A Irmandade - Dota 2
4 Lina, A Incendiária
Quando as notícias de que a Donzela de Cristal se aproximava do vilarejo se espalhou pela Guilda dos Incendiários, todos os discípulos do fogo correram para as janelas do prédio para espiar a nova visitante. Todos menos uma. Lina não se importava com a chegada de uma feiticeira do gelo. Ainda mais quando se tratava de sua irmã mais nova.
_ Rylai é traiçoeira._ ela disse ao jovem Cavaleiro Dragão._ E fria.
Mas quando a Donzela atravessou os portões da Guilda para saudar os incendiários, todos eles a acharam doce e meiga demais, em contrapartida a Lina, que era mais gélida do que a irmã quando se tratava de afeto. Rylai era uma bela moça de pouco mais do que quinze anos. Cabelos loiros e ondulados caíam sobre seus ombros e um capuz e capas de pele de lobos a envolvia. Os incendiários ficaram surpresos. Era uma tarde quente de verão e a moça parecia estar congelando. Sua pele não era bronzeada como a de sua irmã, mas pálida como um papel. Até seus lábios eram roxos, como se ela carregasse o frio consigo todo o tempo. E logo, quase todos os membros masculinos da Guilda estavam estupidamente apaixonados pela Donzela.
_ Olá!_ ela disse ao Cavaleiro Dragão e ele sorriu galantemente em resposta.
Rylai também sorriu, mas seu sorriso adorável desapareceu quando seus olhos se moveram para a pessoa atrás do Cavaleiro. Os cabelos ruivos que ela reconheceria em qualquer lugar, o par de olhos escarlate que sempre detestou. Lina evitou olhá-la, mas as duas acabaram se encarando friamente uma a outra, descarregando naquele olhar toda a fúria que sentiam contra o indesejável parentesco entre elas.
O Mestre da Guilda dos Incendiários era um velho conjurador de fogos. Ele estava lá e deu as boas vindas à Rylai alegremente. Depois propôs a ela que eles fossem juntos ao Jardim de Avëim para que ele mostrasse a ela a Árvore Anciã. A sutil expressão de Lina demonstrou que ela sentia-se realmente infeliz com o fato de que ela e a irmã estivessem abrigada sob o mesmo teto.
_ Ela é uma feiticeira de gelo, Draco._ comentou ela furiosamente com o Cavaleiro Dragão._ Nossos mundos são diferentes.
_ Nós vivemos no mesmo mundo._ ele respondeu-a, com um tom solene._ E por mais que vocês duas teimem com isso, vocês têm mais em comum do que imaginam.
Aquelas palavras foram o suficiente para ver o escarlate dos olhos de Lina lampejarem perigosamente. Ela encarou-o e saiu agitando os cabelos cor de fogo. Nada no mundo a feria tanto quanto ser comparada à irmã. Detestava que se lembrassem dela. A outra garota. A irmã mais nova. Rylai, ela se chamava, mas eles a conheciam como a Donzela de Cristal. Um nome ridículo.
A sua mente ardia em pensamentos. Lina mal percebera mais suas mãos estavam em chamas. O fogo jamais a incomodara, mas agora causava um ligeiro formigamento. Algo que ela tentou reprimir desesperadamente quando sentiu. O único fogo que a poderia incomodar era o fogo ardente de ódio. E ainda que sempre lutasse contra o sentimento, ele sempre voltava a atormentá-la quando se lembrava de Rylai.
“Ódio ardente”, ela pensou assustada consigo mesma. Algo que estava além de seus limites. Outras lembranças rondaram sua mente, fantasmas do passado. A velha profetiza do deserto alertando-a com duras palavras sobre o espírito do fogo negro...E como ela seria facilmente vencida por ele se deixasse ser levada.
Um jovem aprendiz do fogo encarou-a com olhos arregalados quando ela passou tentando se livrar do estranho fogo que envolvia suas mãos. Lina encarou-o de volta e tentou se esquecer desesperadamente do sentimento terrível que nutria por Rylai. E mais. Precisava se libertar de toda aquela fúria ardente em seu coração.
