ele queria ser trazido para cá.

Luna entendeu instantaneamente.

_ Ele não sabia a localização da cidade sagrada.

_ Mas agora sabe. E não vai embora antes de encontrar o último pergaminho lunar.

_ Temos de avisar a Schkyar..._ começou Luna, mas Mirana interrompeu-a quase imediatamente.

_ Eu já o avisei, mas ele é orgulhoso demais para acreditar que Invoker pode escapar daqui ileso se quiser. A Irmandade Lunar vai julgá-lo ao anoitecer e tenho certeza que a sentença será a morte.

_ Então vamos esconder o pergaminho._ sugeriu.

_ Eu já pensei nisso, mas nem eu mesma sei onde está. Apenas Schkyar sabe e ele não iria me contar, ainda que eu jurasse amá-lo. De todo modo, temos de ficar com os olhos abertos sobre Carl e vigiá-lo para que ele não saia da linha.

As duas firmaram ali um plano rápido e desceram os degraus de volta para o templo. Luna lembrou-se de ter visto ali o Rei da Alvorada, o pai de Mirana, algumas noites atrás, quando as duas trouxeram Rikimaru para Nightsilver. A lembrança trouxe-lhe curiosidade e ela não se deteve em lembrar a outra.

_ Mirana?_ chamou.

_ Hum?

_ Seu pai estava aqui há cinco luas, quando trouxemos o príncipe sátiro.

_ Verdade._ o olhar de Mirana oscilou de um modo pensativo._ Mas ele já se foi.

_ Vocês subiram para o topo da Torre Minguante.

Mirana acenou com a cabeça e parou de repente. Sabia exatamente onde Luna queria chegar e como ambas eram próximas e dividiam confidências, a sacerdotisa disse sem hesitação:

_ Ele quer que eu volte para Aurora e assuma o reino como rainha legítima.

Luna arregalou os olhos.

_ Pensei que ele tivesse concordado com você, quando se tornou uma sacerdotisa da lua.

_ Se acostumar, foi o que ele fez._ respondeu-lhe._ Mas ele diz que as sacerdotisas do sol fizeram uma profecia a meu respeito. Bem. Na verdade, duas profecias.

Ela suspirou e hesitou antes de continuar, repetindo as palavras que ouvira do pai:

_ Uma dizia que a noite se tornaria dia para mim. Eu voltaria a usar a coroa de ouro na cabeça, mas desta vez como rainha e viveria para o sol e para as manhãs mornas. Assim minha vida seria longa e plena e eu, brilhante e gloriosa como o próprio sol.

_ E a outra?

Mais uma vez, Mirana suspirou e desta vez, pareceu a Luna que estava cansada e lúgubre.

_ Morte.

Luna indignou-se em silêncio.

_ Eu seria a princesa da noite, a escolhida de Selemene, mas no final, meu sangue mancharia o Rio Vespertino de vermelho. Elas viram a magia negra asfixiando Sagan e depois, eu seria transformada num cadáver ambulante a serviço da escuridão.

Ambas estremeceram.

_ Isto é sombrio demais para se dizer, até mesmo entre as paredes do Templo Lunar._ Luna disse-lhe e a outra concordou acenando._ Tenha fé em Selemene, Mirana. Ela jamais nos abandonará.

Pelo menos assim eu acredito, Luna pensou em seu íntimo. As duas atravessaram corredores e salões, desceram mais degraus e chegaram até as masmorras sombrias do templo. Havia um grande salão iluminado por lamparinas de chamas vermelho-vivo. Quando Luna entrou, viu homens e mulheres, elfos e humanos, todos sentados em cadeirões, nos estrados superiores, de onde podiam ver privilegiadamente o meio do salão.

No centro, havia uma grande gaiola de ferro e magia. Dedos brancos e cheios de anéis brilhantes se apertavam entre as grades de ferro e Luna ouviu Mirana resfolegar mais uma vez quando descobriram que o prisioneiro era Kael. Seus olhos brancos como pérolas ainda não havia encontrado as duas e ele fitava Schkyar, O Mestre-Elfo, num cadeirão no topo do estrado. Outras quatro cadeiras vazias haviam sido organizadas nos lados do Mestre-Elfo, reservadas aos outros membros da Irmandade Lunar, que incluía Mirana e alguns dos sacerdotes anciãos.

