A Inversão

2 Centro de Geografia e Estudo de Rochas


Notas iniciais
Olá,
esse capítulo foi um dos mais difíceis de escrever.
Espero que gostem.

— Vamos Mike, desça ou iremos nos atrasar. – Laura chamou seu filho.
- Já vou mãe, só estou calçando o sapato. – Ele gritou lá de cima, no quarto.

Mike estava no nono ano da escola, morava com sua mãe que era separada. Não fazia questão de visitar seu pai, achava que ele não tinha tempo para atividades simples entre pais e filhos. Mesmo sendo tão jovem, batia quase no ombro da mãe que tinha exatos um metro e oitenta de altura.

Aquele dia em especial amanhecerá frio, obrigando os dois a se agasalharem muito bem. Mike estava demorando muito, pois gostava que seus sapatos estivessem brilhosos, algo que seu pai também gostava e ele nem sequer sabia. Laura evitava dar grandes detalhes sobre o pai do garoto.

Laura já estava pronta e aguardava o filho na porta da garagem. Sempre antes de sair para trabalhar, colocava seu jaleco. Foi forçada a tomar essa atitude após esquecer diversas vezes a vestimenta essencial para seu trabalho, no Centro de Geografia e Estudo de rochas, que antigamente, era chamado apenas de Centro de Geografia, mas com o avanço das pesquisas foi se aperfeiçoando e assim atingindo novos objetivos de estudos. O mais importante foi o de estudo de rochas, pois a área cresceu tanto que foi necessária a criação de um novo galpão ao lado do central. Laura ficou responsável por esse galpão, e trabalhava como a responsável pelos principais estudos. A cientista de 32 anos era formada em Geografia e Geologia na Universidade de Brausw, na cidade de Fonou.

- Estou pronto. – Disse o garoto já descendo a escada.

Estava muito bem agasalhado, tinha o cabelo caindo para um lado e grande o suficiente para cobrir toda a região da testa. A pele clara denunciava que o garoto puxará a característica do pai, diferente de sua mãe que era morena. Laura também estava devidamente agasalhada e com seu jaleco sobre um casaco longo, e o cabelo cacheado caindo sobre os ombros.

Pegaram suas coisas e foram em direção ao carro. Já a caminho da CGE, Laura começou a falar de Robert, o cientista que há contratou seis anos atrás. Disse que o velho era maluco, já possuía fios brancos no cabelo e bigode. Era tão alto quanto qualquer pessoa do perímetro. Costumava conversar sozinho, concluindo assim suas mais importantes teses da época. Usava um jaleco encardido, resultante do tempo de uso, com as mãos sempre enfiadas nos bolsos.

Após uma hora dirigindo já se aproximavam da entrada da CGE. Laura nem precisava dar seus dados na portaria, um adesivo no carro já era o suficiente para reconhecerem a cientista. Costumava todas as sextas de manha trazer um copo de café para quem estivesse como vigia, mas como estava atrasada, não o fez.

Naquela manha havia recebido uma ligação na qual foi avisada que não haveria aula para Mike e não tinha com quem deixa-lo. Esse era o motivo pelo qual o garoto a acompanhava.

Seguiram a pé ate a entrada do galpão, passaram pela recepção e desceram para a sala de Laura. Ficava bem abaixo do chão, em um corredor extremamente largo. Enquanto caminhavam era possível observar a sala de controle de pesquisas, na parede do lado direito do corredor. Laura acenava para as pessoas. Mike ficou com as bochechas coradas após responder a um aceno que só depois percebeu que não era dirigido a ele. Viraram a esquerda no final do corredor e entraram em uma sala.

Assim que entraram, o garoto percebeu que o ar do lugar cheirava ao perfume da mãe. Era tudo organizado e podia-se perceber de longe que tudo estava limpo, ate mesmo as estantes de livros eram livres da menor quantidade de poeira.
Vasculhou o aposento com os olhos, e viu em cima da mesa principal um porta-retratos com a foto dele e seus pais juntos. Pensou se a mãe ainda guardava sentimentos quanto ao pai.

- Essa é minha sala, filho. – Disse Laura enquanto retirava o casaco e o colocava sobre uma poltrona.
— Você trabalha nessa mordomia toda, e nunca sequer me trouxe aqui? – O garoto riu.
— Não deixe que essa sala lhe engane, Mike. – Pegou um telefone e começou a discar. -Onde eu realmente trabalho fica na sala que você viu enquanto andávamos no corredor.

O garoto não prestou muita atenção no que a mãe dizia, continuava fascinado pela quantidade de coisas que havia na sala. Encontrou em um lado da parede um painel cheio de desenhos que concluiu serem seus. Não se lembrava dos desenhos, e sentiu-se bem sabendo que a mãe os guardava ali.

