Um ano depois

“Vamos logo Lena! A gente vai se atrasar” gritou a Pietra do andar de baixo.

“To indo” gritei enquanto passava a última camada de gloss, dando uma ultima olhada no espelho antes de sair. Me olhando da cabeça aos pés passando pelos meus quadris largos e busto a cima da média, paro no meu rosto, onde uma quantidade pequena de maquiagem esconde as cicatrizes, mas não todas elas. Olho pro quarto que já foi cenário de pesadelos e bato a porta.

“Você não pode ir vestida assim!” Pietra fez uma cara de indignada depois dá um riso “Você parece a Maria Aparecida, ou melhor Maria Helena”.

“Ei, eu gosto das minhas roupas. Elas são hmm… Confortáveis. E para de me chamar assim, nunca vou parar de me arrepender de ter te contado meu nome inteiro, não é?”

“Só paro se você trocar de roupa, não pode aparecer assim pra sua “volta á sociedade", é a primeira festa que você vai em 2 anos! As pessoas esperam fogos de artifícios.” Faço cara feia pra ela por relembrar, os dois anos excruciantes e terríveis que tive. Ela e meus pais são as únicas pessoas que sabem o que aconteceu, bem pelo menos o que eu contei.

“Ta bom Madre Theresa vamos lá!”.

Pietra com seus cabelos pretos e olhos azuis, é como um holofote. Impossível não ver, além do mais com esse tomara que caia justo que realça cada uma das suas curvas, a deixando como se diz atualmente mais “gostosa”. Ela é minha melhor amiga, e se preocupa muito comigo. Ao seu lado eu era praticamente invisível, meus cabelos loiros agora não eram compridos e brilhantes como antigamente. Eram sem graça um pouco abaixo do ombro, e meus olhos verdes antes cheios de vida, perderam completamente o brilho. Saudade dos tempos onde a única coisa que não me faltava era energia, eu era muito animada. Ia bem no colégio, tinha muitos amigos, amava roupas curtas, eu era bem… Como vamos dizer, uma piranha. Não que eu me importasse com o que os outros pensavam, daria tudo para voltar a ser aquela menina despreocupada, bem resolvida e feliz que costumava ser.

Fomos de taxi, embora eu tenha dito que não pretendia beber, mas Pietra insistiu. É estranho pensar que eu, a garota tímida, já fui muito divertida. Eu costumava beber até cair, tinha um namorado por mês e estava sempre presente em todas as festas, desde que me oferecessem uma quantidade decente de vodka. Dançava a noite inteira rebolando como se a minha vida dependesse disso, tudo isso em cima de uma salto maior que a minha cabeça.

Assim que entramos a fumaça invadiu meus pulmões, reconheci imediatamente quase todos da festa. Pietra passava cumprimentando todo mundo e todos pareciam um pouco chocados em me ver. Ela viu seu namorado Bernardo, que estava com todos os seus amigos, e chegou mais perto. Conhecia todos na rodinha e fui cumprimentando cada um deles. Mal cheguei que já me alcançaram um copo,com o que parecia ser vodka com energético, que dúvida. Não via a hora de sair dali, embora gostasse deles, conversar com pessoas desinteressantes sobre assuntos banais não era do meu feitio. Quando fui para o banheiro após 5 minutos de socializar tropecei em algo e joguei o meu copo inteiro em um menino loiro a minha frente.

“Olha por onde anda garota!” Gritou ele. Fiquei parada por um segundo tentando entender que tinha acontecido e logo comecei a me desculpar.

“Desculpa, eu tropecei foi sem querer, desculpa…” Ele me interrompeu, eu conseguia sentir meus olhos marejando e meu pulso acelerando, sua camiseta branca estava encharcada com destilado.

“Ótimo tudo que eu precisava, uma imitação barata de freira que gosta de arremessar álcool.” Minhas lagrimas começaram a sumir e se transformaram em puro ódio.

