A Incineradora

6 Vivendo o pesadelo


Ela acordou de madrugada, agitada.Sonhara que seu amante a consumia, que ele a desejava do seu lado...Levantou-se e olhou com desprezo para — agora — seu marido.

Ele estava enrolado nos lençóis sujos da cama.Foi então que ela se lembrou do que eles fizeram na noite anterior.Agora ela já não era mais pura, agora não pertencia mais ao seu amante.

Agora ele a tomou para si, agora ela jamais poderia ser unicamente de seu amante.Jamais poderia se juntar a ele de novo, jamais poderia contempla-lo...Porque agora ela não era somente dele...

Correu para o banheiro, encheu a banheira com água fervente e não pareceu ligar para a temperatura altíssima da água.Pegou uma esponja e começou a esfregar seu corpo com força.Tentava se limpar, se livrar do sangue...

A raiva era imensa naquele momento, ela se sentia suja...Imunda, como se toda a repugnância de seu marido passasse para ela.Quando viu que não havia mais o que fazer, ela caiu em prantos.

Suas lágrimas pesadas de raiva se misturavam com a água avermelhada.

Ficou ali até que todo o vapor se esvaísse.

Saiu da banheira e vestiu seu belo vestido de noiva.Olhou-se no espelho e desaprovou o que viu, tentou sorrir.Seu sorriso só demonstrava rancor.

Decidiu ofertar aquilo ao seu marido.Tira por tira ela queimou a longa cauda...

Seu marido acordou com o cheiro exalado do amante de sua esposa.Se levantou apressado e pareceu esquecer o fato de que estava nu...

-Mas o que é isso?!

Ela se virou, assim ele pode ver sua face molhada pelas lágrimas.Ele recuou, desistiu de repreende-la e resolveu ir se vestir.

-Espere aqui que eu vou acertar as contas...Pare com isso!Não sei como o sensor de incêndio não disparou...Hotelzinho vagabundo.

-E-esse hotel é de cinco estrelas.Ou o seus desejos são tantos, que nem mesmo se contenta com o que há de mais caro?

Havia ódio em cada palavra que ela dirigia a ele.Ele ignorou e finalmente a deixou sozinha.

Olhou-se no espelho e viu o estado decadente em que estava: seus olhos estavam vermelhos e sua boca ressecada.Ela não podia deixar que ele a visse daquele jeito, não podia deixar-se parecer vulnerável.

Se despediu de seu amante e colocou uma roupa decente.Arrumou seu cabelo e logo já estava imponente de novo.

-Já está pronta?

-Sim...Para onde vamos?

-Para nossa casa!

Disse ele em tom de animação, irritando novamente nossa incineradora.Quando iam em direção ao carro seu marido se voltou para o saguão e mostrou o dedo médio para o gerente que ficou horrorizado com tal ação.

-Hotelzinho vagabundo!

-Será que você poderia parar de agir feito uma criancinha boba?

-Claro “mamãe”!

Neste momento ele começou a rir pateticamente da cara dela

-Vai se ferrar, seu trouxa!Eu vou embora.

Ela entrou no carro e colocou a chave na ignição, quando deu por si, já estava no banco do passageiro olhando para o rosto sorridente ao seu lado.

-Que nervosismo, querida!Deveria se divertir mais sabia?

-Talvez eu até me divertisse mais se não fosse casada com você...

Disse ela em tom de desdém.Com muita delicadeza ele dirigiu a palavra a ela.

-Talvez, se não fosse por mim, você ainda estaria naquele quarto, sendo diagnosticada como louca...Então encare a realidade: agora você é minha.

Ele soltou um riso sarcástico.Sua face era realmente irritante para nossa incineradora.

-Eu te odeio seu verme.

-Ora, não me chame assim...Você sabe que eu te amo e me magoa profundamente escutar isso vindo de você...

Ele passou a mão por seu rosto, ela se esquivou rejeitando a caricia.

-E porque eu deveria me importar com você?Eu posso te queimar vivo a qualquer hora sabia?

-Vejamos se realmente você seria capaz de deixar seu marido agonizar em meio às chamas...

“Não duvide de mim...Querido”