- Vamos. Irei te mostrar o que realmente é o meu trabalho.

Os dois andaram juntos ate uma porta de ferro. Laura encostou um cartão sobre um dispositivo ao lado da porta que produziu um som de bipe e se abriu.

A primeira coisa que se reparava ao entrar era a quantidade de rochas sobre mesas extremamente largas, todas rodeadas por pessoas vestidas com seus jalecos. Todos ficavam ao centro, em uma plataforma um pouco elevada do piso. Subiram alguns degraus e andaram ate uma rocha escura, onde uma placa dizia:

Tipo de rocha: Lava resfriada. Local: Havaí.

Responsável por pesquisas: Laura Still

O Dr. Robert estava logo atrás, sentado em uma cadeira enquanto escrevia em sua planilha. Olhou para Laura e Mike, levantou-se os cumprimentou.

— Vejo que você obteve grandes avanços, Laura.
— Como prometido, Senhor.
— E esse deve ser Mike. – O garoto acenou que sim com a cabeça.
— É um prazer, mocinho. Sua mãe sempre nos atualiza sobre suas travessuras na escola. Parece que você tem uma mente forte, pessoas assim são sempre bem vindas aqui. – Disse para o garoto e recebeu um sorriso como resposta.
— Deixarei vocês a sós, tenho muitas coisas para fazer agora. Até logo. – Saiu andando com as mãos enfiadas no bolso do jaleco. Mike lembrou-se do que a mãe havia dito no carro quanto à estranha mania do cientista e começou a rir baixinho, e Laura logo se juntou aos risos.

Voltaram a olhar para a rocha e Mike perguntou:

- E então, você vai me explicar tudo? – Olhou esperançoso para a mãe.
— Tudo que eu me lembrar. – Disse tocando o ombro do garoto.
— Essa rocha foi extraída de um ponto do Havaí e trazida para cá á uma semana atrás. Ela é o resultado de um processo muito básico, que você já deve ter estudado na escola. A lava quente do vulcão escorre ate chegar ao mar, onde a água com uma temperatura muito mais baixa, esfria a rocha instantaneamente.
— E as outras? – Mike perguntou apontando para as muitas outras rochas no salão.
— São em grande maioria extraídas do mesmo lugar, más cada uma tem seu nível de importância. O que fazemos com elas é chamado de estudo de magnetismo. – Apontou para uma planilha com diversas anotações, que ficava ao lado da rocha. – Aqui, veja.
— Isso é feito com todas as rochas?
— Sim. O porquê vou lhe explicar agora. – O garoto estava com a atenção voltada totalmente para a mãe, o que a deixou entusiasmada.
— Essas rochas nos fornecem uma informação muito importante. Quando se resfriam, criam regiões magnéticas em sua estrutura. Essas estruturas agem como microscópicas agulhas de bussolas que registram a força e direção do campo magnético terrestre.
— E o que seria o campo magnético terrestre?
— Nada mais é que uma força invisível que contorna nosso planeta. Hoje, essa força corre do Sul para o Norte, é o que faz a agulha da bussola apontar em direção ao Polo Norte. Sem esse campo seríamos vulneráveis a catástrofes como falta de energia, os carros pararia de funcionar imediatamente, o clima sairia do padrão, a incidência de raios solares seria maior e outras coisas as quais você talvez não queira saber.
— E isso já aconteceu alguma vez?
— Era exatamente onde eu queria chegar. Á vinte anos atrás, o Dr. Robert fez um avanço muito importante em suas pesquisas. Encontrou uma rocha de aproximadamente setecentos e oitenta mil anos atrás, a qual fica guardada como uma relíquia na sala dele.
— Esse cara é maluco mesmo. Quem guardaria uma pedra como um tesouro?
— Essa pedra – Disse Laura com entusiasmo. – Também foi criada através de um processo de resfriamento de lava, más com os imãs microscópicos ao contrário. Ao invés de apontarem para o Norte, estavam voltadas para o Sul.
— Isso quer dizer que o campo estava diferente do de hoje, correto?
— Sim. E essas rochas que você esta vendo espalhadas por todos os cantos, são mais antigas do que a do Dr. Robert. E com elas descobrimos mais e mais reversões, em média, uma a cada duzentos mil anos.
— Isso pode acontecer de novo? – Mike não parecia nada satisfeito com a ideia de as coisas que sua mãe havia lhe dito pudessem acontecer.
— Com toda certeza. É provável que isso aconteça cedo ou tarde. E agora você deve estar se perguntando quando isso acontecerá. Essa resposta fui eu quem descobriu, a menos de um ano, através de cálculos que você nem gostaria de ver. Tive que usar um computador que permaneceu ligado durante três anos, ate que um dia, após um dia de trabalho andei ate a minha sala que não era nem um pouco agradável se comparada a que eu estou hoje. – Laura riu imaginando a bagunça de fios que depois de um tempo, desistiu de tentar organizar. – Sentei-me a frente do computador e me deparei com um resultado muito surpreendente. Liguei no mesmo momento para o Dr. Robert para dizer o resultado dos meus tantos anos de estudo. –Laura ficou olhando um tempo para a rocha, lembrando-se da sensação que sentiu naquele dia.
— O que dizia o resultado, mãe? – O garoto a retirou de suas lembranças.
— Que estamos atrasados para a reversão. – Concluiu fitando o jovem. – Más não se preocupe. Se uma inversão estivesse prestes a acontecer saberíamos. E como hoje ainda estamos aqui, pode se concluir que nem todas as inversões foram o palco de tragédias.

