A Ilha
7 O Geólogo

Todos estavam se virando como podiam após o pouso forçado naquele mar misterioso.
Já era fim de tarde, e o vento começava a ficar mais frio, cortando seus rostos como pequenos avisos de que a noite não seria fácil.
Taehyung, Namjoon e Mingi haviam trabalhado duro o dia todo para erguer mais cabanas improvisadas, principalmente para proteger os feridos. Faziam o possível para garantir ao menos um mínimo de conforto e abrigo.
— Precisamos caçar alguma coisa para comer. Precisamos de proteína. — observou Jin, olhando em volta.
— E onde vamos achar carne? Acha que tem algum açougue escondido por aqui? — retrucou Adam com sarcasmo, se metendo na conversa como sempre.
Jin o encarou, já sem paciência.
— Estamos em uma ilha, seu asno. Deve ter algum animal selvagem, peixe, qualquer coisa.
O tom foi seco. Jin não fazia esforço nenhum para esconder que não simpatizava com o piloto. E, francamente, a cada nova frase de Adam, sua antipatia só crescia.
— Posso tentar pegar alguma coisa — Mingi se prontificou.
Adam revirou os olhos. Não gostava de Mingi com esse jeito de herói bondoso que salvava tudo.
— Vou junto. Fui treinado para a sobrevivência na selva, sou o melhor nisso — Adam se gabou.
— Que seja, só se certifique de não ser ferido — disse Jin — Não quero ter mais trabalho.
— Eu vou junto para ajudar — Taehyung se aproximou.
— E você não acha que seria bom soltar o garoto? Ele pode nos ajudar em algo — Jin olhou para Taehyung.
— Não, não acho. Jimin é perigoso apesar de não parecer.
— Se você está dizendo… só deixe ele confortável.
— Quanto a isso, já cuidei de tudo. Coloquei panos macios em seus pulsos para não machucá-lo… e Yoongi está cuidando dele.
Com suas facas improvisadas e tacos de madeira em mãos, os três seguiram em direção à floresta. Precisavam ser rápidos. A noite se aproximava, e ninguém sabia o que os aguardava entre aquelas árvores densas.
O grupo caminhava em silêncio, os passos cuidadosos e os sentidos aguçados. Mingi ia à frente, concentrado, atento ao caminho. Mas não demorou para que Adam apressasse o passo e ultrapassasse os dois, assumindo a dianteira com a arrogância de quem queria parecer o líder da missão. Mingi não se importou. Não estava ali por ego. Estava mais fascinado pela floresta em si.
Observava a vegetação vibrante, a abundância de folhas largas, galhos retorcidos e flores exóticas. Era, sem dúvida, uma floresta tropical de biodiversidade impressionante.
Mas havia um problema. Aquele tipo de floresta não deveria existir ali.
De acordo com tudo o que Mingi estudou em geografia e botânica, aquela vegetação era incompatível com a localização onde deveriam ter caído.
Sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Agora não era hora para teorias, precisavam encontrar comida. Concentrou-se nos sons da floresta, os estalos dos galhos, o farfalhar das folhas, o leve zumbido de insetos.
Taehyung seguia no meio dos dois, os olhos atentos, a arma em punho, pronto para reagir a qualquer ameaça. Seu instinto de proteção estava à flor da pele.
Ali dentro da mata, o ar era mais úmido, mais denso. E, embora nada de estranho tivesse acontecido ainda, todos sabiam, no fundo, que estavam sendo observados.
— Ouviram isso? — sussurrou Adam, parando de repente.
Os três ficaram em silêncio, tentando captar o som abafado vindo de entre os arbustos. Adam estava certo, havia algo lá. Com passos lentos e respiração contida, aproximaram-se cautelosamente.
Foi então que, num segundo de susto, um javali raivoso irrompeu da vegetação, soltando grunhidos furiosos enquanto avançava em linha reta, pronto para atacar.
Mingi agiu por instinto.
Saltou sobre o animal sem hesitar e, com um golpe firme e certeiro, cravou sua faca na jugular da criatura. O javali estremeceu, soltou um grito agudo e caiu, o sangue escorrendo em jatos sobre a terra úmida.
Adam recuou com uma careta de nojo, virando o rosto diante da cena sangrenta.
Mingi ofegava. O suor escorria pela sua testa, não sabia se era do calor ou da descarga de adrenalina. Limpou o rosto com o antebraço, tentando recuperar o fôlego.
Sem dizer uma palavra, ele e Taehyung amarraram as patas do animal em um pedaço de bambu, improvisando uma maca para facilitar o transporte.
Adam recusou-se a ajudar. Fingiu estar ocupado observando a trilha, ou talvez simplesmente não queria sujar as mãos.
Com esforço e passos firmes, Taehyung e Mingi começaram a carregar o javali em direção à praia.
Quando chegaram, Namjoon já preparava uma fogueira para assar o animal caso eles conseguissem encontrar algum. Jin preparava outra fogueira próxima aos feridos, para lhes manter aquecidos, a noite parecia ser fria ali.
Depois de bem alimentados, se sentaram em frente a fogueira, precisavam conversar e resolver questões importantes.
— Precisamos nos organizar e colher informações — Disse Jin.
— Nos organizar? — Adam perguntou, puxando Hoseok para seu lado, o ruivo evitava falar ou ter contato visual com qualquer pessoa, sabia que Adam não gostava disso.
— Sim — Jin não aguentava nem ouvir a voz dele, já tinha percebido a forma como ele tratava Hoseok. Desviou o olhar, o ignorando — Precisamos de um líder.
— Obviamente o líder deve ser eu. Sou o piloto. — declarou Adam, estufando o peito.
