A Hóspede
38 "Geralmente faço besteiras maiores do que essa"
Notas iniciais
-Tava louca para te dar uma surra! –Falou com a voz rouca e aromatizada pelo fumo. Percebi que, mesmo fumando, ela continuaria me odiando. Seja no Canadá, na Inglaterra ou no raio que o parta. Ela iria querer ter meus testículos arrancados.
-Você não se cansa? Não pode simplesmente me deixar em paz? –Ela então pegou meu cabelo, puxou para trás e bateu minha cabeça na parte superior do carro. Precisei de uma coleção de minutos para constatar se continuava consciente. Aquela velha era realmente violenta. E não parecia assim tão velha como era de fato. Essa era a minha raiva. Ela não podia ser uma coroa normal? Ela precisava ser tão agressiva e ter peitos tão grandes? Ela parecia o Thor!
-A Sakura acordou e você não me falou nada!
-Quem tem que dar informações sobre o estado da Sakura são os médico e não... Ah!!! –Ela deu uma joelhada no meu cóccix que me fez arfar. Eu me perguntava por que não batia nela. Ela aguentaria um soco, mas eu não aguentaria conviver com o fato de que bati em uma mulher, ainda mais a mãe da Sakura. Ela nunca me perdoaria.
-Vamos começar de novo. –Jogou minha cabeça para trás. –Por que não me falou nada?
-Se não percebeu, não falamos nem bom dia um para o outro. –Falei calmo. Tentando recuperar o fôlego e juntar bons motivos para não socá-la.
-Ia cair sua boca se me dissesse que ela acordou?! –Gritou.
-Ia cair sua boca se você conversasse comigo em vez de me abordar igual a uma marginal?! –Falei grosso, mas mantendo meu volume.
Depois de um tempo ela bufou e me largou gentilmente do jeito gentil dela de ser. Passei a língua pelos dentes para saber se estavam todos lá. No meio disso percebi algo escorrer pelo meu rosto, nem pensei muito para saber que era sangue. Que legal. Um corte na testa. Vou ficar lindo, parecido com o Harry Poter. Obrigado, Tsunade!
-Você tá com um corte horrível na testa, condenado. –Falou acendendo um cigarro.
-Jura?! –Ironizei entrando no carro em busca de algum lenço no porta-luvas. –Porque eu estava achando que menstruaram na minha cabeça!!! –Me alterei ao ver o estrago no espelho retrovisor, e por ele mesmo ver Tsunade jogando o cigarro e vir em minha direção. -Estou apanhando de você por cavalheirismo, mas agora minha cota de paciência com você se esgotou. Dá próxima vez que avançar em mim, eu não vou ficar parado. –Ela parou cerca de um metro da porta aberta com uma expressão séria. Se eu soubesse que seria tão fácil fazê-la me respeitar teria tido essa conversa antes.
-Você não teria coragem. É do tipo que bate e pede desculpa.
-Você não me conhece. –Falei por fim, fechando o carro e indo em direção ao elevador.
-Espere aí. A gente não conversou. –Me virei entediado.
-O que quer?
-Explicações. –A olhei zombeteiro. Pensei. Pensei. E ri. –O que tem de tão engraçado?
-Você. –Seu cenho se voltou em fúria. –Me bate, me xinga, me exige explicação...
-Sakura só quer ver você. Mais ninguém. –Aquilo me chocou. A Sakura queria me ver? Esperava de tudo ao chegar ao hospital, menos que ela fosse me querer por perto. Querer me ver, ainda mais exclusivamente, com a mãe e amigas aqui. Quem eu era na vida dela? Um nada. Um fragmento. Representava uma falha no caminho dela que a fez tropeçar e estar onde ela está hoje. Se eu tivesse vergonha na cara eu nem viria aqui mais. Porém, não poderia ficar na minha casa, ver os seriados reprisados, tomar cappuccino e comer pratos congelados enquanto a minha garota está internada. Eu simplesmente não conseguia.
Mas por que eu?
-Quero saber que diabos você é dela para ela querer apenas você por perto depois de quase morrer por culpa sua! –Sua voz era ríspida, mas mantinha um tom aceitável.
-Não sei... –Respondi baixo, incerto. Aquela era uma pergunta dolorosa. O que éramos? O que eu era?
-Como assim não sabe? