A Inútil Capacidade de Ser Artificial
1 Prologo
Notas iniciais
Acordo e sinto aquela costumeira dor atrás do pescoço que sinto toda vez que durmo no carro, e então quase como se fosse para confirmar o fato de que a culpa pela minha dor no pescoço é dele, meu pai passa com toda velocidade dentro de um buraco enorme.
—Ai! – Digo passando a mão no pescoço.
—Os políticos desse estado deveriam fazer algo para melhorar a situação dessas estradas – meu pai fala sem tirar os olhos da pista.
—Com toda certeza, querido – minha mãe fala e então se vira do banco do motorista à frente e olha sorrindo para mim. – Tudo bem, filho?
—Tudo sim, mãe. – Digo forçando um sorriso. – Só a dor de cabeça de sempre.
Pego o telefone em meu bolso e olho as horas, 08hrs27min. Nós saímos de Lagos de Minas ás seis da manhã e eu dormi desde que entramos na BR.
Nos últimos dez meses nós temos viajado de cidade em cidade por causa do trabalho do meu pai que envolve algo sobre ações de empresas e representação comercial – eu não sei explicar muito bem e nunca me importei em pedir que ele explicasse –, e desde então eu tenho pulado de escola em escola sem nem mesmo ter tempo para fazer amigos – não que eu seja bom em fazer amizades, de qualquer forma.
O fato realmente importante é que na segunda semana de março meu pai chegou em casa todo animado e disse que nós iriamos embora de Novos Montes por causa do trabalho dele, e duas horas depois nós fomos embora levando apenas nossas roupas e alguns outros pertences pessoais sem nem mesmo nos despedir de ninguém.
Olho pela janela do 4x4 prata do meu pai e leio a placa na entrada da cidade que acabamos de chegar: “Bem-Vindos à Rosa Maria”. Nas primeiras duas cidades em que “moramos” nos últimos meses eu realmente fiquei animado com toda essa coisa de cidade nova vida nova, mas agora depois de ver que as pessoas são as mesmas em todos os lugares – até eu mesmo sou o mesmo – eu só sinto como se estivéssemos indo para um lugar igual com nome diferente, não tem como me sentir animado com isso.
Meu pai segue pela cidade com ajuda do GPS e alguns minutos depois paramos em frente à um prédio de três andares pintado de cinza com uma placa na entrada escrita Escritório Lavorini.
Descemos os três do carro e fico olhando para os prédios em volta.
—Arruma seu cabelo – meu pai fala quando paro ao seu lado em frente ao prédio.
—Não tinha visto – digo passando a mão sobre os cabelos para penteá-los.
—Você não viu, mas estava a vista para todos verem. Precisamos achar um lugar para você cortar esse cabelo, está muito grande. – Ele diz e anda em direção ao prédio, eu e minha mãe o seguimos.
—Eu não quero cortar meu cabelo – digo sem pensar... Espero que ele não tenha ouvido.
Meu nome é Alexandre Ferraz, tenho 16 anos, acabei de terminar o segundo ano do ensino médio, sou do signo de Escorpião; e você acaba de conhecer o meu amado – e total e completamente controlador – pai.
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