Quando as viu, Invoker sorriu displicentemente entre as grades. Ele alteou a voz e gritou:

_ Mirana! Luna! Depois de tanto tempo...

Luna ignorou-o mas pôde observar pelo canto do olho que Mirana relutava em manter-se quieta.

_ Como está o velho Rei?_ Invoker gritou.

Foi um movimento rápido e quase fatal, se Luna não tivesse segurado o pulso da sacerdotisa.

_ Mirana, não!

Mirana estava a beira de um colapso de fúria, respirando rapidamente pela boca e encarando Kael. Não com o olhar doce e orgulhoso de uma princesa-sacerdotisa, mas com olhos frios e intensos como uma noite de inverno sem luar. Agarrara a flecha sagrada e estivera prestes a plantá-la entre as grades da gaiola de Invoker, em seu momento de cegueira causada pela ira. Quando voltou a si, lançou um olhar de desprezo ao mago e subiu para tomar seu lugar ao lado de Schkyar.

Tiveram de esperar por algumas horas, enquanto o Mestre-Elfo interrogava Invoker, fazendo-lhe todos os tipos de perguntas, mas Kael limitava-se a gracejar com desdém e dar respostas misteriosas que não levava Schkyar a nenhuma coerência. Quando a noite começou a cair lá fora, no exterior dos escuros saguões cavernosos das masmorras, os outros membros da Irmandade apareceram e se sentaram ao lado de Mirana e Schkyar. Luna sentou-se num cadeirão na parte mais baixa do estrado para observar. O salão encheu-se de mais curiosos que desejavam assistir o julgamento e quando ninguém se aguentava mais de ansiedade, ele finalmente começou.

_ A Irmandade Lunar reúne-se sob a face da Sagrada Lua e sob o olhar da altíssima Selemene, _ o Mestre-Elfo alteou a poderosa voz para que todos pudessem ouvi-lo._ para julgar Kael, O Mago, O Invocador, pelo crime de alta traição, tentativa de regicídio, roubo dos tesouros do Reino de Aurora, corrupção, concupiscência, estelionato, conspiração e assassinato.

_ Não nos esqueçamos_ berrou Invoker com um sorriso negro._ do crime de ter abandonado a princesa Nightshade no altar. Um crime pelo qual eu ainda me arrependo, vendo hoje como ela está tão bela...

O salão inteiro entrou num silêncio mortal e os olhares foram para Mirana, que baixara o rosto, envergonhada. "Ele quer humilhá-la", Luna disse a si mesma. O sorriso desapareceu do rosto de Kael quando uma mão negra feita de pura sombra surgiu das grades ao redor dele e agarrou-lhe no pescoço para asfixiá-lo. Pressionou com tanta força que os roncos e engasgos ecoaram pelo salão. Era Schkyar quem manipulava a sombra. Seus olhos perfuravam Invoker com uma expressão letal do mais profundo desejo de sangue do mago. Os anciãos da Irmandade pigarrearam e o Mestre-Elfo fez desaparecer a mão-sombra e Kael recuperou a respiração, ofegando alto e brandamente.

_ Mais um gracejo, por menor que seja_ prometeu Schkyar ameaçadoramente._ E eu mesmo cortarei a sua língua, tendo esse salão inteiro como testemunha.

Não havia tom de brincadeira em sua voz e a sombra pairou sobre o salão pelo resto do julgamento. Luna observou enquanto os membros da Irmandade, com exceção de Mirana, encaravam Kael com rancor e frieza.

A própria Mirana desceu de seu cadeirão e abandonou o posto de membro da Irmandade Lunar para testemunhar contra Kael. Ela narrou brevemente os dias mais vergonhosos de sua vida que a levaram a se tornar uma sacerdotisa da lua.

Havia muitos anos desde que Invoker se aproximara do reino de Aurora, em uma época em que Mirana era apenas uma menina boba e apaixonada. Kael sempre fora muito belo, inteligente, poderoso e também persuasivo, o que fez com que Aurora inteira ficasse encantada com ele. Dizendo que era o príncipe de uma terra distante, ele enganou o Rei de Aurora e propôs casamento a jovem princesa Mirana Goldenrise. O reino celebrou durante dias e noites, tributos foram oferecidos, presentes foram trocados e segredos extremamente sigilosos foram passados à Invoker, antes que ele pudesse ser visto como realmente era. No dia do casamento, Mirana vestia tecidos de fios de ouro, mas sua beleza e resplendor de nada serviram. Invoker não entrou no Templo Solar.

