Você já reparou que têm algumas coisas que a gente só vê em filmes ou em qualquer programa da televisão, e que quando vemos pela primeira vez ao vivo não parece algo real?!

Bem, é essa a sensação que tenho ao entrar no Escritório Lavorini e ver todas aquelas mesas iguais, com computadores também iguais, com pessoas com uniformes ridiculamente iguais divididas em duas fileiras, uma do lado direito e a outra do esquerdo. Olho para o lado e vejo um filtro com um garrafão de água mineral no canto de uma parede cheia de quadros com páginas de diferentes jornais falando sobre o Sr. Lavorini ou sobre algum prêmio que a empresa dele recebeu. Todo o escritório parece um cenário do um filme americano, e sinceramente eu não sei dizer se isso é estranho ou legal.

—Bom dia – diz uma mulher no canto esquerdo sentada em uma mesa marrom escura que está virada em nossa direção, por estar com um terninho preto ela se destaca no lugar. – Em que posso ajudá-los?

—Eu tenho uma reunião marcada com o Sr. Lavorini – meu pai fala. – Meu nome é Augusto Ferraz.

—Ah, claro – a mulher diz e pega o telefone preto em sua frente e tira do gancho. – Augusto Ferraz está aqui para falar com o Senhor – Ela diz ao telefone, alguns segundos depois coloca o telefone no gancho novamente e se levanta. – Me acompanhem, por favor.

Passamos no meio das mesas seguindo a secretária e ao olhar para as pessoas vestidas iguais nas mesas totalmente iguais percebo que todas parecem muito sorridentes e passam um ar de que é realmente bom trabalhar aqui apesar dos uniformes horríveis – sério o uniforme desse lugar é muito feio; é um conjunto de calça cinza, camiseta vermelha e um colete com desenhos de folhas, lagartos e uns símbolos estranhos que nunca vi na vida, e pra completar tênis de mola branco.

A secretária para em frente a uma porta de madeira escura e bate três vezes antes de abri-la.

—Com licença – ela diz ao entrar e nós a seguimos.

—Bom dia, Augusto – o Sr. Lavorini se levanta da mesa e anda até meu pai e aperta sua mão.

Ele é um homem alto de mais ou menos 45 anos, pele morena clara – tipo cor de caramelo – e cabelo grisalho.

—Bom dia, Raphael – meu pai diz ao apertar a mão dele. – Essa é Eloisa minha esposa, e meu filho Alexandre.

Então eu e minha mãe também apertamos a mão do homem grisalho.

—Bem, se vamos começar a resolver nosso negócios agora acredito que sua família não ficará muito animada em ficar esperando – Raphael diz para meu pai; e então fala para a secretária – Milene chame o Thomás para acompanhá-los em um passeio pela cidade.

—Eu vou me encontrar com uma prima, mas o Alexandre pode ir se quiser – minha mãe diz sorrindo.

A resposta se forma instantaneamente em minha cabeça e é um “não se preocupe, eu vou com a minha mãe”, mas antes que eu possa falar olho para meu pai e a expressão dele é um claro “vá com o garoto!” e então eu digo:

—Claro, vai ser legal.

Uns dois segundos depois alguém bate na porta – que ainda está aberta – e todos nos viramos na direção dela.

Parados na entrada da sala estão um garoto alto da mesma idade que eu com a pela também morena como a do Sr. Lavorini e cabelos castanhos arrepiados, e uma garota também da minha idade, pele branca e cabelo curto pintado de branco – eles dois são tão lindos (principalmente estando juntos) que eu sinto novamente aquela sensação de estar vendo algo de um filme, como se eles fossem um daqueles casais malucos de seriados americanos.

—Bom dia – o garoto fala sorrindo. – Pediu para me chamar, pai?

—Sim Thomás, será que você e a Aline podem acompanhar o Alexandre por um passeio pela cidade?!

—Claro, vamos lá – ele diz e então sai da sala, eu e minha mãe o seguimos.

Minha mãe ficou super feliz quando soube que a gente viria para Rosa Maria porque ela tem essa prima chama Andrea que mora aqui e que ela não vê há anos, e assim que meu pai nos contou sobre nosso próximo destino ela ligou para a prima e avisou que viria visitá-la.

Ela pega o telefone e coloca para tocar.

—Andrea? – Ela diz assim que alguém atende. – Você pode vir me buscar aqui? – Ela fica em silêncio por um segundo. – Eu estou aqui no escritório Lavorini, sabe onde é? Então tudo bem, vou te esperar do lado de fora.

Saímos do prédio e paramos no meio da calçada do lado do menino e da menina.

—Quer que esperemos com você até que sua carona chegue? – O garoto pergunta para minha mãe.

—Não se preocupe comigo, podem ir dar uma volta, Alexandre está muito animado para conhecer a cidade – assim que ela termina de falar viro meu rosto para ela e lanço um olhar de “o quê?”.

—Então tudo bem, vamos Alexandre? – Ele diz.

—Vamos. – Digo e vou andando ao seu lado.

—De qual cidade vocês estão vindo? – A menina pergunta olhando para mim.

—Lagos de Minas – respondo olhando para baixo.

—Você sempre morou lá? – Dessa vez é Thomás quem pergunta.

—Não, eu nasci em Novos Montes, mas nos últimos meses por conta do emprego do meu pai nós temos morado em muitas cidades.

Chegamos à esquina e atravessamos a rua correndo assim que o sinal abre.

—Uma perguntinha simples – Thomás fala. – Qual o seu sobrenome?

—Ferraz, por quê?

—Outra perguntinha – ele diz ignorando a minha pergunta. – Você já foi amigo de um garoto chamado João Lourenço?

—Você por acaso é vidente ou coisa parecida? – Pergunto e os dois riem.

