Eu tenho uma relação diferente com meus amigos da qual as pessoas geralmente têm com seus amigos. Aline e Marcos são meus assim como eu sou deles; é como se a gente fosse casado, mas sem os beijos cinematográficos e o sexo.

Eu e João chegamos à praça do comércio e assim que vejo a menina magra de cabelos castanhos claros ao lado do menino alto de cabelos pretos, começo á correr. Eles me vêem e correm em minha direção.

Assim que nos encontramos eu os agarro em um abraço.

—Onde você estava? — Aline pergunta com a cabeça encostada em meu peito.

—Meu pai me levou pra casa da minha tia em Montana — digo soltando-os dos meus braços. — A gente foi assim que eu saí da escola no sábado, ele disse que queria que eu passasse um tempo com ele, mas me deixou lá e veio embora. Eu não sabia que minha... Não sabia de nada.

—Seu pai disse que você queria ficar sozinho, que seria melhor se a gente não te ligasse — Marcos diz me encarando com seus olhos azuis; eu amo quando ele faz isso, seus olhos me acalmam.

—E eu não liguei porque vocês estavam com o avô de vocês. — Escuto os passos de João se aproximando. — Bem, o fato é que ontem decidi que ia transformar a vida do meu pai num inferno, mas vou ter que mudar ou atrasar meus planos agora que estou trabalhando de babá.

—Ei, eu não sou criança pra precisar de babá. — Ele diz parando ao meu lado.

—Quem é esse? — Marcos diz.

—Esse é João Lourenço, meu pai está resolvendo alguns assuntos com o tio dele e eu vou fazer companhia à ele nos próximos dias.

—Me chamem apenas de João, Lourenço é sobrenome e não parte de um nome composto.

Aline solta um risonho.

—Gostei dos cachinhos — ela diz sorrindo. — Eu sou Aline.

—Ele tem namorada, Aline — brinco, porque Aline também namora, e ela é totalmente fiel ao Ícaro.

—Bem, poucas pessoas são perfeitas.

Marcos revira os olhos — como sempre faz quando Aline diz alguma ironia — e eu acabo rindo.

—Eu sou Marcos — ele fala.

—Por favor, me mantenham ocupado, não estou com a mínima vontade de voltar pra casa. — Digo enquanto andamos em direção ao espaço gramado da praça.

Nos sentamos à sombra de uma árvore.

—A gente pode ir ao cinema, faz tempo que não fazemos sessão clichê. — Marcos diz.

—Por mim pode ser — digo. — Tudo bem pra você, João?

—Claro, nunca dispenso uma ida ao cinema. — Ele diz sorrindo.

Pego o telefone e procuro o número do escritório do Cine Lavorini; assim que encontro coloco o número pra chamar.

—Alô! — Diz uma voz masculina ao atender o telefone.

—Olá Roberto, é o Thomás. Eu e meus amigos gostaríamos de assistir um filme.

—Sessão Clichê, certo? — Ele diz, mas não espera pela minha resposta. — Estou esperando por vocês.

—Tudo bem, já estamos indo. — Digo e desligo. — Ele já está lá, vamos.

Nos levantamos e vamos andando em direção ao ponto de ônibus.

—Você ligou para pedir que abrissem o cinema? — João pergunta.

—O cinema é do pai dele — Aline fala. — A gente pode entrar quando quisermos, desde que estejamos com ele.

—Uma vez o Thomás até pediu o pai dele pra fechar o cinema em um sábado pra gente assistir à um lançamento, só nós três. — Marcos diz sorrindo. — Foi bem legal.

—A gente até assistiu o filme uma outra vez porque Aline dormiu durante metade dele. — Digo rindo ao me lembrar da cara dela ao acordar e perceber que o filme tinha acabado.

Aline me dá um tapa no braço.

—Não fica espalhando por aí que eu durmo fácil — ela diz sorrindo.

—E em qualquer lugar — Marcos completa.

Nós rimos.

Alguns minutos depois o ônibus para e nós subimos.

Aline e Marcos vão conversando com João sobre alguns filmes clichês que talvez possamos assistir, eles ficam surpresos ao perceberem que gostam de odiar o mesmo tipo de clichês. Eu não presto atenção na conversa, apenas fico olhando pela janela para as casas no lado de fora.

Descemos assim que chegamos á rua do cinema e vamos andando em direção ao prédio alto que ocupa, no mínimo, o espaço de quatro casas. No ano passado minha mãe decidiu fazer uma reforma e deixou o Cine Lavorini parecido com um tipico cinema americano, o que fez o cinema se tornar um dos meus lugares favoritos na cidade.

—Me diga que por dentro é tão legal quanto aqui fora. — João diz sorrindo.

—Espere até ver — digo com um "ar de mistério".

Chegamos a entrada e bato na porta de vidro, alguns segundos depois Roberto chega e abre para entrarmos.

—Mandei fazer uma pipoca pra vocês — ele diz enquanto vamos andando sobre o tapete vermelho na entrada. — Qual filme vocês vão querer ver?

Olho para Aline, Marcos e João. Eles é que escolheram o filme.

—O mais clichê de todos — Aline começa.

—Crepúsculo — Marcos completa.

—Tudo bem, podem ir para a sala 2 que vou mandar que levem a pipoca e o refrigerante.

Vamos andando em direção à sala 2.

—Essa decoração é incrível — João diz.

Pelas paredes pintadas de preto e vermelho estão pôsteres de clássicos do cinema e outros sucessos antigos e alguns um pouco mais novos, há também fotos de atores consagrados e de lugares onde filmes famosos foram filmados.

—Foi a mãe do Thomás quem fez a decoração — Marcos fala.

—Ela era a pessoa mais criativa que nós já conhecemos — Aline completa.

Abro a porta da sala em que vamos assistir o filme.

—Vamos entrar logo — digo e fico segurando o porta para que eles entrem.

Sentamos em poltronas no meio da sala — porque Aline diz que "esses são os lugares perfeitos". Um minuto depois um homem e uma mulher entram com bandejas com os sacos de pipoca e copos com refrigerante. Após nos entregar a pipoca e o refrigerante o homem e a mulher saem e as luzes são apagadas. O filme então começa.

Está quase no fim do filme, mas apenas João está prestando atenção. Aline e Marcos estão me contando sobre a visita do avô deles na semana passada.

—Ta bem, agora vamos prestar atenção no filme. — Marcos diz jogando pipoca em mim.

—Você vai ver — digo pegando um punhado de pipoca e jogando nele, mas algumas acabam caindo em Aline.

Aline se levanta, pega o copo com o refrigerante e depois de tirar a tampa com o canudo o joga em minha direção; doesvio rapidamente e o refrigerante acaba acertando o rosto de João.

—Guerra de pipoca — digo levantando e jogando pipoca no João.

De repente estamos os quatro jogando pipoca uns nos outros e rindo muito, muito alto.

—Acabou — Aline diz jogando o pacote branco encima da poltrona.

—O filme também — falo. — Vamos sair daqui, não to afim de assistir outro filme. — Vou andando em direção da saída da sala.

—Como se a gente tivesse assistido esse — Marcos diz rindo.

—Eu assisti — João diz.

Roberto está perto da saída.

—Não vão querer assistir outro filme? — Ele pergunta.

—Não, decidimos dar uma volta por aí... E nós meio que fizemos uma pequena bagunça lá dentro. — Digo. Ele olha para João que está com o rosto molhado.

—Imagino. — Ele fala.

Nós quatro saímos do cinema e vamos andando pela calçada.

— A gente podia ir lá para o Galaxy's. — Aline fala.

—Ótimo, estou mesmo com vontade de dançar.