Entro em casa e vou direto para a cozinha; está tudo escuro, mas não me preocupo em acender a luz, ando até a pia e abro a porta do armário logo acima dela e pego um pacote plástico sem olhar o que é, vou até a geladeira e pego a jarra de chá gelado. Me sento no banquinho em frente ao balcão e abro o pacote ainda sem olhar o que é e então pego meu telefone.
Seguro o telefone com a mão direita enquanto entro em meu perfil no Facebook e com a esquerda pego o conteúdo do pacote que está sobre o balcão sem sentir o gosto. Enquanto desso o Feed de Notícias pego o chá gelado e bebo da jarra. Alguns minutos depois coloco a mão dentro do saco plástico e sinto que está vazio, o ilumino com a luz da tela do telefone e vejo que comi um pacote inteiro de batata palha. Ótimo. Jogo o plástico na lixeira e coloco a jarra vazia dentro da pia.
Subo devagar a escada e quando viro no corredor indo em direção ao meu quarto quase esbarro em meu pai.
—Onde você estava? — Ele pergunta fingindo preocupação.
—Na cozinha — digo como se isso fosse óbvio.
—Tanto faz — ele diz. — Preciso te pedir um favor, Thomás...
—Pode falar — digo de forma irônica.
—Amanhã nós receberemos visita; Frederico Lourenço virá para resolvermos alguns assuntos da construção de um novo shopping... Bem, ele chegará amanhã e virá acompanhado do sobrinho dele.
—E você quer que eu faça companhia para o garoto.
—Sim, eles ficarão alguns dias. O garoto tem a mesma idade que você, então não será nenhum sacrifício.
—Tudo bem — digo passando por ele. — Mas não prometo que não irei corrompê-lo. — Entro no meu quarto rindo porque sei que consegui irritá-lo.
Vou para o banheiro e tomo um banho demorado, logo depois deito e tento dormir.
*
Eu amo correr; amo sentir o corpo em movimento, o coração acelerado e o vento no rosto, amo me sentir livre...
Eu levantei à sete da manhã (não consegui dormir), calcei o tênis de corrida e vim para a pista de corrida na propriedade no fundo de casa.
Corro até a grama no meio da pista e paro onde deixei uma garrafinha com água, bebo metade dela e depois me deito e fico olhando para o céu — inevitavelmente pensando em minha mãe.
Alguns minutos depois pego meu telefone, agora são 8hrs16min, e tem quatro chamadas perdidas do meu pai. Me levanto e vou andando na direção da minha casa.
Entro em casa e vou andando pelo hall, passo em frente ao escritório do meu pai e vejo que ele está conversando com um homem de pele clara e cabelo castanho encaracolado; me apresso e vou em direção à escada antes que me vejam. Subo devagar e vou em direção à biblioteca, me assusto ao entrar e ver um garoto de cabelo castanho encaracolado (ele se parece com o homem que está no escritório com meu pai) Sentado em uma poltrona no canto da biblioteca lendo um livro.
—Olá — digo pois ele não notou que eu entrei.
—Ah, oi! — Ele marca o livro na página que estava lendo, se levanta e vem andando em minha direção. — Eu sou o João... João Lourenço — ele estende a mão para mim.
—Sou o Thomás — aperto sua mão rapidamente... — Espera um pouco, seu nome não pode ser João Lourenço.
—Posso te mostrar minha Carteira de Identidade.
Ignoro o que ele disse.
—Você já beijou uma garota chamada Laura Azevedo?
—Você por acaso é vidente ou coisa assim? — Ele parece assustado.
—Coisa assim. — Ando até uma estante no canto esquerdo da biblioteca onde minha mãe colocou meus livros sobre psicologia. Pego "Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre Psicologia".
—Não vai me contar como sabe disso? — João pergunta ainda em pé no mesmo lugar.
—Talvez um dia. — Passo andando por ele e paro na porta. — Meu trabalho nos próximos dias é fazer companhia à você... vou tomar banho e quando terminar nós vamos sair.