Dias se passaram e a vergonha de Mirana a fizera pensar em coisas horríveis. Luna se lembrava de quando sua amiga lhe contara, que planejou até mesmo jogar-se do topo de uma torre e se afogar no fosso do castelo. Invoker retornou, com sua verdadeira identidade, mas desta vez, ele viera a serviço de um inimigo de Aurora. Marchou contra a capital e tentou matar o rei. Mas o alvorecer parecia ter chegado mais depressa naquele dia e quando a noite transformou o céu claro em um véu negro, estrelas caíram do céu e destruíram o exército inimigo. Invoker teria morrido também, não fosse sua capacidade mágica de desaparecer.

Não fora o sol da manhã, mas o luar quem aniquilara os inimigos. Aurora estivera em uma dívida eterna com Selemene, a deusa lunar, mas ainda preferia os cultos menos sombrios dos deuses do dia. O rei recebeu a visita de um velho ancião da Irmandade Lunar, após algumas semanas, e ele disse que Mirana não era uma criação do dia, mas da noite. Sua vida pertencia à Selemene. Ela era a princesa-sacerdotisa da lua e que por ela, Selemene enviara sua chuva de estrelas. Desde então, ela decidira se aderir a causa da deusa lunar, servindo-a em solidão, mas não tendo esquecido a traição de Kael. O sobrenome Goldenrise foi-lhe retirado, para que servisse à Senhora da Noite como Mirana Nightshade. “Mirana Goldenrise está morta. Ela morreu com o exército de Ostarion, na chuva de estrelas”, dissera a Luna, certa vez.

Quando terminou de testemunhar, ela se levantou, subiu pelo estrado e sentou-se em silêncio em seu cadeirão. Schkyar recomeçou a falar, fazendo mais uma série de perguntas óbvias a Invoker, que o respondia com meneios de cabeça por entre as grades. Exceto pelo fato de que todos no salão haviam acabado de conhecer a triste verdade sobre a princesa Goldenrise, o julgamento parecia monótono. Houve uma breve interrupção em que a Irmandade Lunar murmurou no estrado (Mirana apenas concordava com acenos de cabeça, mas não dizia uma única palavra) e então o Mestre-Elfo finalmente ergueu-se de seu cadeirão.

_ Você, Kael, também chamado de Carl, O Invoker, O Invocador e Mestre da Magia, é julgado culpado pelos crimes de alta traição, tentativa de regicídio, roubo dos tesouros do Reino de Aurora, corrupção, concupiscência, estelionato, conspiração e assassinato.

_ Sim._ Invoker concordou sem sorrir desta vez.

_ Sua sentença é a morte imediata. Terá o direito de escolher a morte pelo fogo ou pela água e não...

Suas palavras foram interrompidas por um berro alto que vinha da entrada do salão. Um homem vestido com a farda de Guarda da Noite entrou correndo pelo arco de pedra, exausto, mas a tempo de dizer:

_ Uma...mulher...os outros...mortos...

E o sangue dele explodiu de sua barriga quando um fino corte surgiu repentinamente em seu corpo. Schkyar franziu o cenho quando viu algo se movendo atrás do guarda, que caíra morto no chão. Luna também viu. Era algo escuro que se movia rápido demais, menos denso que uma sombra, um vulto espectral.

Dentro de sua gaiola, Invoker abriu um largo e cruel sorriso. Luna e Mirana trocaram olhares, enquanto mais da metade do salão corria desorientadamente para a saída e o alvoroço encheu o salão. Mirana rodopiou o arco no ar enquanto descia do estrado e Luna puxou seus bumerangues de metal fino e afiado. O ruído desagradável de metal serrando metal foi ouvido e em segundos, a gaiola de Invoker ruiu dividida em destroços fumegantes. A magia silenciadora cessou e ele suspirou, enquanto absorvia as energias do ambiente para si.

O vulto diminuiu o ritmo com que se movia. Aos poucos foi possível ver o rosto negro-azulado de uma mulher, usando um elmo escuro como como sua capa e sua armadura de metal.

_ Mortred!_ Invoker saudou-a em meio ao caos e desespero.

_ Cinquenta punhais._ ela respondeu-lhe num tom misterioso._ Cinquenta mortos.