A Ilha

8 Ladrãozinho de Artefatos



… Uma semana antes …

Hoseok ainda estava deitado na cama, o corpo escondido sob os lençóis brancos e impecáveis do hotel. Sempre sonhou em viajar para os Estados Unidos, mas não daquele jeito. Não a trabalho. Ou pior: nos dois trabalhos que nunca teve coragem de admitir em voz alta. Estava ali, em um país estrangeiro, como parte da equipe do piloto Adam… e também como seu acompanhante de luxo.

Suspirou, afundando o rosto no travesseiro. Não queria sair dali. Não queria encarar o rosto de Adam, com aquele sorriso falso de namorado perfeito, tentando fingir que levavam uma vida de casal de comercial de margarina. Uma mentira que Adam forçava sempre que havia testemunhas. Mas Hoseok sabia muito bem o que acontecia quando as portas se fechavam. O inferno começava.

Por isso, quando Adam entrou no quarto com uma bandeja requintada de café da manhã, Hoseok não conseguiu esconder o desgosto que queimava por dentro.

Adam era o namorado “perfeito”… até alguém olhar para Hoseok na rua. Até Hoseok sorrir para a pessoa errada. Aí, o paraíso virava um pesadelo.

Mas aquela vida pagava as contas do hospital da mãe. Pagava o tratamento caríssimo que ela não podia deixar de fazer. Então… ele engolia o orgulho e seguia fingindo.

— Vamos voltar para a Coreia. Depois disso, pensei em passarmos um tempo só nós dois. — disse Adam, servindo o café como se fossem recém-casados apaixonados.

Hoseok forçou um sorriso vazio e apenas assentiu com a cabeça. Ele não tinha escolha.

Suspiros discretos escapavam das alunas vez ou outra, enquanto o Professor Mingi explicava conceitos de clima, cartografia e estatísticas. Não que a aula fosse ruim, o problema era tentar se concentrar quando uma mecha do cabelo dele caía sobre a testa, ou quando um botão da camisa insistia em ficar aberto, revelando um pouco mais do que devia. Mingi não fazia esforço algum para ser atraente. Na verdade, era tímido, e isso só aumentava sua popularidade entre os alunos da universidade.

Quando a aula finalmente terminou, ele respondeu pacientemente às dezenas de perguntas, a maioria delas desculpas óbvias para prolongar a conversa. Já estava começando a desconfiar disso, mas só suspirava e sorria, tentando ser educado. Por dentro, no entanto, estava aliviado. Finalmente estava de férias. E o melhor de tudo: voltaria para casa. Mingi mal podia esperar para rever a família, caminhar pelas ruas conhecidas e comer kimchi caseiro.

Arrumava sua mala com cuidado, mas não conseguia deixar para trás o velho baú de livros, companheiros inseparáveis. Cuidava deles melhor do que cuidava de si mesmo. Cada livro cuidadosamente embalado e protegido contra poeira e umidade.

Ao pegar a passagem de avião, sorriu com nostalgia, sentindo aquela velha e reconfortante sensação de voltar para casa. Mingi sentia, no fundo, que aquela viagem seria boa para ele.

Os olhos de Jimin brilhavam enquanto ele admirava o objeto entre suas pequenas e habilidosas mãos. O suor escorria pela testa, o corpo tremia numa mistura de cansaço e pura excitação. Tinha sido um trabalho exaustivo, mas ali estava ele, finalmente segurando a pequena e valiosa estátua. Agora só faltava sair dali do mesmo jeito que entrou, sem ser visto.

Com um movimento preciso, limpou o suor do rosto com uma pequena flanela branca e, com todo o cuidado do mundo, colocou uma réplica perfeita no lugar da original. Demoraria horas, talvez dias, até perceberem que haviam sido enganados.

Jimin conferiu seu equipamento, os olhos atentos a cada detalhe. Começou a escalar em direção ao teto do grande museu, onde já tinha planejado sua rota de fuga. Desviava milimetricamente dos raios laser que cruzavam o salão, sabendo que qualquer deslize dispararia o alarme. O coração batia forte no peito.

Ele se sentia o próprio James Bond, versão ladrão de artefatos raros.

Nem uma gota de suor poderia cair. Nem um único erro poderia ser cometido. Ele amava aquilo. A tensão. O risco. O sabor da vitória por um fio. Era nesses momentos, entre o perigo e a glória, que Jimin se sentia realmente vivo.

Jimin deixou o local sem dificuldades, não por sorte, mas por meses de estudo, treino e disciplina. Era isso que o movia: o desafio. Quanto mais impossível parecia, mais ele queria. Ele estudava. Planejava. Executava. E fazia tudo sozinho. Não confiava em ninguém quando o prêmio eram artefatos raros e valiosos. Dividir o mérito? Jamais.

Percorreu o telhado em silêncio, alcançou a lateral do prédio e, com os movimentos calculados de quem fez aquilo centenas de vezes, desceu em rapel usando equipamentos de última geração. Era nisso que ele investia seu dinheiro. Nada menos que o melhor.