—Coisa parecida – ele diz simplesmente.

—Você não vai falar como sabe disso?

—Um dia eu digo, é uma promessa.

Eles continuam andando e eu vou atrás sentindo um pouco de medo porque eles parecem ser meio malucos.

Chegamos a uma praça enorme (realmente bonita, devo dizer) com algumas lojas e estabelecimentos em volta dela, mais no centro um palco está sendo montado.

—Bem-vindo ao ponto mais conhecido da cidade – Thomás fala parando de andar. – A praça do comércio; eles estão montando o palco para a festa de fim de ano.

Acho que não preciso pedir explicação pelo nome da praça.

—Legal – digo simplesmente olhando em volta.

—Você é do tipo reprimido, ou só é tímido? – Aline fala colocando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.

—Eu não sou tímido! – Não sei por que respondi a segunda pergunta primeiro. – E nem reprimido.

—Tudo bem – Thomás diz sorrindo. – Então o que você quer fazer?

—Sei lá, vocês que disseram que iam me mostrar à cidade.

—Tenho uma ideia melhor, diga algo que você sempre quis fazer – ele fala.

—Por quê? – Pergunto.

—Apenas diga!

Paro então olhando para eles já começando à ter certeza que eles são meio malucos – ou no mínimo desequilibrados –, mas decido entrar no jogo, e logo me vem uma coisa meio doida à cabeça – e também vai servir como estratégia para afastá-los um pouco de mim, já que é um crime. Bem pelo menos eu acho que é.

—Tudo bem – digo. – Eu sempre quis ir em algum lugar e comer ou beber algo e sair sem pagar, mas eu acho que isso é um crime.

—Vocês têm mentes criminosas – Thomás fala rindo, decido não perguntar quem além de mim inclui o “Vocês”, mas decido deixar para lá. – Se vamos fazer isso, então teremos que ir a um estabelecimento que não seja da minha família.

—A gente pode ir lá na Maria’s – Aline fala de forma animada.

—Argh, tudo lá é horrível – Thomás faz cara de nojo ao falar.

—Podemos só tomar refrigerantes.

—Espera um pouco aí – digo e os dois olham no mesmo momento para mim. – Vocês estão mesmo considerando fazer isso?

—Claro! – Thomás fala como se fosse a coisa mais óbvia de todas. – Por quê? Você achou que não teríamos coragem?

Balanço a cabeça simplesmente dizendo que não.

—Quê isso, não fica com medo – Aline diz passando o braço sobre meu ombro. – Vamos lá fazer uma coisa maluca!

*

Atravessamos a praça e entramos em uma confeitaria toda pintada de vermelho por dentro e por fora, e nos sentamos em uma mesa perto da saída. Além da nossa, só tem mais duas mesas ocupadas.

Logo um garoto vem nos atender.

—O que vocês vão pedir? – O garoto diz de forma tão desanimada que tenho quase certeza que ele não tem alma.

—Três latinhas de Pepsi, por favor – Thomás diz encarando ele.

—Só temos Coca-Cola, pode ser? – Ele diz e imediatamente me seguro para não rir.

—Pode ser – Thomás responde sorrindo.

—Já não basta tudo que é feito aqui ser horrível, o atendimento é ainda pior – Aline diz depois que a garota sai.

Alguns minutos depois – mais do que eu acho que seria necessário para pegar latinhas de refrigerante de um congelador – o garoto aparece com os refrigerantes. Depois que abro o meu e tomo um gole percebo que todos – os funcionários do local e as pessoas nas outras duas mesas – estão olhando para nós, e de repente eu começo a me sentir culpado porque parece que todos sabem o que nós viemos fazer aqui.

—Todo mundo ta olhando pra gente. – Digo sussurrando.

—É que o Thomás é meio que conhecido na cidade toda – Aline responde com a voz normal, sem se preocupar em ser ouvida. – Aí que é meio estranho ele vir aqui, ao invés de ir ao Cafés Lavorini, ou em qualquer outro estabelecimento da família dele.

—E como nós vamos sair sem pagar se estamos sendo monitorados? – Pergunto e os dois riem.

—Vou dar um jeito – Thomás fala.

Ficamos sentados em silêncio enquanto Thomás observa o local e pensa em um jeito de tirar toda atenção de nossa mesa.

Então o garoto sem alma passar por nossa mesa bem atrás de Thomás com uma bandeja com alguns sucos e pães na mão e de repente eu só o vejo indo rapidamente para frente, deixando a bandeja cair no chão e caindo logo em seguida.

Olho rapidamente em volta e vejo que as pessoas nas outras mesas olham em direção o garoto deitada no chão, e os funcionários do local correram até ele para ajudá-lo.

—Vamos! – Thomás sussurra e nós três nos levantamos e saímos rapidamente do local.

Corremos em direção ao outro lado da praça e eu sinto meu coração acelerado e eu sei que não é só por causa da corrida, é também por causa da emoção de estar fazendo algo maluco – mesmo não sendo algo tão maluco assim.

—Foi você quem derrubou ele? – Pergunto quanto paramos.

—Foi sim, mas eu não me orgulho disso – ele diz sorrindo o que me faz pensar que ele se orgulha sim.

Ficamos os três em silêncio tomando fôlego até que uma coisa passa por minha cabeça.

—Se todo mundo lá sabe quem você é, eles vão atrás de você para te cobrar. – Digo.

—Acho que eles não vão se importar tanto com isso – ele diz sorrindo.

—Espero que não, caso contrário se meu pai descobrir que eu fiz isso eu corro risco de ir parar em um orfanato. O bom é que eu sempre quis entrar em um.

—Nós temos um orfanato aqui – Aline diz. – Pelo menos é um projeto de um, você quer ir até lá?

—Pode ser – digo simplesmente, e nós saímos andando.