A Inocência do Mau

6 Manifestações no Presente


Notas iniciais
As manifestações nos nossos dias.. podem ser surpreendentes!!!.

Capítulo seis: Manifestações no Presente

“Duas horas desacordada! Fiquei todo esse tempo sem saber o que estava acontecendo? Como me sinto tonta”.

Foi essa a primeira sensação que tive quando minha consciência voltou à tona. Eu podia jurar que estivera por duas horas, ou até mais, completamente fora de mim, desmaiada sobre minha cama. E foram as primeiras coisas que pensei assim que me reanimei. Sentia muito frio percorrendo todo o meu corpo. Minhas pernas estavam trêmulas, meu corpo todo estava.

E eu trouxera intactas na memória todas aquelas cenas que testemunhei, como se as tivesse presenciado há alguns minutos. Pude ver o que realmente aconteceu com Halice e porque ela matou o filho do Imperador.

“Meu Deus! Então aquele mercador de flores era o filho do Grande Imperador?! Ele só seduziu Halice por causa de um plano doentio de vingança contra o próprio pai?! Isso deve ter revoltado muito o Sr Tamamura! Aliás...Mas será que o sr Tamamura sabe que mercador era filho do imperador?”

“Agora já são... O que?! São 18:00 horas? Ainda? Não pode ser... Há algo de errado! Simon... Simon? Aí está você cãozinho! Hei! Simon! Meu Deus! Ele está congelado, como uma estátua! O que está acontecendo? Porque ele não se mexe?”.

Eu estava muito fraca. Achei na hora que foi por causa do desmaio.

Eu me sentia tonta. Lembro-me que fechava os olhos e tentava me sentir melhor, sentir meu corpo mais firme, mas a tremedeira não queria me abandonar, principalmente depois do susto que levei com Simon. Eu sabia que precisava me levantar, precisava ir até lá em baixo, na sala, na cozinha, e dizer a mamãe que eu desmaiei, que não estava me sentindo bem. Ela saberia o que fazer.

“Vamos, Sam. Devagar. Passo apasso você consegue chegar até a porta.”

Eu tentava incentivar a mim mesma em minha mente, e isso acabou por me ajudar realmente. Enquanto caminhava até a porta o temor tomou conta de mim, porque graças às experiências que eu estava vivendo tão alucinadamente, descobri, pude ter certeza, que nada daquilo era fruto de nenhuma imaginação. Só não sabia mesmo o que era, do que se tratava. Seriam fantasmas? Ou seriam bandidos disfarçados, como mamãe sempre dizia que existiam?

Abri a porta e segui em direção às escadas. A cada passo que eu dava ia sentindo cada vez mais uma emoção nova, estranha, que eu não conhecia. “Ah! O que é isso? Que sensação estranha é essa?” Já não tinha medo de fantasmas, e não sentia mais medo de nada do que acontecera até então. E sabia que somente o sr Tamamura e eu sabíamos sobre esses acontecimentos. Mais ele, claro. Sabia mais do que eu.

Estava chegando na cozinha e quando olhei pra minha mãe e para Laura, percebi que elas estavam conversando, mas... Estranho... Elas não se moviam... nada se movia.... Minha mãe segurava um copo de água levando-o à boca, e nem mesmo a água se movia. Olhei para o relógio da cozinha.... “Que loucura é essa? Não pode ser 18:00hs! Quando eu estava no meu quarto era essa a hora que o relógio marcava. Agora tem que ter passado ao menos dez minutos!” Era o que eu pensava enquanto tentava organizar meus pensamentos bagunçados pela circunstância. Percebi então que o tempo parou. Minha mãe e Laura estavam congeladas, assim como o Simon, por todo o tempo que eu jurava que havia passado, mesmo que o relógio continuasse a marcar as mesmas dezoito horas de quando eu despertei. E lá fora os carros também congelaram nem ao menos estavam ventando.

“Peraí... Vejamos bem, hummm! As arvores do cemitério estão se movendo, mas como elas se movem se não há vento? Essa é a oportunidade que estavaprecisando pra contar para o Sr Tamamura sobre o filho do imperador, vejamos vou pegar meu casaco amarelo, e minha botinha, hum também o relógio, para eu saber, caso se o tempo volte a correr normalmente, ele certamente irá funcionar. Vou levar em minha bolsinha essas bolachas para o Sr tamamura. Aiiii! Ele disse que não era para eu ir sem o Simon, mas não vou arrastá-lo até lá.”

Fechei a porta do prédio e atravessei a rua em direção ao cemitério. Alguns passos depois que saí pela portaria, um vento, uma brisa, a única coisa que vi, ou senti em movimento desde que despertei, arrastou uma folha de jornal velho até que ela se enroscou no meu pé. Estranhei e me assustei. Olhei o relógio de sobressalto. Talvez o tempo tivesse voltado a correr e eu estava fora de casa. Com certeza mamãe não iria gostar de entrar no meu quarto e não me encontrar lá, nem em parte alguma da casa. Mas constatei que o relógio continuava com seus ponteiros imóveis, com o ponteiro menor sobre o número seis e o maior sobre o número dose.

