Quarenta minutos depois – dessa vez eu tenho certeza que a “viagem” durou quarenta minutos porque eu cronometrei em meu telefone – o ônibus para quase de frente a um grande casarão e nós três descemos e andamos em direção aos portões de ferro. Paramos de frente a entrada e Thomás cumprimenta uma mulher loira que está sentada em uma cadeira do lado de dentro do portão.
—Oi Alicia, será que podemos entrar para brincar um pouco com as crianças? – Ele fala.
—Claro que podem! – Ela se levanta e abre o portão.
Quando entramos vou andando atrás dos dois e já dentro do prédio quase me perco deles ao parar para olhar as fotos das crianças expostas nas paredes.
—Cada criança que já passou por aqui tem uma foto em alguma parede do casarão – Thomás diz parando atrás de mim enquanto eu olho uma foto de um garotinho louro brincando com um urso de pelúcia. – Vou te mostrar uma coisa, venha comigo.
Seguimos em frente pelo corredor e quase no fim dele Thomás entra em uma sala à direita.
—Uau! – Digo assim que entro e olho para a parede no fundo da sala, ela está coberta por fotos de crianças com adultos.
—Essas são todas as crianças que passaram pela CARM e foram adotadas, junto com seus pais – Aline diz sorrindo ao parar no canto da sala e ficar olhando as fotos.
Aproximo-me da parede e involuntariamente sorrio ao ver as crianças nas fotos, muitas delas parecem tímidas ao estarem ali com seus novos pais, mas o brilho em seus olhos é perceptível até mesmo pelas fotos. Ando um pouco para perto de Aline e então encontro uma foto de Thomás e seu pai abraçados a uma garotinha de cabelo castanho de mais ou menos seis anos.
—É você e seu pai – aponto para a foto e olho para Thomás.
—Essa é a minha irmã, Larissa – ele fala se aproximando com um sorriso bobo no rosto. – Ela está com a gente desde agosto, e todo esse tempo tem sido maravilhoso.
—E a sua mãe? Ela não quis aparecer na foto? – Pergunto e no mesmo momento me lembro de ter ouvido meu pai dizer para minha mãe que a Sra. Lavorini morreu no meio do ano.
—A minha mãe morreu há alguns meses atrás – ele diz ainda olhando para a foto. – Mas ela adoraria estar na foto se estivesse viva.
—Nós viemos aqui brincar com as crianças ou não? – Aline diz, ela segura os braços de nós dois e então nos puxa para fora da sala.
Entramos na última sala do corredor que é tipo muito grande e está cheia de brinquedos espalhados por todo o lugar. Caminhamos até uma mulher no fundo da sala que está arrumando um teatro de fantoches e nós decidimos ajudá-la.
Assim que o teatro de fantoches termina, nós nos despedimos da inspetora e vamos andando em direção a saída do casarão.
—Já são onze horas – Thomás fala como o telefone na mão. – Eu prometi a Larissa que a levaria para brincar no parquinho do clube, tudo bem pra você se a gente for para lá, Alexandre?
—Ah sim, sem problema nenhum. – Respondo rapidamente.
—Aí a gente come algo na lanchonete do clube – Aline fala. – Eu estou morrendo de fome.
Do lado de fora pegamos um ônibus – que Thomás se certificou de perguntar o motorista se era o certo antes de entrarmos – e chegamos rapidamente ao nosso destino: a casa da avó de Thomás que é onde sua irmã está.
Quando paramos em frente ao grande portão para que Thomás o destranque com sua chave eu fico olhando para a grande casa de quatro andares que há dentro da grande – na verdade enorme – propriedade à nossa frente e novamente eu sinto aquela sensação estranha do tipo “eu nunca pensei que veria algo assim fora de um filme”.
—Acho que essa é a maior casa que eu já vi pessoalmente – digo quando o portão abre e nós vamos andando devagar para dentro.
—Minha avó é um pouco exagerada demais – Thomás fala como se estivesse com vergonha disso tudo.
—Quantas pessoas moram com ela aqui? – Pergunto e logo imagino que deve ter mais de vinte quartos nessa casa.
—Só ela e os empregados, e não fique com dó pensando que ela é solitária, minha avó é extremamente espaçosa.
Aline ri do que ele fala.
Assim que entramos na grande casa a menininha de cabelo castanho corre em nossa direção e pula no colo de Thomás.
—Thomy, você vai me levar pro parquinho? – Ela pergunta abraçada a ele.