— Temos o meu marido Namjoon, que lidera uma grande empresa e já provou ser um líder nato. Temos também Taehyung, um policial altamente treinado, e o Mingi, que está sendo incrivelmente cooperativo e altruísta. — Jin nem sequer olhou para Adam enquanto falava, ignorando-o completamente.
— Você ouviu o que eu disse? — Adam virou o rosto para Jin, irritado. — Eu devo ser o líder!
— O líder precisa ser alguém que se importa com o grupo, que sabe tomar decisões pensando em todos, não só em si mesmo. — Jin revirou os olhos, sem paciência.
Antes que a discussão se acalorasse ainda mais, Mingi levantou a voz com gentileza:
— Vamos decidir isso de forma democrática. Uma votação.
Todos concordaram.
— Concordo. — disse Namjoon, finalmente se pronunciando. Apesar de ser um CEO muito respeitado, sabia reconhecer quando não era ele quem estava segurando tudo de pé. — Meu voto vai para quem está sendo mais centrado entre nós, quem manteve a calma desde o começo… meu marido, Jin.
Jin arregalou os olhos, surpreso. Fazia anos que não ouvia um elogio sincero vindo de Namjoon. Talvez alguns dias sem internet, e longe das pressões da vida, fossem o que seu casamento precisava.
— Meu voto também vai para o Jin. — disse Mingi com convicção. — Ninguém melhor do que ele para nos guiar.
Taehyung, Jimin e Yoongi também declararam seus votos em Jin, sem hesitação.
— E você, Hoseok? Vai votar em quem? — Mingi perguntou com delicadeza, ao notar o silêncio do ruivo, que encarava o chão com as mãos trêmulas.
Antes que Hoseok pudesse sequer levantar os olhos, Adam se adiantou, com a voz afiada:
— Eu falo por ele. O voto dele é em mim.
— Ninguém perguntou pra você. — cortou Jin, frio, firme, e deu um passo à frente. Olhou diretamente para Hoseok. — Então, Hoseok. Vai votar em quem?
Hoseok hesitou. O olhar de Adam sobre ele pesava como uma ameaça. Com a voz baixa, quase num sussurro, respondeu:
— Meu voto vai para... Adam.
Não ergueu os olhos. Nem precisou, o desconforto estava estampado em seu corpo inteiro.
Adam sorriu com arrogância.
— Com o meu voto e o dele, tenho dois. — disse, se gabando como se tivesse vencido uma competição.
— E Jin tem cinco votos, mais o dele próprio. — Namjoon rebateu, seco. A paciência dele com Adam já estava por um fio. Ele podia não ser o melhor marido do mundo, mas jamais trataria Jin como Adam tratava Hoseok. — Por maioria absoluta, Jin será o nosso líder. — finalizou. — Acho que todos concordam.
Os aplausos ecoaram.
Jin ficou surpreso por um instante, mas logo assumiu a postura firme e serena que todos esperavam dele.
Adam bufou, irritado.
Hoseok permaneceu em silêncio, mas por dentro, agradecia por Adam não ter vencido.
…
A noite caiu, e a fogueira crepitava suavemente no centro do acampamento. A maioria dos sobreviventes já dormia, exaustos, espalhados em cabanas improvisadas ou sobre palhas espalhadas na areia.
Jimin e Yoongi dormiam abraçados, enrolados um no outro como se o calor um do outro fosse o único abrigo contra a noite fria.
Taehyung os observava de longe.
O fogo refletia em seus olhos cerrados, e o que ele sentia não era raiva… era ciúmes. Mas ele se convencia do contrário.
"Idiotas. Gays exibidos, dormindo assim, coladinhos, se mostrando pra todo mundo… Me dá nos nervos." — pensou Taehyung, disfarçando o incômodo com hostilidade silenciosa.
— Adam. — Namjoon quebrou o silêncio, sua voz firme. Adam levantou os olhos. — Precisamos saber exatamente o que aconteceu. Qual foi o real motivo da queda do avião?
Adam assumiu uma expressão mais séria. A fogueira lançava sombras duras sobre seu rosto.
— Pode parecer loucura... mas foi a ilha.
— A ilha? — Jin franziu o cenho. — Como assim?
— Ela nos atraiu. — Adam respondeu, quase num sussurro. — Olha, eu sou o melhor piloto que existe, e não perderia o controle da aeronave por causa de uma simples tempestade.
— Então o que aconteceu? — Namjoon insistiu.
— Quando entramos naquela tempestade, tudo entrou em curto. Os sistemas falharam, os comandos não respondiam. Era como se o avião tivesse sido puxado. Como se a ilha tivesse vida. Como se fosse um ímã.
Um silêncio inquieto se espalhou. Todos o encaravam, divididos entre incredulidade e medo. Mingi, que até então estava calado, franziu a testa, a mão apoiada no queixo.
— Tem algo ainda mais estranho nisso tudo. — disse, em tom baixo.
— O quê agora? — Adam bufou com desdém.
Mingi se agachou diante da fogueira, pegou um graveto e começou a desenhar na areia úmida.
Todos se inclinaram, curiosos.
— É… o mapa-múndi? — Jin reconheceu os contornos.
— Correto. — Mingi assentiu, e marcou dois pontos com um X. — Estávamos sobrevoando esta área. E caímos… exatamente aqui.
Apontou para um ponto isolado, em pleno oceano.
— E qual o problema? — Adam cruzou os braços.
Mingi o encarou.
— O problema é que essa ilha não existe.
O silêncio se aprofundou.
— Eu sou geólogo e cartógrafo. — completou Mingi. — E posso afirmar com toda a certeza: essa ilha não consta em nenhum mapa.
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