A Hóspede
40 Uma última segunda chance
Notas iniciais
Enfim.. aí está. O próximo capitulo não prometo que será em breve, mas grande será e, se Deus quiser, o penúltimo >
.
Boa leitura.
Depois de uns minutos, a casa se silenciou. Naruto havia saído com o carro. Quando me senti encorajado para sair da academia sem correr o risco de topar com ele, para diante a figura aterrorizante bloqueando a passagem da porta. Confesso: ela me dava medo certa vezes com aquele semblante de rancor e nojo que lançava para mim.
-Senta. –Mandou indicando o banco atrás de mim. Obedeci. Não sabia exatamente o porque, mas desconfiava que se ousasse discutir só ganharia mais uns murros e, aparentemente Hinata tinha a mão mais pesada do que a de Naruto.
Ela agachou na minha frente com uma maleta e um cesta cheia de bolsa de gelo que mandou eu segurar sobre o queixo. De imediato doeu quase tanto quanto o soco que machucou a região, mas depois foi aliviando, para o prazer do gato que me observava e parecia se deliciar com o que via. Hinata abriu a maleta e começou retirar itens como gases, álcool em gel, pomadas e fitas adesivas. Eu poderia supor que ela iria cuidar dos meus ferimentos, mesmo assim resolvi perguntar, pois já estava me sentindo desconfortável de vê-la a minha frente concentrada em desinfetar as gases.
-O que está fazendo?
-Tentando rebocá-lo para hoje à noite. –Eu entendi bem? –Não adianta fazer essa cara. Você sabe bem para que. –Falou me olhando nos olhos tão intensamente que cedi ao silêncio. E assim fiquei, enquanto ela limpava os cortes dos meus lábios com um algodão umedecido com álcool. –Foi desnecessária essa confusão toda com o Naruto.
-Ele quem começou! –Falei embolado nas palavras.
-Isso é desculpa de garoto de oito anos. –Falou impassível, concentrada em outros pontos machucados.
-Você o defende porque ele é seu namorado e você me odeia.
-Pare de ser tão dramático, Sasuke. –Falou entediada. –Não vou ficar traduzindo as coisas que eu digo para o seu vocabulário.
-E nem estou pedindo isso. Só quero entender o que está fazendo aqui.
-Cuidando para que você não tenha desculpas para não ir à festa de hoje à noite. –Joguei a cabeça para trás zombeteiro.
-Por que querem tanto que eu vá?
-Porque é a festa da Ino. Se você não for, ela vai entender que a culpa foi minha e de Naruto por não ter insistido o suficiente. Ela já me ligou ameaçando meu pescoço caso você não aparecesse lá.
-Então está fazendo isso para não ouvir Ino zumbir nos seus ouvidos a minha ausência, é isso?
-Não sou tão egoísta ao ponto.
-Então está fazendo isso para Naruto também não ouvir Ino zumbir nos...
-Faço isso porque a Sakura disse que também não vai para a festa da Ino porque se sente mal em estar presente em lugares que você não mais frequenta por causa dela! Pronto! Falei! Moleque chato! –Falou me beliscando o braço.
-Hinata. Presumo que você esqueceu-se do nosso acordo de não mencioná-la nesta casa.
-Por que? Ela por acaso é alguma praga? É obra do tinhoso? É uma energia negativa a ser ignorada? Se liga! Ela é a mulher que você dizia amar.
-Hinata, por favor..
-Relaxa. Eu não estou aqui para te dar sermão. Naruto já fez isso por mim e por todos. –Falou olhando com desdém para os hematomas na minha barriga. –Eu realmente não gosto de você, Sasuke. A única coisa boa que fez desde que te conheci foi ter pagado a UTI da Sakura e trazido Naruto para minha vida, do resto você foi infeliz a cada passo que deu. Mas não estou considerando minha aversão à você nesse momento e sim o bem estar do meu namorado e da minha amiga. –Falou séria. A sinceridade que ela me mostrava chegava a ser sólida. –Por um ano eu estive acompanhando esse história de camarote e, se eu tivesse talento para escrever, teria publicado isso e estaria ganhando uma grana ferrada em cima da burrice sua e da Sakura. Presta atenção! Você não merece ela, mas o coração dela praticamente grita por você desde que saiu daquele hospital e nunca mais deu as caras. Dá pra ver no seu olhar que não está feliz com isso, então, deixa de ser idiota, tenha um pouco de amor próprio e se desapegue do passado.
-Você disse que não me daria sermão nenhum.
-Foda-se o que eu disse! Só pensa bem, porque a Sakura é uma das mulheres mais incríveis que eu já conheci e beija melhor do que muita vagabunda de carteira assinada!
-C-como você sabe?! –Perguntei atônito. Ela virou o rosto e riu gozadora, umedecendo os lábios antes de se levantar e me dizer da forma mais promíscua que alguém já se dirigiu pra mim.