Ao tocar o chão, retirou a máscara e o traje preto, revelando roupas comuns por baixo, como qualquer civil andando à noite. Jogou o disfarce em uma velha lixeira e, sem hesitar, incendiou tudo. Nenhum vestígio. Nenhuma pista. Caminhou tranquilamente por quatro quarteirões, até alcançar um carro estacionado em uma rua deserta. Carro alugado, nome falso, tudo como sempre. Antes de entrar, ergueu os olhos para o céu estrelado. A lua prateada reinava solitária, como se o observasse com cumplicidade.

Ele sorriu.

Mais uma missão perfeita, mais um golpe limpo.

Entrou no carro, ligou o motor, e já conseguia se imaginar debaixo da água quente do chuveiro, deixando o cansaço e a adrenalina escorrerem pelo ralo. Porque, no fim das contas, ele merecia.

A música clássica, tocando suavemente em volume baixo, junto à luz quente e difusa, dava ao ambiente um ar aconchegante, quase intimista. Jimin havia acabado de sair de um banho longo e relaxante, envolto agora em um roupão felpudo, quente e confortável, que acariciava sua pele como um abraço de veludo.

Sentado em frente à lareira, com as pernas cruzadas, ele se servia de seu vinho mais caro e valioso. Girou a taça com elegância, levou o líquido ao nariz, apreciou o aroma e deu um gole, sentindo o calor do vinho descer pela garganta, deixando na boca o sabor suave de uva.

Jimin sorriu, sem sequer olhar para trás. Ele já sabia que não estava mais sozinho.

— Taehyung… — murmurou com naturalidade, como se estivesse esperando por ele a noite inteira. — Entre. Venha tomar um pouco de vinho comigo.

Do canto escuro da enorme sala, Taehyung surgiu. Os coturnos pesados batiam contra o piso de madeira, denunciando cada passo.

— Jimin. — ele disse, a voz baixa, quase um suspiro. — Finalmente te achei.

Vestia a farda preta impecável, os coturnos amarrados até os tornozelos, o corpo armado até os dentes. Jimin o observou de cima a baixo, mordendo os lábios com um sorriso malicioso.

— Você está sexy assim, sabia? — provocou. — Me faz querer ser preso.

Riu de leve, tentando quebrar o clima tenso, mas Taehyung não se moveu, nem esboçou um sorriso.

— Ah, qual é? — Jimin insistiu. — É meu último vinho. Beba comigo.

Foi então que percebeu. Do lado de fora, no jardim, policiais armados surgiam das sombras, cercando a casa, aguardando apenas uma ordem para invadir e levá-lo. Jimin soltou um suspiro resignado. Taehyung também.

Depois, com uma lentidão quase teatral, Taehyung se sentou na poltrona à sua frente. Sem arma em punho. Sem pressa. Afinal, foram três anos nesse jogo de gato e rato. E por mais que ele nunca admitisse em voz alta, um certo vínculo já havia se criado ali.

— Sejamos breves. — Taehyung quebrou o silêncio, a voz baixa e firme. — Você vai voltar para a Coreia do Sul. Vai ser julgado lá.

Jimin sorriu de canto, sem se abalar.

— O vinho… — disse, servindo outra taça e estendendo para Taehyung. — … precisa ser apreciado com calma. — Deu um gole demorado antes de completar — Só está faltando alguém nessa comemoração. Somos um trisal, lembra?

Taehyung travou por um segundo, as orelhas ficaram visivelmente vermelhas. Manteve o rosto sério, mas desviou o olhar em direção ao canto escuro da sala.

— Yoongi. — chamou em voz baixa.

E Yoongi surgiu das sombras, com o rosto pálido e sonolento de sempre, como se tivesse acabado de acordar de uma soneca.

— Agora sim. — Jimin sorriu ainda mais. — Meus dois homens na despedida da minha liberdade.

Jimin serviu uma taça para Yoongi também.

— Não seja tão dramático, Jimin. — Yoongi resmungou, acomodando-se ao lado de Taehyung. Vestia o mesmo uniforme preto, mas com ele tudo parecia menos ameaçador, quase fofo. — Você nem foi julgado ainda. Tem os melhores advogados, é milionário. No máximo pegara uma prisão domiciliar.

— Sempre defendendo ele. — Taehyung revirou os olhos, cruzando os braços.

— Não fique com ciúmes. — Jimin soltou uma risada baixa. — Você continua sendo o favorito dele.

Taehyung franziu a testa, mas o leve rubor nas bochechas o entregava.

— Não diga bobagens. — respondeu secamente, se levantando. — Precisamos ir. Já comprei as passagens. Não podemos nos atrasar.

Jimin tomou mais um gole do vinho, saboreando cada segundo. Depois, se pôs de pé com um sorriso travesso nos lábios.

— Então vamos. — disse, com aquele brilho debochado nos olhos. — Viajar de avião com meus dois homens… sinto que essa vai ser a melhor viagem da minha vida.