A Ilha
9 Caco de Vidro

Jimin estava entediado. Muito entediado.
Taehyung não o soltava de jeito nenhum.
Por mais confortável que o tratasse — com sombra, água, e até frutas descascadas — era insuportável ficar o dia inteiro sem fazer nada, enquanto todos ao redor tinham missões importantes. Uns caçavam, outros pescavam, alguns exploravam os arredores da ilha em busca de água e abrigo. Mas Jimin? Jimin parecia um bebê que precisava de cuidados e vigilância constante. Odiava aquilo.
Queria estar solto, correndo entre as árvores, descobrindo os mistérios daquela ilha bizarra.
Mas estava em prisão uma VIP.
O máximo que conseguia fazer era circular entre os acampamentos, puxando conversa com todos, colhendo informações e, claro, fofocando como se fosse sua função vital. E, verdade seja dita, ele adorava fofocar. Só não gostava de estar preso.
Mas também, não questionava muito,
no fundo, sabia que era um fora da lei.
E sorte a dele ainda estar sendo tratado como parte do grupo. Mesmo que se sentisse mais um objeto raro em exposição, do que um sobrevivente como os outros.
Yoongi também queria ajudar. Estava cansado daquela rotina de observador passivo, de ser tratado como um bibelô prestes a quebrar.
Taehyung o ignorava e, ao mesmo tempo, o cercava de cuidados exagerados, como se Yoongi fosse frágil demais para qualquer tarefa mais dura. Como se ele fosse delicado demais para o mundo real. Como se o único lugar seguro para ele fosse embaixo da sombra de uma árvore, longe do calor, longe do esforço, longe de qualquer risco. Yoongi odiava isso.
Odiava o olhar piedoso de Taehyung, os gestos cuidadosos demais, o silêncio carregado de culpa. Sabia exatamente quando tudo isso começou.
Depois do dia em que ele, por acidente, tirou a vida de um civil inocente. Depois de passar por um inferno emocional, Taehyung nunca mais olhou para ele do mesmo jeito. Desde então, vivia o tratando como se fosse feito de vidro.
E embora parte dele fosse grato por não ter sido abandonado, outra parte gritava para ser tratado como igual. Yoongi não era um fardo. E queria provar isso. Queria, mais do que tudo, voltar a ser alguém que podia agir e não só ser protegido.
Yoongi queria provar que ainda era útil.
Mesmo com o trauma que o afastava das armas de fogo, ainda era um policial — um bom policial.
Determinou-se a fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Pegou uma lança improvisada e foi até a beira da praia. Já tinha pescado antes, anos atrás, em uma viagem com colegas da academia de polícia. Não custava tentar.
Taehyung apareceu atrás dele, com a testa franzida de preocupação.
— O sol está forte demais pra você, Yoongi. Volta pra sombra.
Mas Yoongi ignorou. Cravou os pés na areia quente e manteve o foco na água cristalina. O tempo passou, as tentativas falharam algumas vezes, mas ele não desistiu. E então… conseguiu.
A lança atravessou a água com precisão e, num movimento rápido, ergueu um peixe retorcendo-se ao sol. Yoongi gritou de alegria e deu pequenos pulinhos, com um sorriso que não mostrava há tempos. E, sem nem perceber, Taehyung pulava junto, rindo de verdade.
Naquela alegria contagiante, os dois se abraçaram, espontâneos, leves, quase esquecendo tudo. Mas então, num segundo de consciência, Taehyung se deu conta do gesto. Congelou e se afastou rapidamente, sem jeito, o sorriso morrendo nos lábios. Yoongi apenas o observou em silêncio, mas no fundo aquele abraço já era uma pequena vitória.
— É... parabéns. Você pegou um grande. — disse Taehyung, tentando soar natural. Mas assim que as palavras saíram, percebeu a dupla interpretação e enrubesceu.
Yoongi arqueou uma sobrancelha, segurando o riso.
