A Hóspede
37 O Quebra-Nozes despedaçado
Notas iniciais
Aí está um fresquinho, espero receber reviews.... Será que alcanço uns 140? Tenho leitores o bastante para isso.
^^
–Vou tentar, mas creio que sua mãe não vai sair daqui nem a base de seguranças! –Eu não posso ter ouvido direito.
–Como é que é? Minha mãe?!
–Senhora Tsunade, acertei? –Eu nem me dei ao trabalho de prestar atenção. O desespero tomou conta do ambiente. Como é que minha mãe cruza o oceano Atlântico só para vir no hospital de ver? Eu devia estar a beira da morte para ela fazer isso.
Quando ela chegou? Quanto tempo mesmo eu fiquei dormindo? Eu não me lembrava mais. Parecia que a conversa entre o médico e eu foi há dias. Era normal essa sensação de vazio e incompreensão? Aquilo ainda não me assustava mais do que a presença da minha mãe no meu país. A Inglaterra não é ali do lado, ela deve ter largado tudo lá(se é que ela tem algo ou alguém a esperando) para vir. Pegado aeroporto lotado por ser começo do ano. Turbulência no voo por causa das tempestades. Gastado muito dinheiro. Se perdido. Se estressado. Ela devia estar espumando de raiva de mim, só esperando eu me recuperar mais para poder me colocar em coma de novo, só que garantindo que dele eu não voltasse.
Minha mãe me dava medo, muito medo. Conheci esse lado sombrio dela quando passei pelas típicas fazes de rebeldia da adolescência. Quando comecei a sair como filho do patrão dela. Quando peguei o primeiro voo para cá por não aguentar mais a interferência dela na minha vida, mesmo depois de adulta. Ela cobrava de mim o que nem ela fazia. Ela me dava conselhos que não seguia. Ela era mais infantil e irresponsável do que eu, mesmo assim, eu sempre estive ali seguindo a risca os planos que para mim ela designou. Mas sabe quando você chega no seu limite? Me senti um fantoche dela ao perceber que tudo o que fiz e deixei de fazer na minha vida foi por causa dela.
Eu amava dançar. Adorava com cada gota de sangue que meu coração pulsava. Cheguei a conseguir bolsas em grandes academias, cheguei a dançar para plateias lotadas em grandes teatros de Londres, eu tinha uma carreira promissora, o que faltava era ela na primeira fileira para me assistir e se possível aplaudir. Ela nunca esteve lá. Sempre foi um espaço vazio. Quando consegui o papel de Clara, para o clássico O Quebra-Nozes, tive de largar tudo por não poder lidar com a frieza dela.
–Espero que seja algo sério para me tirar do trabalho. –Falou se sentando de fronte a mim em uma pequena lanchonete no centro. –Precisa de dinheiro? –Perguntou acendendo um cigarro.
–Não. –Respondi observando o isqueiro estranho que ela segurava.
–O que há? Diz logo! –Insistiu ao mesmo tempo em que chamava um funcionário do local, lhe pedindo café.
–Foi selecionada para fazer O Quebra-Nozes. –Falei confiante, quase deixando escapar um sorriso. –Como Clara. –Acrescentei.
Ela me olhou de relance, fechou os olhos e tragou duas, três, quatro vezes. Em silêncio. Irrelevante. Ela considerou como algo qualquer, como se fosse pequena coisa. Existiam centenas de bailarinas na Inglaterra, algumas dezenas da academia. Eu fui a melhor de todas elas, fui a mais competente e dançaria para toda a Londres em um teatro para milhares de espectadores. Não era pouco.
Era mais do que uma jovem de 22 anos poderia esperar de si mesma, mas não era suficiente para ela, que danço O Lago dos Cisnes em Nova York para um espetáculo mundial. Ela não queria que eu seguisse os passos dela, ela não queria que eu fosse como ela, ou tinha medo que eu a superasse. Eu não sabia. Só que em meio a uma vida inteira dedicada à ela, fazendo tudo o que ela desejava, ter uma frustração daquelas era como descobrir que todas as horas de treinamento árduo, calos, dedos quebrados, suor, fome e todas as dificuldades que bailarinas passam, foram vãs.
–Você não vai falar nada? –Insisti com lágrimas nos olhos. Ela voltou os olhos claros para mim como por obrigação, soprou a fumaça dos pulmões e disse:
–Esse café é horrível. E você só me fez perder tempo.
Não nos falamos mais normalmente desde esse dia, pois tivemos uma discussão feia e parei de fazer tudo o que ela queria por dó. Ela era depressiva por opção. Parou de dançar por opção. Não tinha direito de culpar ninguém pelas decisões que tomou após a morte do meu pai. Ela não superou. Nunca superaria, para ser bem pessimista. Quando não aguentei as crises de irrelevância dela, vim para cá. E em nenhum momento me arrependi de ter tomado essa decisão, a não ser agora.
–Ela mesmo. –Respondi aérea.
–Darei o recado. –Sorriu e enfim fechou a porta. Os passos foram se dissipando, tudo o que restou foi o som de meus batimentos cardíacos monitorados por uma máquina. A luz se apagou sozinha, mas ainda assim o quarto ficou parcialmente iluminado pelo corredor.