Vou até o quarto, deixo o livro encima da escrivaninha e tiro toda a roupa antes de ir para o banheiro.
Tomo um banho rápido, volto para o quarto e visto uma camisa preta e uma bermuda jeans. Antes de sair calço meus chinelos.
Encontro João sentado na escada lendo o mesmo livro de antes.
—Você pode deixar o livro na biblioteca — digo chamando sua atenção.
—Tudo bem — ele se levanta e vai até a biblioteca e volta rapidamente. — Onde nós vamos? — Ele pergunta enquanto descemos a escada.
—Primeiro vamos beber alguma coisa, depois nós vamos encontrar meus amigos.
Entramos na cozinha.
—Bom dia, Thomás — Marcelo, o nosso cozinheiro, diz atrás do balcão. — Bom dia, garoto. — Ele diz para João.
—Bom dia, Marcelo — digo. — Preciso de um chá de hortelã.
—Já está pronto — ele coloca uma xícara em minha frente. — E você, também vai querer chá?
—Não, prefiro o bom e velho café.
—Você sabia que o café é viciante? — Digo.
—Claro que eu sei; eu sou viciado em café.
Marcelo se segura para não rir.
Saímos de casa e vamos andando pela rua. Pego meu telefone no bolso e ligo para o primeiro contato da agenda.
—Sei que vocês não estão fazendo nada — digo assim que ela atende. — Me encontrem na praça do comércio.
—Tudo bem, já estamos indo. — diz e então desliga.
—Com quem você estava falando?
—Aline, minha melhor amiga.
—Super carinhoso você — ele diz de forma irônica.
—É uma de minhas qualidades. E você, como você age com seus amigos?
—Eu só tenho um amigo, e trato ele super bem. Mas ele é meio estressado então eu tenho que ser o calmo do nosso bromance.
—Como você consegue ter apenas um amigo? E quando vocês brigam? Quem faz vocês voltarem à conversar?
—Luma, minha namorada... Se bem que olhando por um lado ela também é minha amiga.
—Você namora e viaja durante as férias ao invés de ficar com sua namorada?
Ele respira fundo antes de responder.
—Eu não sou um garoto normal... Eu sou diferente; então é natural que eu não tenha um namoro normal. Se ficarmos juntos por muito tempo a gente pode acabar se sentindo "enjoado" um do outro.
—Garoto diferente? Gostei disso.
A gente continua andando em silêncio por alguns minutos até que ele decide falar.
—Como é sua relação com seu pai?
—Por quê a pergunta?
—Sei lá, só não quero ficar em silêncio.
Dou de ombros.
—A gente nunca se deu bem; ele queria que eu jogasse futebol, mas eu gostava de teatro; ele queria que eu fosse fazer intercâmbio na Itália, mas eu prefiro ficar no Brasil... A gente sempre discordou de tudo, mas as coisas pioraram há três anos atrás quando eu me assumi.
—Você é gay? — Ele pergunta de forma natural, o que me deixa surpreso, as pessoas nunca agem naturalmente ao fazerem esse tipo de pergunta.
—Não, esse é o fato: eu não tenho um rótulo, eu simplesmente gosto de pessoas.
—Ele não deveria pelo menos se sentir aliviado por você também se interessar por garotas?
—Acredito que sim. Mas assusta ele o fato de eu ver os garotos da mesma forma que vejo as garotas. De qualquer forma agora as coisas entre nós só tendem a piorar depois que ele fez uma coisa que não deveria.
Ele apenas balança a cabeça e não diz nada.
—Você não vai perguntar o que ele fez? — Pergunto achando estranho que ele não tenha tentado descobrir o que meu pai fez.
—Isso seria invadir sua privacidade, se você quisesse falar o que aconteceu simplesmente falaria. Só uma pessoa normal invadiria seu espaço dessa forma.
—Sabe, eu realmente estou gostando dessa coisa de ser um garoto diferente. — Digo sorrindo.
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