— Sou um pescador nato! Vou abandonar a vida de policial e viver do mar.
— Não é pra tanto. — Taehyung respondeu rápido demais. — Não que eu queira que você fique… quer dizer, não quero que você vá embora também… ah, esquece.
Ele se atrapalhava mais com as palavras do que com os sentimentos que tentava esconder.
Yoongi apenas riu, genuinamente, levantando o peixe que ainda se debatia na ponta da lança.
— O jantar hoje será por minha conta. — anunciou, com orgulho.
— Tudo bem, chef, mas agora volte para a sombra. O sol está muito forte pra você.
— Já vou… — Yoongi respondeu, mas algo na água chamou sua atenção. Uma movimentação rápida.
Correu até a borda, animado, achando que fosse mais um peixe. E realmente era. Mas antes que pudesse comemorar de novo, parou subitamente, o corpo encolhido numa expressão de dor.
— Yoon? O que foi? — Taehyung correu até ele, a voz já aflita.
Yoongi se agarrou nele, gemendo, e levantou o pé. Um caco de vidro estava cravado em seu calcanhar.
— Meu… pé… — murmurou, o rosto pálido.
Taehyung o segurou com firmeza, assustado com o sangue que começava a gotejar.
Eles não pensaram no detalhe no momento, mas… um caco de vidro? Numa ilha inóspita e deserta? Aquilo não fazia sentido. Mas a prioridade agora era outra. Yoongi estava ferido. E Taehyung só conseguia pensar em protegê-lo.
Taehyung o pegou no colo num impulso, como se Yoongi fosse leve feito papel, e correu com ele nos braços em direção à cabana improvisada, gritando por ajuda:
— Jin! JIN! Rápido!
Jin surgiu imediatamente, alarmado.
— Meu Deus, o que aconteceu? — perguntou, se aproximando às pressas.
— O Yoon… ele se machucou… — a voz de Taehyung saiu trêmula, embargada, e ele nem percebeu que já estava chorando.
Yoongi, mesmo pálido e com o rosto contraído pela dor, tentou manter a calma:
— Tae, relaxa… foi só um corte. Eu tô bem.
Jin se abaixou, examinando o ferimento com cuidado. Um corte profundo, mas não fatal. Fez um curativo rápido, pressionando a gaze enquanto falava baixinho para tranquilizar ambos.
Enquanto isso, Taehyung correu até o galão de água, pegou um copo e voltou imediatamente para dar de beber a Yoongi, como se cada segundo de espera fosse intolerável.
Ele sempre ficava assim quando Yoongi estava doente ou ferido. Não era a primeira vez.
Na verdade, Yoongi se lembrou com nitidez do primeiro ano como parceiro de Taehyung. Teve uma semana em que adoeceu seriamente, e Taehyung — mesmo dizendo que tinha outras coisas pra fazer — ficou todos os dias ao lado dele. Preparou sopa, controlou febre, perdeu noites de sono. Tinha esse jeito bruto, explosivo, controlador. Mas Yoongi sabia que, por trás daquela armadura, existia um coração enorme. E foi por isso, exatamente por isso, que ele se apaixonou. Não pelo policial carrancudo. Mas pelo homem que tremia ao ver seu parceiro ferido, e que chorava sem perceber, só de pensar em perdê-lo.
…
Depois de tratado e medicado, Yoongi adormeceu tranquilamente no colo de Taehyung. E, naquele instante, o mundo de Taehyung se resumia a ele. Olhava para o rosto delicado, pálido e sereno de Yoongi, acariciando suavemente sua pele com os dedos, sem sequer perceber que sorria.
Seu prisioneiro?
Nem se lembrava mais de Jimin.
Do outro lado do acampamento, Jimin observava tudo em silêncio.
Estava preocupado com Yoongi, gostava dele, mesmo que às vezes implicasse. Ficou mais tranquilo quando Jin lhe garantiu que o ferimento não era grave.
