A Ilha

6 Hétero?



Yoongi podia não ser o melhor em lutas corpo a corpo, mas sua mira era impecável. Ou pelo menos, era.

Desde um trauma que o marcou profundamente, ele não conseguia mais tocar em uma arma. E isso, para um policial, não era exatamente um mero detalhe.

O episódio havia acontecido há cerca de um ano, em uma tarde comum de domingo.

Era o tipo de dia em que o mundo parecia suspenso em tranquilidade. As pessoas descansavam em casa assistindo à final de um campeonato de futebol, enquanto crianças brincavam felizes com seus cachorros na rua. Nada indicava que algo ruim poderia acontecer.

Naquela tarde, Yoongi e Taehyung estavam de ronda.

O sol castigava o asfalto, e dentro da viatura, o ar estava morno e preguiçoso. Yoongi, com os olhos pesados, pescava de sono no banco do passageiro.

Taehyung, do volante, achava engraçadinho o biquinho que Yoongi fazia quando dormia. Discretamente, tirou uma foto.

Disse pra si mesmo que era só pra encher o saco dele depois, mas a verdade era outra, guardava a imagem como um pequeno antídoto contra o estresse. Sempre que olhava para ela, dava risadas sinceras, daquelas que esvaziam o peito.

Decidido a agradar o parceiro sonolento, Taehyung parou em uma mercearia à beira da estrada para comprar algo gelado.

O carro estacionou com suavidade, e Yoongi acordou com o movimento, limpando a baba no canto dos lábios com certo constrangimento.

Taehyung riu alto, divertido com a cena.

— Acordou, belo adormecido?

Yoongi coçou os olhos.

— Por que não me acordou?

— Você parecia cansado. Estava tudo tranquilo então deixei você dormir um pouco.

— Hum… obrigado — Yoongi olhou pela janela — Por que paramos aqui?

— Está abafado hoje — disse, abrindo a porta do carro. — Vou buscar alguma coisa gelada pra você antes que morra derretido.

— Eu vou.

— Não, pode ficar e descansar mais. Eu vou lá.

— Preciso acordar, andar um pouco pra despertar. Eu compro, é sempre você que vai. O que vai querer?

— Teimoso — Taehyung balançou a cabeça negativamente — Vou querer um chá gelado.

— Beleza, volto logo.

Yoongi saiu do carro, se espreguiçando como um gatinho sonolento.

Taehyung, ainda dentro da viatura, o observava com um sorriso involuntário no rosto. Nem percebia quando sorria ao olhar Yoongi. Era natural.

Mas aquele momento suave se quebrou num segundo. Assim que entrou na mercearia, Yoongi congelou.

O terror tomou seu corpo como um raio. O coração disparou. Os olhos captaram a cena com clareza cruel: três rapazes armados rendiam o dono do local.

Mas o que fez o sangue ferver foi ver um deles tentando arrancar as roupas de uma funcionária apavorada.

Instintivamente, Yoongi sacou a arma. Todos pararam, surpresos. Qual a chance de um policial entrar ali justo naquele momento?

O ladrão que rendia o dono reagiu primeiro: empurrou o homem no chão e correu em direção a Yoongi.

Ele era enorme. Forte. Rápido. Yoongi tentou rendê-lo sem atirar, sem causar uma tragédia — era o que sempre tentava.

Mas tudo aconteceu rápido demais.

O homem se jogou sobre ele com brutalidade, e Yoongi, pressionado, disparou. O som ecoou em seus ouvidos como um zumbido. O assaltante recuou, apalpando o próprio corpo, procurando a ferida — mas estava intacto.

Foi então que Yoongi olhou para o dono da mercearia. O homem cambaleava. Sua blusa branca começava a manchar de vermelho. Olhou para Yoongi com um misto de confusão e terror. Tentou entender. Tentou respirar. E então caiu no chão. Sem vida.

Os assaltantes fugiram, carregando o que conseguiram. Yoongi ficou ali, sentado, paralisado, encarando o homem que havia matado sem querer. Um inocente.

Quando Taehyung entrou no local, com a arma em punho e o coração em colapso, o que viu o paralisou: Yoongi estava no chão, com o olhar perdido, catatônico, encarando o corpo. Sem lágrimas. Sem piscar. Sem reação.

Taehyung entendeu tudo. Ligou para reforços. Para uma ambulância. Depois, correu até Yoongi e o puxou para seus braços, abraçando-o com toda a força que podia.

Yoongi não reagiu.

Depois daquele dia, nada foi o mesmo. Taehyung esteve com ele em todas as sessões de terapia, todos os dias de silêncio, todas as madrugadas insones.

