A Inocência do Mau
7 Meu aniversário
Notas iniciais
Meu aniversário
Nossa! Como o tempo passara rápido naqueles dias. Aquele era um dia muito especial, meu aniversário. Estava muito feliz apesar de não estar junto das minhas amigas no Japão, mas estava com mamãe e com Laura. Senti muitas saudades do papai, mas isso não passaria jamais, nunca existiu nenhum dia sequer em que eu não sinta a falta dele até hoje.
“Bem, mas chega de preguiça! Hora de levantar e tirar o pijama. Nossa! Como está difícil esconder o Simon nesta situação! Porque será que ele não voltou ao normal. Já fazem três dias e nada... será que ele vai ficar assim pra sempre?”
Ainda estava com muito sono, como tivesse dormido bem tarde na noite anterior, mas depois de tudo que aconteceu, só quis ficar sozinha e não pensar em mais nada. Mamãe estranhou o fato de só querer ficar trancada no quarto lendo aquela bíblia que ficava na sala, mas quando ela vinha até mim e me perguntava, abria aquele sorriso que até hoje encanta a todo mundo e dizia em voz inocente que estava tudo bem, que só queria mesmo ler a bíblia. Ela sorria emocionada também e se convencia, descia de novo e voltava com um copo de leite e um sanduíche pra mim. Mas era meu aniversário e por isso, enquanto descia as escadas, via uma grande movimentação na cozinha. O mais provável é que fossem as empregadas preparando algo para minha festinha. Aqui em Portugal quase não tenho amigos, e pra falar a verdade meus amigos daqui não seriam bem aceitos pela minha família, afinal, agora eu sabia... eles eram... FANTASMAS!
Enquanto minha mãe dava asordens para a festinha mais tarde, a Laura foi as compras e o Simon, hum!! Coitado foi o único que não voltou a normal, esse ficava escondidinho dentro do meu guarda roupa.
“Vou assitir um filminho porque ainda é muito cedo e não quero pensar bobagens!”
Enquanto os meus olhos percorriam os DVDs da mamãe, meus ouvidos estavam atentos a tudo que ocorria no restante da casa, afinal não podia deixar que fosse mexesse em meu guarda roupas e encontrasse o Simon daquele jeito.
“Pronto. Escolhi. Vou assistir esse.”
Era um filme americano que contava a história de uma jovem e bela mulher que sofreu um atentado e quase foi assassinada. Então resolve se vingar de seus agressores, matando todos a fio de espada. Ela era incrível em artes marciais e naquele tempo, mais do que em qualquer outro, artes marciais me interessavam sobremaneira.
“Nossa! Como ela maneja bem essa espada! E que rapidez! Ai, cuidado! Olha o outro ai, atrás de você!”.
Mamãe me observava da cozinha conversando com a televisão, mas sorria em vez de estranhar, porque já se acostumara comigo,era meu habito fazer isso, até hoje o é.
Terminei de ver o filme e fiz um lanche, não estava com apetite para almoçar. Tomei um banho e fiquei em frente a casa vendo algumas garotinhas brincando na rua. Não me eram de todo estranhas, sempre as via por ali. Algumas moravam no mesmo prédio, outras em casas visinhas. Então decidi convidá-las para minha festinha.
Aquele foi um dia muito especial para mim, um dos meus mais inesquecíveis aniversários. Desde quando cheguei em Portimão, não tivera um dia tão normal quanto aquele, era como se outra Sayaka estivesse em meu lugar. Sentia-me feliz, tranqüila, apesar de pressentir que era tudo momentâneo porque mais cedo ou mais tarde voltaria a ver os vultos, os fantasmas, o Sr tamamura e filha.
Entrei para casa, não havia percebido o quão rapidamente o tempo tinha passado. Já escurecera e mamãe tinha convidado algumas pessoas para comemorar comigo, e eu contei a ela que chamei as meninas da rua, ela não se importou, ficou feliz ao supor que eu fizera novas amiguinhas. Era hora de me aprontar para minha festinha. Peguei um vestidinho rosa que minha mãe desenhou especialmente para mim, soltei meus longos cabelos negros e deixei minha franja bem nos olhos, calcei minha sandália branca e coloquei o cordão que meu pai tinha me dado com a letra K a inicial de seu nome Kasuya.