A resposta veio alguns dias mais tarde, depois que Lina havia se trancado em seu cômodo de paredes chamuscadas, extremamente irritada por que Rylai ainda estava nos arredores da Guilda Incendiária. Sua irmã mais nova havia se tornado o centro das atenções. Um cristal de gelo no meio das chamas. E ainda que não soubesse a verdadeira razão da chegada de Crystal Maiden, estava desesperada para que ela fosse embora.
Draco subiu as escadas em espiral da Guilda e percorreu um longo corredor de pedras vulcânicas brilhantes como magma para encontrar uma Lina deplorável entre os destroços fumegantes da mobília do quarto dela. Os olhos já não eram mais escarlates. O que se via através de suas pupilas era o inferno de chamas eternas. E as labaredas que envolviam suas mãos haviam crescido. Já não eram mais apenas um formigamento e sim uma leve ardência cada vez mais incômoda.
_ Lina?_ ele chamou e fingiu bater na porta que antes existia, mas que agora era apenas uma pilha de carvão fumegante, entulhada na entrada do quarto.
_ Vá embora.
O Cavaleiro Dragão suspirou e em desobediência, invadiu o quarto. Escorou o escudo com um magnífico desenho de um dragão vermelho na parede e tirou o elmo para revelar o rosto quadrado envolto por cabelos castanhos escuros mal aparados.
_ Eu sei o que você está furiosa. Sua irmã também parece incomodada. Hospedou-se numa estalagem perto do rio. Você já olhou pela janela hoje?
Draco indicou o retângulo irregular por onde um pouco da luz do dia penetrava no quarto. Lina tornou a olhar e sentiu-se incomodada. Lá fora, depois da trilha e dos Jardins de Avëim, uma cortina de névoa debruçava-se sobre um prédio grande de madeira, no topo de um pequeno morro.
_ Acontece sempre que vocês se vêem?_ ele perguntou.
Lina assentiu balançando a cabeça, em resposta.
_ Os rapazes da guilda estão desesperados por ver vocês duas lutando. Eles estão se perguntando se você também vai se inscrever no Torneio.
Então foi por isso que ela veio.
Era meio de setembro, Lina se lembrou. Ao fim do mês, o Torneio de Aghanim começaria. Campeões de várias partes do país viriam. Desde os sátiros da margem do Rio Vespertino até o mais poderoso guerreiro das Ilhas sulistas do Mar Castanho. Todos em busca da vitória na arena do torneio, em busca de glória e em busca dos poderosos prêmios distribuídos em cada edição dos jogos.
_ Ao que eu soube, ela vem atrás do Olho de Skadi._ continuou o Cavaleiro Dragão.
Lina ergueu o olhar instantaneamente.
_ Como eles conseguiram o olho da deusa?
Draco riu e sacudiu os ombros.
_ Ora, você sabe que os organizadores do Torneio são gente misteriosa e muito poderosa. Eu mesmo estou decidido a participar, desta vez. Soube que conseguiram a lendária Resplendor. Não me importaria de conseguir aquele Olho de Skadi, também.
_ É o olho da deusa do inverno._ Lina encarou-o com um olhar cada vez mais etéreo.
Draco agradeceu aos deuses silenciosamente. Lina parecia menos inquieta e o escarlate retornava aos olhos lentamente. As labaredas nas mãos pareciam diminuir enquanto ela falava.
_ Eu sei. E não nos damos bem com o que é frio e duro. Mas não significa que não possamos aprender a usar isso a nosso favor.
Houve uma breve pausa em que Lina e Draco se encararam em silêncio. Foi tempo suficiente para que Lina retornasse ao seu estado normal. E após uma curta reflexão silenciosa, ela murmurou para Draco, num tom nada amável, mas tampouco ameaçador.
_ Irei ao Torneio. Não para concorrer, mas para assistir. Quero ver o que Rylai é capaz de fazer depois desses anos todos.
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