E quando, meses depois, Yoongi foi considerado apto para voltar ao trabalho, Taehyung ficou mais aliviado, mas ainda se preocupava.

Yoongi decidiu não usar armas novamente. Não estava pronto. Por isso, desde então, vinha treinando lutas com Taehyung. Era sua forma de continuar sendo policial. E de tentar se perdoar.

… Um ano depois do acidente na mercearia e uma semana antes da queda do avião …

— Foco, Yoongi! — Taehyung o repreendeu, sem entender por que o parceiro estava com aquele olhar insistente direcionado ao seu corpo.

Yoongi desviou o olhar às pressas, engolindo em seco.

— Você pode colocar a blusa? Não dá pra me concentrar assim.

— Por quê? — Taehyung franziu o cenho, genuinamente confuso.

Três anos de parceria, sabia que Yoongi era gay, mas nunca suspeitou que ele pudesse ter uma quedinha por ele.

— Você fica suado e é... — Yoongi quase disse "uma delícia", mas freou a tempo. — Nojento. — completou, forçando uma careta que não enganava nem ele mesmo. Na verdade, só queria se esfregar naquele corpo suado até perder a noção de tempo.

— Faz sentido. — Taehyung assentiu, achando a desculpa plausível. Pegou a camiseta e vestiu de novo. — Vamos descansar um pouco. Já deu por hoje.

Sentou-se no chão e, como sempre, deitou-se todo esparramado, relaxado. Bateu a mão no chão ao lado.

— Deita aqui.

Yoongi sorriu pequeno, e obedeceu. Se deitou, encostando a cabeça no ombro de Taehyung. O silêncio que se seguiu era confortável. Para Yoongi, era o paraíso que ele nunca admitiria em voz alta.

Taehyung nunca ligou para os abraços e toques que Yoongi lhe dava. Sempre encarou como uma amizade sincera entre dois homens, ou pelo menos era no que ele preferia acreditar. Porque, no fundo, talvez ele soubesse. E não queria encarar o que isso significava.

Mas a tensão não vinha só de Yoongi. Taehyung, quando bebia, sempre flertava com Yoongi. Trocava olhares, soltava risadas mais longas, tocava demais o parceiro. Mas nunca passava disso. Yoongi estava cansado de esperar. Cansado de viver à margem do e se. Ele queria saber até onde Taehyung iria com aqueles flertes.

Porque por mais que Taehyung fosse gentil com todos, havia algo diferente na forma como cuidava dele. Nos silêncios, nos toques longos, nas preocupações exageradas. Era carinho de namorado, não de parceiro de ronda. E Yoongi sabia disso.

Eles estavam deitados lado a lado, os rostos tão próximos. Taehyung olhava para o teto. Yoongi o encarava com atenção. E então, tomou coragem.

— Tae... — murmurou.

Taehyung virou o rosto para ele.

Yoongi se ergueu devagar e se acomodou por cima dele. Taehyung congelou, os olhos presos nos dele, surpreso demais para reagir. Então, Yoongi se aproximou e o beijou.

Foi um beijo calmo, mas carregado de sentimentos e de tesão. Taehyung foi pego de surpresa. Ficou atordoado. Talvez pelo susto, ou talvez porque seu corpo queimava de desejo. E ele se odiou por isso. Odiou o quanto quis corresponder. Por isso, o empurrou.

Sentou-se bruscamente, a respiração pesada, os dedos passando pelos lábios ainda úmidos.

— O que você fez? — perguntou, a voz fria como gelo.

Yoongi congelou. O peito apertado.

— Desculpa… eu... achei que... — a voz falhou. Tudo desmoronava. Estava errado. Estava completamente errado.

— Achou que eu estava interessado em você? — Taehyung se levantou, irritado, os olhos em chamas. — Não me faça sentir nojo de você, Yoongi. Eu nunca pensei que você tivesse esse tipo de ideia sobre mim…

— Tae, eu…

— Cala a boca. Não fale mais disso. Esqueça esse beijo.

A última frase veio como uma facada.

— Yoongi, eu realmente estou te odiando agora. De verdade.

E ele ia dizer mais. Iam sair outras palavras afiadas da sua boca — mais cruéis, mais duras. Mas o celular tocou. Taehyung atendeu, ainda com o rosto quente, o coração acelerado. Talvez por raiva. Talvez por algo que não queria admitir.

A expressão dele mudou imediatamente. Do “ódio”, pulou para a euforia.

— Yoongi! Vamos. Encontramos o Jimin. — seus olhos brilharam — É hoje que vamos pegar esse ratinho fujão.

E, por um instante, o delicioso beijo roubado desapareceu da memória dele. Ou... pelo menos era o que ele queria acreditar.