A Irmandade - Dota 2
5 Traxex, A Silenciadora
O mago Elemental era orgulhoso demais e ainda que fosse um prisioneiro de Traxex, não a olhava nem por um instante. Enquanto ele e a elfa noturna se embrenhavam nas trevas entre as árvores, ele marchava como se avançasse num campo de batalha. Ambas as mãos estavam envoltas numa algema de gelo nortenho, um truque que Drow Ranger aprendera a usar enquanto viveu nas florestas sombrias além da Floresta Morta.
Uma ou duas vezes, Carl parou e encarou a selva. Fazia sinais negativos com a cabeça, estalava a língua, incomodado, e quando via que o caminho para qual Drow o guiava era algum lugar perigoso, revirava os olhos e murmurava:
_ Não vai querer ir por aí.
E a verdade era que Traxex nem sabia realmente o caminho que estava seguindo. Não conhecia a mata selvagem da Floresta Morta e mesmo sendo uma habitante do lado sombrio do Rio Vespertino, não gostava de se aventurar naquele pedaço de chão horroroso. Ali não havia neve e o calor abafado que se abrigava entre as árvores a incomodava.
Vira em Invoker a marca pela qual procurava. O olho sem pupila. Teve certeza de que ele era o assassino do príncipe Ne’hax assim que pôs os olhos nele. Mas agora estava desorientada, perdida na floresta, tentando reencontrar a trilha que levava ao Norte, de onde ela viera. Não havia muito que fazer a não ser rondar por ali e tentar se familiarizar com algum dos caminhos sombrios por onde passavam. E ela andou e andou e andou mais um pouco, até que decidiu parar para descansar. Carl estava com as mãos roxas de frio, mas não poderia fazer absolutamente nada. Seu corpo estava envolto em uma fumaça pálida e espectral que o impedia de realizar suas magias. A magia anti-magia, como costumavam chamar os mais sábios, também era chamada de Silenciação.
Traxex e Carl pararam à beira da margem sudeste do Rio Vespertino. O rio chiava alto ali, abaixo de um punhado de degraus de pedra úmida e escorregadia. Aquele lugar finalmente lhe pareceu familiar, mas nada agradável. Os rugidos abafados que vinham sob a terra lembrou-lhe de que estavam muito próximos do covil do demônio Roshan. Estivera ali, quando era apenas uma menina que rondava por todos os cantos do mundo, em aventuras perigosas que seus pais, viajantes, costumavam fazer.
_ Temos de sair daqui._ ela murmurou mais para si mesma do que para Invoker.
Ele abriu a boca para fazer algum tipo de piada sarcástica, mas sua voz saiu rouca e silvada como o som de uma cobra. Com o orgulho ferido, ele encarou-a carrancudo e fechou a boca.
Quase rendida, ela contornou um punhado de árvores, subiu mais degraus de pedra úmida, cruzou um caminho irremediavelmente escuro até finalmente verem um pouco de luz do dia que brotava subitamente entre o matagal apodrecido. O sol resplandecia sobre uma ponte de pedra lisa logo mais adiante. Sob ela, o Rio Vespertino corria, imundo e barulhento. Quando viu o lugar, ela ficou surpresa, mas não se deixou demonstrar isso.
Era uma visão agradável. As árvores do outro lado eram verdes e vivas. A trilha entre elas não era fechada ou obscura, mas clara sob a luz solar. Um desejo repentino brotou em seu coração. Era tudo tão...diferente ali. O que havia além daquele lugar? Existiria frio e gelo lá também? Desejou saber. Desejou ir até lá e descobrir. Mas isso implicava no desvio de sua missão. Não, Drow disse a si mesma, Não é este o meu caminho. Mas a Floresta Verde continuava a atrair seu olhar, irresistível, iluminada e viva.
Quando virou-se novamente para as trevas da Floresta Morta, percebeu a figura desconhecida que a encarava. Desconhecida, mas perigosa, ela reconheceu instantaneamente. Uma mulher demônio com um par de chifres na cabeça e olhos faiscantes. No rosto, um sorriso de prazer estava estampado e seu olhar vacilou entre Traxex e Invoker.
_ Carl. Você foi pego...por esta...mulher?_ perguntou Akasha em tom de deboche.
Invoker revirou os olhos e lançou um olhar significativo para Akasha. A mulher avançou instantaneamente contra Traxex e lançou uma adaga na direção da cabeça da elfa noturna. Drow girou no ar, esquivando-se da arma envenenada de Akasha e mirou a flecha de gelo no rosto da demoníaca, mas ela balançou as asas e só restaram faíscas onde estivera segundos atrás.
_ Sumiu!_ Traxex sussurrou, olhando ao redor de si.
_ Ah, ela faz muito isso._ Invoker se esforçou em dizer e sua voz saiu como um raspar de pedras.
O cheiro de sangue fresco invadiu as narinas de Traxex ao mesmo tempo em que ela sentia uma aguda dor no corpo inteiro. A dor era excruciante e a fez cair no chão. Seu grosseiro traje de peles de lobos encharcou-se de seu próprio sangue cor de vinho. Em algum lugar ali, ela ouviu o gelo das algemas de Invoker se partindo, mas quando tentou se mover a dor se intensificou até que ela sentisse as entranhas se retorcerem de dor. Até mesmo sua visão era afetada. O arvoredo ao redor parecia se multiplicar diante de seus olhos e se mover em círculos irregulares.
Estou prestes a morrer, ela sussurrou para si mesma mentalmente. Quando achou que não poderia agüentar mais, girou a cabeça na direção dos bosques verdes além do rio. Viu mais do que árvores verdejantes e relva na beira da trilha. Uma criatura miúda e saltitante se aproximava pela ponte. Parecia uma mulher, mas metade de seu corpo era semelhante à de um veado. Ela vinha rapidamente na direção de Traxex. E embora parecesse frágil e inofensiva, carregava uma expressão feroz no rosto.
Traxex esperou. Era a única coisa que era capaz de fazer. Viu a criaturinha atirar uma poderosa lança de madeira que passou silvando por cima dela e não acertou por pouco no peito de um monstro peludo e encurvado com uma máscara vermelha, a criatura cujo poder a fazia sangrar.
Em poucos minutos, um punhado de criaturas estavam lutando ao redor de Traxex. Ela viu a mulher-cervo lutando bravamente contra Akasha, enquanto outra pessoa, uma figura muito semelhante a uma árvore viva marchava com passos pesados até Invoker, que se esquivava de ramos e raízes que brotavam do chão para segurá-lo.
Teve um breve vislumbre do rosto da mulher-cervo se aproximando. Uma voz doce e infantil murmurou:
_ Esta aqui não parece ser um deles! Ei, ei! Você está bem?
Quis responder, mas deslizou lentamente para o inconsciente, ouvindo apenas vozes distantes ecoando em sua mente, com palavras que não faziam sentido.
Fale com o autor