“Escuta aqui, já disse que foi sem querer, agora quer fazer o favor de parar de gritar comigo. Não sou freira coisa nenhuma, desculpa se não gosto de me vestir que nem a sua amiguinha ali, que claramente precisa de um ou dois metros de tecido a mais para tentar ganhar o mínimo de dignidade” Eu disse apontando para menina morena em seu braço, logo ele soltou ela e deu um passo em minha direção. Seu cabelo loiro mais comprido estava cobrindo seu rosto, e assim que ele tirou o cabelo pude ver que de feio ele não tinha nada.

“Se você esta falando da Samanta ali, mil vezes ela do que você!”

Ahhh. Meu sangue chegou a cabeça e por pouco não parti pra cima dele.

“Se eu quisesse sua opinião eu mesma ia no lixo pegar. Boa sorte com a sua Barbie sem cérebro, tenho certeza que facilitei o trabalho dela, agora ela não vai precisar tirar a sua camisa por você”

Antes que ele pudesse responder sai andando de volta ao grupo em que Pietra estava.

“Você está bem?” perguntou ela.

“Sim, só um idiota que encontrei no caminho.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

A noite passou rápido até, apesar do incidente do inicio e quando vi já estava na hora de voltar pra casa, eu e a Pietra éramos vizinhas desde que nascemos. Nós voltar para casa de carona com um dos amigos de Bernardo. Paramos em frente a um Gol preto enquanto esperávamos o motorista que estava no banheiro. Eu e a ela tínhamos acabado o colégio ano passado, ela ainda não tinha carteira motorista embora já tivesse 18 anos, mas eu tinha. Ela estudava relações internacionais na UFRGS e eu fotografia.

Não demorou muito até o amigo do Bernardo chegar, eu estava de costas quando a fui avisada que ele tinha chego, quando virei não tinha ninguém no estacionamento além do idiota que eu tinha encontrado antes. Merda. Agora pelo menos ele estava com outra camiseta.

“O que você está fazendo aqui?” perguntei muito mais alto do que pretendia e num tom bem mais agudo também.

“ O que eu estou fazendo aqui? Querida esse carro é meu.O que você está fazendo aqui?” ele disse olhando para mim, pude sentir minhas bochechas ruborizarem. Merda.

“Eu…”minha voz estava mais fraca do que eu queria, meu olhos estavam começando a marejar.

“ Nicolas dá um tempo! Essa é a amiga da Pie que tu te falei. Você nem conhece a garota vê se não enche o saco.”. Ele disse rindo, mas dava pra ver que estava sendo sincero. Apesar de ser verão a brisa hoje estava especialmente fria, e eu estremeci assim que ela passou.

“Ta! Entrem no carro.” Pensei seriamente em não entrar, depois do fora que dei, mas percebi que seria melhor se eu entrasse além do mais não teria como voltar pra casa de outro jeito, todos os meus conhecidos já tinham ido embora. Ele não contou pro resto do pessoal que já tinha me conhecido, nem mencionou como, então preferi ficar quieta também.

O rádio tocava uma música irritante muito alto, era um funk. As palavras gostosa, rebola e linda; não paravam de sair da caixa de som. O que me deixava extremamente irritada, odiava esse tipo de música. Essa música só servia pra garotas ficarem fazendo os gestos obscenos, enquanto garotos ficam olhando. Era quase como um show de strip grátis só que sem nenhum dinheiro e um pouco mais de roupa. Dei um gemido em reprovação quando aumentaram o volume.

“O que você não gosta dessa música? Freirinha.” Que cara irritante, meu deus. Antes que eu pudesse falar algo, seu amigo interrompeu a pedido da Pie.

“Não é freirinha o idiota é Maria Helena.”

“Pietra!” gritei em reprovação por ela ter contado meu nome inteiro a ele.

Sorte que ninguém deu muita atenção a isso e a viagem decorreu tranquilamente. Sai o mais depressa que pude do carro e a Pie veio logo atrás. Mas não sai rápido o suficiente para escutar o comentário incrível do Nicolas ao meu respeito. “Que mina chata.”. Ótimo minha primeira noite fora em anos e já sou considerada "a mina chata”.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.