“Nossa! Que jornal chato que fica embolando no meu pé! Sai ...nossa... mas que notícia é essa? ‘Mulher japonesa de 109 anos, famosa por sua excepcional longevidade, foi assassinada e esquartejada enquanto dormia, somente foi encontrado a faca que a matou. Porém não há nenhuma pista do assassino, nem mesmo impressões digitais do assassino, nem na arma, nem em nenhum outro local do quarto ou da casa da vítima’.”

Li duas vezes, bem devagarzinho, somente as letras maiores do anúncio, porque era o que conseguia ler na idade que tinha, principalmente em um idioma que não era meu principal. Aliás, até hoje me questiono como foi que consegui ler aquilo!

“Nossa! Olha essa casa! Não me é estranha. Já a vi em algum lugar. Parece-me bem conhecida... Já sei! É aquela casa velha que ficava entre as duas ruas! Aquela que vi no dia da festa! Mas quem poderia fazer mau á uma mulher idosa porque aqui fala que ela já tinha 109 anos, NOSSA!!!! Ela era muito velha!”

Enfim cheguei ao meu destino. Adentrei os portões do cemitério e constatei que não estava muito escuro, afinal era fim de tarde, 18:00 horas, porque o tempo tinha parado.

“Sr Tamamura o senhor está ai?”

Chamei, não muito alto, algo me fazia saber que ele me ouviria até se o chamasse apenas com o pensamento.

-Olá Sayaka! Estava te esperando.

Não era o Sr Tamamura. Era uma voz de mulher. Não era de minha mãe nem de Laura, e eu não conhecia nenhuma outra pessoa além delas duas e do Sr tamamura naquela cidade. Mas eu reconhecia o timbre que me falava, como se ele fosse mais comum aos meus ouvidos do que minha própria voz.

-Quem é você? Não consigo ver você direito!

Só podia ser ela. A mulher que vi pulando o muro do cemitério. Mas esse kimono rosa é parecido com...

-Sim! É isso mesmo que você está pensando, mocinha. Sou a Halice Tamamura, filha do Sr Tamamura.

Ela disse, como se meus pensamentos daquele momento estivessem ecoando em um megafone.

-Ahhhh!!! Ca-cadê seu pai?

Meu Deus era ela, como ela poderia está viva se eu vi sua Lápide e seu pai disse que ela estava morta?

-Meu pai morreu a mais ou menos 80 anos, querida. Você tem falado com o espírito dele.

-Espera um pouco. Você está me falando que o Sr. Tamamura é um... que você é um... Que eu tenho conversado com um... FANTASMA! Ai!!! Tenho conversado com um fantasma esse tempo todo.

-Querida, é bem mais complexo do que você imagina. Veja bem, se aproxime, quero mostrar algo a você.

Aproximei-me e ela, então, me mostrou uma mancha em suas costas em forma de uma rosa. “Incrível” exclamei dirigindo meu olhar para ela, porque afinal, era bem curioso: Eu tinha uma marca de nascença idêntica em minha perna. Então, ainda um tanto desconfiada, mostrei a minha marca à garota diante de mim.

-Querida, você agora só precisa saber que eu sou você no passado, da mesma forma que nasci em você nesta vida. Assim, já que somos a mesma alma em tempos diferentes, meus erros do passado são seus também, e você precisa consertar esses erros do passado.

-Mas que erros? Eu não fiz nada! e nem sabia que você era eu, aiiii... To tão confusa!

-Calma, menina! Agora você tem que se proteger por que... Vai. Depois conversamos mais. Volte para casa. Ficar aqui agora pode ser perigoso, e não se esqueça, não saia sem seu cachorrinho.

Comecei a correr para fora do cemitério, mas ainda tinha inúmeras perguntas a fazer àquela jovem, como por exemplo: Como ela morreu? Eu veria seu pai novamente?

Notei que o céu estava começando a ficar mais escuro. Estava anoitecendo. Olhei enfim o relógio de parede que eu peguei da sala e vi que ele voltara a funcionar, e então medo voltou a invadir minha alma. Abri a portão do prédio e não queria pensar em mais nada. Somente em abraçar minha mãe e dizer “Mamãe, me proteja”.

Entrei no meu apartamento e vi que mamãe continuava na cozinha, agora, preparando algo para comermos. Que bom que estava tudo normal agora. Senti-me extremamente aliviada e subi rapidamente, mas sem fazer nenhum ruído — onde será que aprendi a andar sem fazer barulho? – para reencontrar também meu cãozinho. Mas ao abrir a porta do meu quarto, vi que ele continuava sobre a minha cama, na mesma posição. Aproximei-me e toquei seu pelo macio. Ele não se mexeu. Meu coração deu um salto. Tudo tinha acabado de voltar ao normal, mas Simon não. Ele permanecia imóvel, petrificado:

“Mas tudo voltou ao normal, mamãe e Laura estão normais, tudo normal. Já até escureceu! Porque o Simon não se mexe?”

Notas finais
Galera demorei postar o 6º, pretendo não demorar mais, sendo uma fic original caso queira citar algum personagem, favor me avisar... ah! deixem review..abç