-Eu já transei com ela. Eu e Ino. Mas esse é nosso segredinho! -E saiu rebolando.
Só sei que, no meio do espanto, descrença e um turbilhão de sentimentos, minha boca encheu de água só de imaginar a cena de Ino, Hinata e Sakura se pegando de forma voraz. Afastei aqueles pensamentos da minha cabeça assim que dei pela presença do maldito gato me olhando com aqueles olhos redondos e amarelados. Ele mais parecia o gato da Alice do País das Maravilhas, só faltava ser rosa e roxo. Eu nem sabia seu nome. Naruto o chamava de Ei Você Desça Já Daí, eu o chamava de Desgraça, Hinata nem dirigia a palavra a ele, já chegava afagando aquele pelo imundo e cheio de pulgas. Eu tinha aflição! Mas cada um, cada um.
Após ter certeza absoluta de que não havia ninguém em casa, tomei um chá pensando no que fazer. Pensei em todas as possibilidades para a noite, pensei em muitas desculpas convincentes para não comparecer no aniversário de Ino, até achar um motivo verdadeiro para ficar em casa bem na caixa de entrada do meu e-mail.
Kakashi me solicitou amostras de canções rap e R&B para duas semanas. Isso era a mesma coisa que pedir um serviço para ontem. Sem contar que não é apenas melodia, era letra e, apesar de eu ter composto inteiramente as últimas músicas, a poesia era algo novo para mim. Sem contar que, naquela época eu estava um tanto quanto inspirado, nesse momento estou confuso e amedrontado.
Não demorou muito para o telefone tocar e eu tinha certeza que era Kakashi, porque eu não tinha respondido seu e-mail confirmando se eu aceitaria ou não o trabalho. Porém me arrependi de ter cogitado tal coisa após ouvir a voz estridente de Ino do outro lado da linha agradecendo a Deus por eu tê-la atendido. Estava tão seguro de que era meu empresário que nem me dei ao trabalho de verificar o número. Então Ino começou falar e falar e não parava mais de me dizer como andavam os preparativos da festa e o quanto queria que eu fosse. Neguei. Neguei. Neguei. Não queria nutrir falsas esperanças só para calá-la e, eu poderia dar a conversa por encerrada e desligar o aparelho, mas Ino era minha única amiga e eu não queria deixar minha intolerância afastá-la de mim. Depois de uma coleção de minutos a ouvindo me ameaçar das mais diversas torturas que seria incapaz de fazer, cedi, pois já não aguentava mais tanta gente falando no meu ouvido para onde que eu deveria ir. Parecia que, se Ino não fosse ao próprio aniversário estava tudo bem, mas se eu não fosse não teria motivo de festa.
Vencido e nada contente, tomei um banho e vesti uma roupa casual só para ir comprar algo para ela antes que ficasse muito tarde. Estava com uma feição péssima: meu lábio inferior estava um pouco inchado e meu maxilar acentuado e azulado. De qualquer forma, eu não ligava para isso. Ninguém ia me encarar se eu ficasse paradinho em algum canto da casa, só observando e assentindo comentários triviais de colegas que eu nem se quer lembrava o nome, mas que com certeza sabiam o meu e quantos banheiros minha casa tinha, afinal, a maioria dos convidados de Ino já passaram por festas da minha casa, quebrando vasos de porcelana indiana, urinando nos meus canteiros e importunando meus vizinhos. Eram criaturas adoráveis.
Comprei um Channel nº 9 e um colar com um pingente de bailarina. Não sabia se ela ia gostar. Com certeza ela diria “você bem que poderia ter lotado seu porta-malas de presentes pelo tanto de dinheiro que você tem para gastar mas não sabe com o quê”, mas eu não estava com tempo e nem clima para dar mais uma turnê pelo shopping em busca de coisas que pudessem agradá-la. No caminho de volta para casa, me encontrava no farol da avenida cuja cafeteria onde ela trabalha tinha a esquina. Não sei por que diabos quando o farol abriu não deixei o carro passar de 20km/h, dando sinal para entrar na direita, não sabendo ao certo se estacionava na rua ou não. Após insistes buzinas, desliguei o sinal e acelerei o carro adiante, rumo aos condomínios de Ottawa.
Eu não entendia que espécie de recaída era aquela. Eu estava certo de que Sakura era a personagem do quadro que eu pintava. Só. Eu estava me convencendo de que todo aquele sentimento confuso havia passado. No mínimo se esvaecido um pouco, pelo menos um pouco, mas só foi Naruto e Hinata vir com aquela conversa para eu tê-la perscrutando minha mente novamente.