Laura e Mike andaram em direção à outra sala. Ao entrarem, a primeira coisa que o garoto reparou foi em uma rocha guardada dentro de um cubo de vidro. A rocha era tão alta quanto ele e com o formato de pirâmide. Concluiu então ser a sala do Dr. Robert.
-Vejo que ele já sabe o paradeiro da rocha. – Disse Dr. Robert olhando para o garoto que observava a rocha.
— Não pode esquecer-se dos mínimos detalhes. Não é mesmo Mike? – Laura riu dando umas palmadas no ombro do garoto que não deu muita atenção. Estava lendo o que estava escrito na placa logo abaixo da rocha.

Tipo de rocha: Lava resfriada. Local: Havaí.
Responsável por pesquisas: Robert. Com ajuda de: Evelyn.

- Você já o atualizou dos nossos últimos resultados? – Dr. Robert perguntou já tomando iniciativa para dizer, após perceber a dúvida totalmente estampada no rosto de Mike. - Nas últimas duas semanas nossas mais avançadas máquinas registraram níveis de magnetismos baixos, se comparados aos níveis considerados normais. Esperei por isso durante toda minha carreira, más concluímos que foi apenas o resultado da influência de uma erupção solar. A mesma que deixou nossos celulares sem sinal na sexta-feira passada. – Levantou-se e andou em direção ao garoto. – O mais estranho é que estes mesmos níveis ainda não se restabeleceram, o que não é normal após as incidências da erupção já terem cessado.

- Isso é completamente normal, Doutor – Disse Laura sem muita atenção.
— Não tão normal como os níveis que foram registrados nessa manha. – Dr. Robert parecia ter chegado finalmente onde queria.
— Como assim? Quais foram estes níveis? – Laura parecia um pouco inquieta quanto à observação que ele havia feito.
— Veja você mesmo. – A entregou uma planilha a qual Laura estudou com muita atenção.
— Isso não é possível. Já era para o nível de magnetismo ter se restabelecido no mínimo trinta por cento e não decido mais quinze.
— Exatamente. E temo que se os níveis continuarem a cair, teremos de emitir um alerta.

No mesmo momento, ouviram um chamado que se espalhou por toda a sala:

Dr. Robert. Venha aos computadores o mais rápido possível.

Robert saiu às pressas da sala e foi seguido por Laura e Mike. Andaram ate o centro, onde computadores estavam postos lado a lado, formando um círculo. Uma moça andou em direção a Robert e lhe apontou um dos computadores.

Laura aproximou-se e olhou diretamente para o monitor. No mesmo momento os dois ficaram com rostos de espanto.

- Isso não é possível. – Disse Dr. Robert.
— Temos de tomar providências imediatamente. – Laura já ia se dirigindo a sua sala quando Mike a parou e perguntou o que estava acontecendo.
— Os níveis continuam a cair Mike, isso esta se tornando perigoso. Precisamos avisar as forças internacionais. Muito provável que não sejamos os únicos que perceberam.

Continuaram a correr e chegaram à sala. Mike sentou-se na poltrona ao lado da estante de livros e observou a mãe fazer diversas ligações. Já estava quase dormindo quando Laura o chamou.

- Vamos, levarei você para casa de sua avó.
- Mas você me disse que ela mora não mais que trinta minutos daqui. Eu poderia ir sozinho até lá.
- Eu sei, mais prefiro ter certeza que você esteja seguro. Terei que trabalhar até tarde, e não preciso de mais problemas.

Laura pegou a chave do seu carro que estava pendurada atrás da porta e após Mike passar, trancou a sala e andou as pressas com o garoto para o estacionamento. Deixou o garoto com a avó e voltou para a CGE que se encontrava em um caos total.

Notas finais
gostaram ? Espero que não tenha ficado confuso..
Conseguiram ligar esse segundo capítulo com o primeiro ? ^^
Comentem, prometo responder todos.