A brisa da janela atinge meu rosto de leve. Há um ano não passo por essa estrada.Cada solavanco que damos me traz mais memórias indesejadas. A estrada de terra no meio do nada nos leva a uma prainha, que costumava ser considerada meu lar. A cada km que avançamos por essa encosta de chão batido e árvores sinto-me mais sufocada. Calma Lena. É tudo que penso. Nada me distrai da sensação de pânico em meu peito.

Flashbacks do dia em que tudo mudou veem a minha mente. A sensação de estar sendo observada, a dor que senti quando ele me jogou no chão, seus cabelos loiros atrapalhando minha respiração, o gosto de ferro em minha boca. Mas principalmente o frio. O frio que senti depois de tudo.

Volto a realidade quando minha mãe me chama "Lena, filha, chegamos." Abro os olhos e me deparo com o casarão de tijolos que ocupa meus pesadelos há um ano, suas duas portas de madeira estão fechadas, esperando nossa chegada. Elas são imensas e cobrem toda frente da casa, quando abertas , a luz do sol consegue entrar e ocupar cada canto da nossa sala e cozinha.

Tive uma ano inteiro para esquecer todos os detalhes desta maldita casa, 365 dias para esquecer os detalhes deste cômodo. Mas agora de frente a sala, que emenda na cozinha, vejo que meus esforços foram inúteis. Entre as duas está a escada de 3 degraus que dão para os quartos.

A chuva que antes não existia agora bate forte na janela, nos obrigando fechar as portas dianteiras. Nos obrigando a acabar com todas as correntes de ar. Me sinto sufocada. Subo para o meu quarto, ao abrir a porta percebo que a única coisa que mudou nesse um ano fui eu.

Com a grande cama no meio, o armário vazio no canto e a luminária ridícula da Hello Kitty, tudo esta imaculadamente igual. Suas paredes brancas continuam desbotadas e as estrelas de plástico que colei no teto continuam a brilhar levemente no escuro. Só percebo que fiquei 30 minutos de pé na porta, quando meu pai me chama para jantar.

Desço as escadas chego na mesa que incialmente serve 8 pessoas, mas só esta arrumada para 3. Eu, minha mãe e meu pai.Apesar de ter estado sentada á mesa o tempo inteiro, minha mente se dissipa em tumultos e lembranças, o que me tira do transe é o fim do jantar. Com o prato na mão vou até a cozinha coloca-lo na pia de mármore preta, quando uma quantidade de luz muito grande invade o ambiente pelos vidros que encostam no teto, apesar de ser originada de um raio, minha mente não consegue evitar a voltar no tempo, para o dia em que tudo aconteceu. Para a luz do carro que invadiu minha visão turva, enquanto meus gritos eram abafados e meu corpo era jogado de um lado para outro. Eu lembro de sentir as mãos dele pelo meu corpo, eu estava suada, sendo arrastada pela estrada de chão batido. Enquanto suas unhas cravavam meu tornozelo, eu tento me esquivar, tento gritar mas algo me impede. O sangue em minha boca me impede, a falta de oxigênio me impede. Vejo meus cabelos loiros arrastando no chão como meu rosto, antes penteados de uma maneira impecável agora em parte vermelhos em parte marrons,sinto sua respiração pesada enquanto lida com o peso do meu corpo. Lembro do barulho de minhas roupas sendo rasgadas, lembro de não conseguir mexer nenhum músculo, lembro do pânico, lembro da chuva que transformou a terra em barro, espesso, sujo. Lembro da dor intensa, que aos poucos foi ficando mais fraca e por fim lembro de não sentir nada, nada além do seu toque gélido e suas mãos cheias de terra por todo corpo, que agora já não me pertencia mais.

Crash, o prato se dissipa no chão. Quando vejo estou gritando, minha mão está cortada, minha mãe está aos pratos, e eu estou fria. E assim começa o verão com sangue e estilhaços…