—Vou sim, você já está pronta?
—Ela é igualzinha a você quando era criança – uma senhora mais velha usando um vestido florido longo diz se aproximando de nós e entrega uma mochila rosa para Thomás. – Não para um minuto sequer. – Então ela olha para mim. – Você é novo.
—Sou sim, eu acho – digo.
—Quem é ele? – A irmãzinha de Thomás pergunta para ele.
—Ele é o Alexandre – Thomás responde. – O pai dele é amigo do nosso pai, e agora ele é meu amigo também.
Então ela pula do colo do irmão e vem até mim.
—Se você quiser também pode ser meu amigo – ela fala sorrindo. – A gente pode brincar no parquinho do clube, o Thomy vai levar a gente.
—Eu adoraria brincar com você – digo e ela segura minha mão e a do irmão e nos puxa para fora da casa. – Tchau vovó!
—Tchau querida, até amanhã – a avó responde gritando.
Vamos andando em direção ao portão até que Thomás nos puxa para um caminho diferente do que viemos.
—O Jipe do meu pai está aqui, vamos nele. – Ele fala.
Andamos até uma pequena estrutura que de longe parece uma casa de tamanho médio, e assim que entramos me assusto com a quantidade de veículos guardados no espaço – seis carros de diferentes tamanhos e modelos, três motos daquelas no estilo de corrida, um barco a motor e dois Jet skis.
—Tem quantas pessoas na sua família? – Digo olhando de veículo a veículo.
—O suficiente – Thomás diz rindo. – Tirando o Jipe os carros são da minha avó, ela os utiliza dependendo do seu humor, uma das motos é do meu tio Jorge, a segunda é do afilhado da minha avó, e a terceira é de Larissa.
—A minha é a amarela – a garotinha fala toda sorridente. – Mas a vovó falou que eu só posso andar sozinha nela quando tiver a idade do Thomy.
—O barco é do meu pai – Thomás continua a falar – ele prefere guardar aqui porque é um espaço á parte da casa, diferente lá de casa; e os Jet Skis são meus e de meus primos, nós temos que dividir.
—Oh, que humilde da parte de vocês – digo e ele e Aline riem.
Entramos no jipe amarelo e Thomás sai dirigindo pela cidade, passamos por metade do caminho que viemos até que antes de chegarmos ao quarteirão da CARM ele vira à esquerda e poucos minutos depois para na entrada do CLUBE LAVORINI— sim, o clube é da família dele – e então ele só mostra o seu rosto para o guarda e ele nos deixa entrar, depois que Thomás estaciona o carro nós quatro descemos e vamos andando em direção ao parquinho que fica bem próximo do espaço da lanchonete.
—O Miguel ta aqui – Larissa fala e então solta a mão do irmão e corre em direção à um garotinho, que provavelmente tem a mesma idade que ela, que está no balanço do parquinho.
—Larissa, você vai querer comer algo agora? – Thomás grita e ela responde que ela e o amiguinho vão querer um misto quente cada um.
Nos sentamos em uma mesa próxima ao parquinho e do lugar em que estou consigo ver a rua do outro lado da grade que protege o clube.
—O que vocês vão querer? – Thomás pergunta.
—Um cachorro-quente número cinco – Aline fala.
—Qualquer coisa salgada serve – digo simplesmente, e então ele anda até o balcão da lanchonete e volta alguns minutos depois com refrigerantes.
De repente um carro de som passa pela rua, e eu acabo arrepiando quando entendo o que está saindo pelos alto-falantes.
—O Grande Circo dos Irmãos Pierre está na cidade para uma super apresentação de fim de ano— diz uma voz masculina grave. – Venham todos conferir nossas atrações no parque municipal de Rosa Maria.
—Eu tinha me esquecido que o circo está na cidade – Thomás fala depois de tomar um gole do seu guaraná.
—A gente podia ir lá de noite – Aline fala toda animada. – A última vez que fomos ao circo foi no ano retrasado.
—Vamos sim, se quiser você pode vir com a gente Alexandre.
—Eu dispenso não gosto muito de circos, mas muito obrigado pelo convite. – Digo sem tirar os olhos da latinha de refrigerante.
—Como assim não gosta de circos? Todo mundo gosta de ir ao circo. – Aline diz incrédula.
—É que eu meio que tenho um trauma de circos.
—Um trauma? – Thomás pergunta. – Se quiser pode nos contar.
—Eu não sei... – digo, mas como os dois ficam me encarando eu começo a falar.
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