A Inocência do Mau
8 A notícia
Notas iniciais
A Notícia
“Aii... Que soninho gostoso!!!”.
Foram as minhas primeiras palavras ao despertar alegremente no dia posterior à sua inesquecível festa de aniversário. Nunca iria se esquecer de meus convidados inusitados e incomuns, muito menos dos... presentes... digamos assim... que eles me deram aquela noite, entre eles, meu cãozinho de volta. Sim, porque não sei se vocês vão se lembrar, mas estava petrificado. Fui dormir aquela noite feliz em saber que Simon estaria enfim dormindo no lugar dele, na área de serviços e que eu não iria precisar inventar desculpas para convencer mamãe a deixá-lo no meu quarto.
“Ai, meu Deus... o Simon já esta arranhando a porta!!! Espera ai, Simon. Estou indo.”
Preguiçosamente me arrastei até a porta e virei de má vontade a maçaneta.
“Entre logo. Ah, não!!! Simon, desce já da minha cama! Você esta com as patas sujas!”
Enquanto ele me observava e se enroscava em meu cobertor, pude perceber como o dia estava nublado e triste. Parecia que ia chover. Foi então que tirei meu pijama e coloquei minha roupa de inverno.
-Vem, Simon, vamos tomar café.
-Au au.
-Eu também, Simon. Também estou morrendo de fome, mas não precisa dessa sangria desatada não né... afinal a comida não vai fugir!
-Au, au.
-Então vem logo, desce da minha cama e vamos para a cozinha.
Enquanto descia as escadas, pude ver pela fresta da porta minha mãe inquieta andando de um lado para o outro falando ao celular. “Será que esta fechando algum negócio?” Não conseguia parar de observar mamãe. Entrei na cozinha e peguei algumas bolachas no vidro da mesa e pude ouvir Laura dando ordens às empregadas que mantivessem a casa sempre arrumada por que poderíamos voltar a qualquer momento.
-Laura?
-Sim, querida. O que foi?
-Para onde iremos? Eu ouvi você falar com a Naná que poderíamos voltar a qualquer momento. Se podemos voltar é porque vamos a algum lugar. Diz logo, vai!!! Pra onde vamos???
Neste momento, Laura não fez uma cra muito boa. Acho que ela pressentia o tanto que eu tinha... como dizer... me apegado áquele lugar. Ajoelha e diz: “Vamos retornar á Tóquio”.
-Mas por quê?
-Sam, você sabe que sua mãe é uma mulher de negócios, portanto ela precisa estar perto das lojas de lá também, e não se esqueça que no princípio do próximo mês você volta às aulas.
“Nossa! Como pude me esquecer? As aulas, ainda tinha dever escolar para terminar.”
-E que dia vamos partir, Laura?
-Amanhã, bem cedo partimos, portanto vá juntando suas coisas e as de Simon também. Mais tarde vou ao mercador, comprar alguns presentinhos e lembrancinhas para meus amigos e parentes, e se quiser vir comigo?
-Ah! Que legal!Vou sim, claro! E é bom que compro um presentinho para a Misuko.
Levei Simon para fazer suas necessidades, já estava quase na hora do almoço e mamãe ainda estava ao telefone. Como eu esperava que acontecesse mais cedo ou mais tarde, mamãe subiu até meu quarto, e eu sabia muito bem o que faria lá.
Como eu pensara! Lá estava mamãe, deitada, na minha cama. Segurava uma foto minha com o papai, que tiramos no parque de Nagoya, mesmo lugar onde ele foi enterrado. Ela olhava fixamente aquela foto. Seu olhar transmitia saudades e dor, era mesmo uma pena não poder contar que o papai esteve na minha festa e que estava sempre do nosso lado.
-Sam!
-Sim mamãe.
-Já levou Simon lá em baixo para fazer suas necessidades?
-Sim, e agora vou arrumar minhas coisas e as dele para a viagem.
-Então você já esta sabendo. Melhor assim. Quando terminar com suas coisas, vá ao quarto de Laura e veja se ela precisa de ajuda para terminar de embalar as coisas.
-Está bem.
Terminei minhas coisas bem rapidinho, na verdade já tinha começado a arrumar antes de descer com o Simon, mas mamãe estava tão entretida com a foto que não notou a mala já fechada no canto do quarto, e uma outra aberta sobre a escrivaninha. Desci então até o quarto de Laura. Quando cheguei encontrei a porta entreaberta e me preparei para bater antes de entrar, mas parei antes, porque pude ouvir Laura falar ao telefone.
“Sim senhor, a menina já encontrou os Tamamura. / Não, tenho certeza que ela não ficou um só momento sozinha com eles, e amanhã partiremos de volta. Assim fica mais fácil para nós...”.
De surpresa, estremeci, acabei por me encostar sem querer na porta, que se moveu alguns centímetros causando um sutil ranger. Laura percebeu.
-Quem está ai?
-Sou eu, Laura. A Sam> posso entrar?
-Sam? Claro, querida. Entre!
-Incomodo?
-De maneira alguma! Estava falando com o meu namorado que partiremos amanhã.
“Laura estava perturbada com a minha presença. Seu olhar me consumia a alma. Era como se quisesse saber se eu tinha escutado a conversa”.
-Veja Sam. Este Leque. Não se parece em nada com aquele que compramos na festa, lembra? Sei que você adora leques, não é mesmo?
-Sim, adoro. Eles são lindos e me transmitem paz.
-Claro, meu bem. Este leque foi-me dado por uma pessoa muito especial e...
-Quem?
-Bem, não importa! O importante é ele seja seu. Que você fique com ele e, sempre que estiver triste, olhe para os olhos do dragão em sua estampa. Assim você não se sentirá sozinha nunca.
-Está bem, eu adorei. Arigatô!
Naquele momento, como se nada tivesse acontecido, saímos do quarto e fomos embalar as caixas. Eu fingia não ter ouvido a conversa de Laura ao telefone, mas guardei cada palavra na lembrança, para depois pensar e tentar entender algo do que eu havia testemunhado.
E enquanto trabalhávamos, pude observar atentamente aquele leque. Ele era diferente do meu. Este era todo preto, um pouco maior do que o meu, e tinha apenas uma figura na estampa: Um imenso dragão vermelho. Mas notei algo que realmente ligava o meu leque a este novo que Laura me dera: Sempre que eu movia meu leque cor-de-rosa com a gravura de uma katana, podia jurar que a figura se movia, e nesse novo leque, sempre que eu fitava a gravura do dragão, sentia que os olhos do dragão piscavam para mim. Muito. Como se estivessem me vendo de verdade.
-Terminamos.
Laura embalou a última caixa e foi se aprontar para irmos ao mercado, mas lembrei-me que devia dar banho no Simon e não fui.
Sentia que precisava ver Halice e o Sr.Tamamura novamente antes de partir e precisava contar tudo o que havia escutado de Laura.
Depois do banho de Simon, disse à mamãe que iria passear com ele na calçada para que seus pelos secassem e assim o fiz. Coloquei Simon na coleirinha e desci para o saguão de entrada do prédio.
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