Foi então que Mingi se aproximou, com aquele jeito calmo e gentil de sempre.
— Posso me sentar com você? — perguntou, segurando um galhinho de trigo entre os dedos.
— Claro. Sinta-se em casa. — Jimin deu um risinho.
Mingi se sentou ao seu lado, com os joelhos flexionados, distraído em dobrar e desdobrar o pequeno galho.
— Park Jimin. O lendário Park Jimin… — disse com um sorriso simpático.
— Falando assim me dá até medo. — Jimin fez careta.
— Não precisa. Apesar das... atividades ilícitas, sou fã do seu trabalho. E do do seu pai.
Jimin baixou os olhos.
— Meu pai era bom… eu não.
— Você também fez descobertas importantes. E pra quem estuda o passado, você é tão vital quanto qualquer professor.
— Você também é arqueólogo?
— Não exatamente. — Mingi sorriu. — Sou geólogo e cartógrafo. Mas leio bastante sobre arqueologia. E acho que temos muito o que conversar.
Jimin o olhou com atenção.
— Sobre a ilha, né?
— Você também notou que tem algo errado aqui?
Jimin assentiu, sério.
— Encontrei uma ferramenta antiga. Estilo medieval. E não se usa isso hoje em lugar nenhum. Muito menos numa ilha que, supostamente, deveria ser inóspita.
— Acha que tem nativos aqui?
— Sem sombra de dúvidas. — Jimin respondeu com firmeza. Mas então parou, o olhar se tornando inquieto. — Porém… tem algo que me intriga.
Mingi o olhou, agora também preocupado.
— Imagino o que seja… — Mingi disse em voz baixa, os olhos atentos em Jimin. — Essa ilha… ela não existe. Quer dizer, não deveria existir.
Jimin assentiu lentamente.
— Sobre isso… tem algo que me veio à cabeça desde que caímos aqui, naquela tempestade absurda.
— O quê? — Mingi inclinou o corpo ligeiramente à frente, curioso.
— Quando meu pai ainda era vivo, ele desapareceu por dois anos.
Mingi arregalou os olhos.
— Desapareceu?
— Sim. Todos já o davam como morto. — Jimin disse com a voz mais baixa — Diziam que o navio particular dele havia desaparecido no mar, sem deixar rastro.
Fez uma pausa, olhando para o chão como se revivesse aquilo.
— Aconteceu exatamente na mesma região onde nosso avião caiu.
Mingi permaneceu em silêncio, o que só dava mais peso às palavras de Jimin.
— Dois anos depois, ele apareceu. Vivo, sadio, como se nada tivesse acontecido. E me deu a desculpa mais ridícula do mundo: que passou esse tempo em uma montanha do Himalaia, em treinamento espiritual.
Jimin soltou uma risada seca.
— Eu nunca engoli essa história. Agora começo a achar que talvez ele tenha vindo parar aqui.
Mingi o encarava boquiaberto.
— Se isso for verdade… é incrível! Você tem alguma pista sobre o que esse lugar é?
— Nada. Nem um sussurro sobre essa ilha em lugar nenhum. E olha que eu já estive nos cantos mais remotos do mundo.
Jimin respirou fundo, sentindo aquela vontade antiga de investigar se reacender com força.
— Eu realmente precisava explorar. Tentar encontrar qualquer coisa que me leve à verdade.
— Duvido que o Taehyung vá deixar. — Mingi disse, olhando discretamente na direção dos dois.
— É… eu também não acho. — Jimin sorriu de canto.
Seus olhos se prenderam em Taehyung, que seguia carinhosamente atento a Yoongi, acariciando os fios do cabelo dele.
Foi então que Jimin reparou na gargantilha de couro que Taehyung usava, e bem no centro, onde deveria haver um pingente, estava a pequena chave prateada das suas algemas.
Um brilho malicioso passou por seus olhos. Ele só precisava do momento certo e a chave da liberdade estava logo ali.
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