“Estou pronta! Agora é só...”
-SAYAKA!!
Era a mamãe me chamando, todos já estavam lá embaixo: Joana e Julia, as gêmeas americanas que moravam do lado, Willian e Fred os irlandeses, Claudia e Zinha, duas brasileiras hospedadas no mesmo prédio, com as que eu já conversava bastante.
Não tinha muitos amigos aqui, mas mesmo assim acabei ganhando muintos presentes. Entre os convidados de mamãe e as garotas que eu mesma tinha convidado, quase todos havia trago presentes. Não que eu me incomodasse com isso. Confesso que gostei muito, mas modéstia a parte, minha mãe me dá de tudo.
-Crianças, chegou a hora de cantar os parabéns!”
Dizia mamãe empolgada, apesar de perceber em meus olhos que, apesar de estar muito contente, havia algo faltando, que me impedia de estar plenamente estar tão feliz, porque sentia falta do papai.
Na hora em que se apagaram as luzes da sala, pude ver nitidamente: Todos eles estavam lá, Sr tamamura, Halice e ele:
-Papai!!!!!
Não conseguia tirar os olhos dele. Estava lindo, com um terno e uma calça branca, sua cor favorita, e um lindo sorriso no rosto, bem ao lado de mamãe. E mamãe chorava como se sentisse a presença dele ao seu lado.
Neste momento aquele fenômeno sobrenatural ocorreu novamente o tempo parou, e já sabia que era algo de Halice, então papai se aproximou e disse:
-Meu anjo, não chora. Olha bem para mim, veja! Estou bem, não acha?
Acenei com a cabeça concordando e ele continuo dizendo:
-Veja, minha filha: O Sr tamamura e Halice serão seus mentores espirituais, portanto é necessário que você siga muito atenciosamente as instruções deles, certo?
Mas uma vez concordei com a cabeça e chamei a Halice, e ela, pela primeira vez, sorriu para mim e se aproximou. E nessa hora, percebi que se não perguntasse, depois seria tarde demais. Perguntei a ela sem rodeios:
-Porque Simon é o único que não descongelou, ele está intacto desde ontem. Não sei mais o que fazer!.
-Sam, Simon é o guardião que te protege. Na verdade, ele era meu grande amor. Quando tudo aconteceu, tudo aquilo que você viu outro dia, ele precisou optar entre me entregar aos inimigos ou ser condenado a prisão perpétua.
-E ele escolheu a prisão. Nãoé isso, Halice?
-Sim, da mesma forma que seu pai, Sam. Quando teve que escolher que entre sua vida ou a dele, optou em te proteger e morrer no seu lugar.
-Como assim?
-Seu pai é da descendência imperial do Japão e sua mãe é da minha descedencia. Portanto, somos parentes. Seu pai tinha a missão de se casar com alguém da minha linhagem e ter uma filha, e oferecê-la a sacrifício para que a vingança do Imperador fosse realizada. Mas como todos aqueles que carregam o sangue do imperador falharam em se casar com alguém da nossa descendência, mesmo porque não sabiam que traziam em si esse carma, só restou seu pai, e ele sabia disso desde o começo. Ele era o único a saber, e sabia que precisava por um ponto final em toda essa loucura. Então se apaixonou perdidamente por sua mãe e isso o condenou a morte. Porque se havia algo que ele sabia desde o início era que a qualquer momento alguém iria vir reivindicar a vida de sua filhinha, e isso ele jamais permitiria.
-Papai!
Não podia crer em tudo que escutava. E Halice, vendo minha confusão, disse carinhosamente:
-Querida, tudo precisa voltar ao normal, o tempo precisa voltar a correr agora. E não se preocupe com Simon. Quando sua festinha acabar e você voltar ao seu quarto apenas abra a porta do guarda-roupas. Ele estará bem! E com saudades de você.
O tempo voltou ao normal e com ele, voltou a responsabilidade de desvendar e vingar a morte do papai.
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