Iria para aquela festa. Tentaria ficar o máximo possível confortável porque Ino e Hinata me deixaram bem claro que do contrário iriam fazer do meu ‘amigo’ combustível para a lareira. Enfim. Eu faria minha parte, tentaria agir normamente, não mostrar alteração caso ela aparecesse de súbito linda e radiante, me dando ‘boa noite’ ou apenas um aceno de cabeça, caso ela estivesse deslumbrante ou com um homem de sorte em seu encalço. Estaria bem e impassível a qualquer coisa, afinal, é como Naruto disse, já havia se passado um ano, eu precisava deixar pra lá. Mas não deixar pra lá o meu orgulho ou as desculpas mal formuladas dela naquele dia no hospital, eu deixaria de lado essa coisa que alimento por ela. Talvez, do contrário que eu pensava, tudo o que eu precisava para esquecê-la de vez seria vê-la novamente, me despedir decentemente daquele rosto que invadiu minha insônia por muitas noites afora. Moldar a supergarota que montei em minha mente em uma mulher comum que ela era.
_.o0o._
Sakura’s POV on~
-Cheguei! –Anunciei carregando sacolas lotadas de ingredientes que havia trazido do mercado. A festa não seria para menos de cem pessoas, para ser otimista. Chamar atenção e fazer farra era a especialidade de Ino, então cogitar algo grandioso e extravagante era o mínimo que eu e Hinata podíamos fazer.
Deixei as sacolas na mesa da cozinha ouvindo Ino berrar no telefone para alguém comparecer na festa dela. Depois de muitos resmungos e xingamentos, percebi com quem ela conversava. Não pude deixar de sorrir um pouco. Era engraçado ver como ele continuava teimoso, assim como era estranho estar tão próximo dele, mesmo que por telefone, com outra pessoa na linha. Em um ano isso foi o mais próximo que chegamos um do outro, mas provavelmente isso iria mudar, porque Ino pulava e gritava agradecendo e cobrando um bom presente para o sujeito. É, aparentemente ele virá.
-Oi, Sakura! –Cumprimentou vindo para a cozinha na pontinha dos pés com cara de quem viu um passarinho verde. –Nem te vi chegando!
-Jura? –Ironizei, o que me rendeu um belo tapa nas costas.
-O que comprou? –Perguntou enfiando a cara dentro das sacolas.
-Coisas para fazer doces e drinks. Não sei se está faltando alguma coisa, mas caso estiver Hinata pode comprar no mercado. Agora vou começar a fazer os doces antes que fique muito tarde para eu sair. –Ela me olhou confusa e apoiou um braço na pia.
-A festa acaba duas da manhã no mínimo. –Falou séria.
-Eu não vou ficar para a festa, Ino. Me desculpe, mas aconteceu um imprevisto e eu...
-Sasuke vir esta noite será um imprevisto?
-Também. –Ela me olhou indignada, cruzando os braços e batendo o pé compassado. –Ah, Ino! O que foi agora? Vai fazer birra?
-Só quero saber até que ponto você vai ficar com essa idiotice de não cruzar com o Sasuke de jeito nenhum.
-Ino, se liga. É algo pessoal meu e dele, sem contar que ele também me evita, mais do que eu até.
-Mas eu estou falando de você! Deixa que com o Sasuke eu me resolvo, afinal, eu já me resolvi e ele vai vir. Diferente de você, ele sabe separar trivialidades do aniversário de uma amiga!
-Então fica com ele, oras! Ninguém vai me obrigar a fazer algo que eu não queira. E eu não quero vir à essa festa! Ponto! Não é só por causa dele, porque eu também não me sinto atingida por sua presença. Como já disse, tenho um compromisso de última hora e não poderei ficar.
-E que compromisso é esse?
-Descansar porque amanhã cedinho eu preciso resolver os negócios do visto para a Inglaterra que está atrasado já tem alguns dias.
-Cínica! –Falou baixo, cerrando os olhos em cólera e desprezo ao meu motivo nem tanto justificável. –Sabe, somos amigas há mais de um ano, sempre ali se ajudando, mas agora você está irreconhecível. Você mudou, e não foi para pior. Foi sua mãe não foi?
-Para... Você já tá viajando! –Dei as costas e fui para meu quarto com ela no meu encalço.
-Sakura, não mente! Voltou a ter contato com ela e agora ela fez sua cabeça, não foi?
-Ino, eu já cansei de discutir com você e Hinata sobre isso. Eu vou voltar para a Inglaterra sim, mas não por causa da minha mãe, eu planejei isso desde quando estava lá: se eu não me ajeitasse aqui no Canadá, eu voltaria.
-Você está mais do que ajeitada aqui!
-Ah, sim, claro! Moro de favor na casa da Hinata; trabalho em uma cafeteria de manhã e à noite, de bargirl em uma matinê. É notável que atingi minhas metas aqui em Ottawa! Para mim, já deu. Eu quero crescer na vida, não me estabilizar nessa rotina escrava e desgastante. Não quero ficar o resto da minha vida servindo bebidas e cookies.