Sozinha naquele quarto gélido, uniforme, incomum, estranho. Estava sozinha. Não sabia se me sentia triste, não sabia como me sentia, mas uma vontade esquisita de chorar me tomou por inteira. Ao sentir o choro engasgando na minha garganta, ergui o máximo que pude minha cabeça e tentei amenizar todo o sentimento de solidão que preenchia o vazio que me rondava. Fechei os olhos e respirei, pensando em todas as vantagens de estar viva e poder recomeçar tudo do zero, mas não aqui. As lágrimas recuaram. Abri os olhos e acomodei-me no travesseiro.
Para onde eu iria? Poderia voltar com minha mãe para a Inglaterra, mas ia ter que arrumar um lugar para ficar e provavelmente numa pensão nos limites de Londres. Não queria isso. Qualquer país que fale inglês. Talvez pudesse ficar aqui mesmo no Canadá, Toronto, Montreal ou até Vancouver. Poderia alugar um pequeno apartamento nos subúrbios e talvez até arranjasse um bom emprego. É uma possibilidade.
Nem pensei em mais opções de lugares nem sobre o que eu faria, o sono tomou conta e então cedi. Estava exausta. Só não sei de quê. Era estranho me sentir tão desgastada. Talvez fossem as lesões, o efeito da morfina passando. Nesse caso, era melhor adormecer antes que a dor me atingisse.
Sakura’s POV off~
Os dias eram lentos, agonizantes, como se cada minuto custasse uma hora. Completava uma semana. Pareciam meses. Todos revezavam como podiam. Tsunade passava o dia todo no hospital, só saiam quando estava cansada demais para dormir nos sofás e corredores, ou quando queria fumar. No dia que Ino dançava, Hinata ficava no hospital e vice-versa. Naruto disputava o caso com Kabuto, no fim a superior do hospital dividiram os dois em turnos.
Naruto pediu transferência do hospital para qual trabalhava e decidiu se estabelecer aqui. Por causa do que? Ou melhor, por causa de quem? De mim, claro. Isso que me deixou inconformado, pois no fundo eu sei que ele largou tudo lá para ficar aqui e me dar apoio com toda essa história, mas puxa, ele podia ter me consultado antes de fazer isso. Por mais que tenha dito que já planejava vir morar no Canadá, eu não acredito que isso fazia parte de seus planos, pelo menos não tão em breve. Me senti responsável. Culpado. Péssimo. Mas ele é decidido, não vai mudar de ideia, nem se quisesse poderia. Não há mais o que fazer em relação a isso, então parei de me preocupar demasiadamente e direcionar minha atenção para quem realmente precisa.
Tive alta depois de quatro dias. Aparentemente as queimaduras eram mais sérias do que o doutor previra. Tomaram boa parte das costas, pescoço e braços. Eu tinha uma enfermeira que iria diariamente na minha casa pra trocar as bandagens e passar as pomadas e óleos anti-inflamatórios e estéticos, para não ficarem cicatrizes. Honestamente, eu não me importaria de ter um retalho de cicatriz nas costas. Nenhum pouco. Enfim. A enfermeira designada para cuidar das feridas nem se dava ao trabalho de ser levada à minha casa pois eu todos os dias estava no hospital. Desde que acordava até encerrar o horário de visitas. Ia para casa vez ou outra para tomar banho, colocar uma roupa limpa, ou saía para levar Ino e Hinata ao trabalho ou onde elas precisassem ir. Mesmo negando e fazendo bico, no fim elas concordavam, afinal, era o mínimo do mínimo que eu poderia fazer.
Tsunade tentou me matar inúmeras vezes depois do episódio do quarto, todas às vezes sendo detida por seguranças que já se previnem e fica conosco na sala de espera quando estamos juntos. Tentei buscar uma razão mais afável para todo esse ódio: ela está longe do seu país de origem, com a filha em coma e sem seus cigarros naturais. Ela só podia descontar em mim. Não nos falávamos. Eu era tão orgulhoso quanto ela, nem se quer um bom dia, boa noite ou ‘aceita um café?’. Não sou de correr atrás de pessoas. Ou melhor, eu corro atrás, mas de quem eu sei que vale a pena. Você sabe de quem eu falo.
Eu tento não lembrar nem me preocupar com o ocorrido ontem. Tentei me manter discreto. Ainda assim, a mãe-monstro de Sakura percebeu que quando eu voltei do quarto de dela estava um tanto quanto ávido. Ela não perguntou. Eu não comentaria. Avisei Naruto que estava indo para casa e fui direto para o carro. Lá dentro, enquanto Naruto não chegava, deixei minha cabeça cair pesada no apoio do banco e me permitir sorrir aliviado pela primeira vez em dias. Não percebi quando um filete de lágrima desceu dos meus olhos deixando uma trilha quente no meu rosto pálido demais. Naruto entrou no carro e como esperado decifrou-me com uma só olhada. Sorriu. Eu o acompanhei. Estendeu a mão grossa e máscula para mim e então apertei, não achando suficiente. Ele novamente me decifrou e me puxou para um terno abraço, então, deixei mais algumas lágrimas se refugiarem nos ombros dele.
Eu estava feliz por tê-lo ali comigo.
Nem percebi quando passei na frente do hospital distraidamente. Fiz o retorno e entrei no estacionamento reservado. Saí do carro e antes de travar a porta, fui abordado violentamente, ou seja, me pegaram por trás e me jogaram na superfície do carro me machucando em alguns pontos.
Notas finais
Comentem! Me instiguem! A história já está nas retas finais, mas posso cancelar a qualquer momento por falta de incentivo.
Obrigada!
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