-E o que tem em Londres que não tem aqui?
-A academia municipal de balé. É o que eu quero, é o que eu faço bem e é onde eu sei que vou me virar, me ajeitar sem o auxílio de ninguém.
-Por que não espera então o inverno acabar? Passe com a gente pelo menos o seu aniversário! Nós poderíamos fazer uma baita festa...
-Já se foi meu tempo de virar a noite em festinhas!
-Falou a velha aposentada de vinte e seis anos! –Falou zombeteira. –Olha, eu não quero ser insistente nem nada, mas peço por favor, por mim, por esses meses que passamos todas juntas, fica essa noite só pra selar tudo isso. Acorda a Sakura que você deixou adormecida.
-É pessoal, Ino. Se eu vê-lo, minha vontade vai ser de lhe pedir perdão por aquele dia ter dito aquelas coisas sem sentido e o afastado de mim dessa forma. –Sentei na cama. –Não pensei que eu pudessem sentir falta da tez dele, do sorriso, do olhar... De tudo. Eu achava que era questão de tempo para ele aparecer na cafeteria novamente com flores, me pedindo um tempo para conversarmos. Esperei por muito tempo, até perceber que ele estava fazendo exatamente o que eu havia lhe solicitado.
-Então por que não aproveita para dizer isso à ele hoje? Aposto que ele também sente sua falta.
-Porque não é como se eu o quisesse de volta...
-Você nunca chegou a tê-lo.
-Por horas.
-Por poucas horas. Foi o relacionamento menos duradouro da história! –Riu, encostada no batente da porta. Sorri coma visão da mulher linda que ela era sem maquiagens, com os longos e sedosos cabelos claros caídos na altura do umbigo, trajando apenas uma camiseta de Naruto que encontrou no quarto da Hinata, de certo. –Você o ama?
-Eu não sei, Ino. Não é como se eu quisesse beijá-lo, tocá-lo e dizer à todos que tenho um namorado lindo, rico e legal!
-Quer sim!
-Não... É sério. Eu... Quero poder sentar e conversar com ele como da primeira vez que nos vimos. Quero a presença dele. –Ino me olhou com ternura e se sentou ao meu lado. –Sabe, aqueles três dias de nevasca só me mostraram que não é o porque das pessoas ficarem sozinhas dependentes de um passado desagradável. Através de dias rotineiros, trabalho exaustivo e mesmice, as pessoas ainda podem se surpreender uma com as outras. Para mim, foi uma maravilha conhecer Sasuke, mas sonhos não duram pra sempre e, eu acordei! –Ri. Ela me devolveu um sorriso fraco. –Quando eu meio que pedi para ele seguir com a vida dele, não pensei que ele deixasse rastros, como o Naruto, por exemplo. É mais difícil excluí-lo da minha vida com você e Hinata indo da casa dele constantemente, com o Naruto tagarelando Sasuke pra lá, Sasuke pra cá! –Rimos juntas. –Mas é assim que as coisas devem ser!
-Entendo. –Olhei descrente para ela esperando ouvir algo típico da Ino. –Tá, ok, eu assumo, não entendo o que você quer dizer! Sabe bem que não toco no assunto Sasuke com você por respeito, a mesma coisa eu faço quando estou com ele, só estou insistindo nisso porque você vai embora e sabe-se lá quando a veremos por aqui novamente. Creio que não custa nada vocês se darem uma chance, para conversar direito e ambos seguirem em frente sem mágoas. Promete que vai tentar?
-Prometo que vou pensar no assunto. Serve? –Ela meneou a cabeça afirmativa e fez menção para falar alguma coisa mais desistiu no meio do processo, dizendo apenas um ‘apresse-se ou os doces não ficarão prontos’.
Eu não me abri assim nem com a Hinata que eu considero minha melhor amiga, falar abertamente sobre uma assunto tabu era algo estranho, como se eu tivesse um nó na garganta me impedindo de continuar, mas também depois que tudo é dito, esse nó se desata e eu me sinto nessa leveza que estou agora.
Meu medo era ter uma recaída sentimental se o visse novamente. Porém eu estava mais do que segura sobre meus sentimentos em relação a ele e, depois de tantas idas e vindas, tantos tropeços e problemas, seria improvável uma reconciliação capaz de encaixar cada qual em suas respectivas vidas. Talvez não houvesse nada de mal, talvez fosse apenas criancice e orgulho, o que não vale a pena ser discutido e sim acabado, ou seja, talvez essa festa conte com a minha presença. Mas isso é apenas um talvez, dentre dezenas que já proferi hoje, então...
Sakura’s POV off~
Fale com o autor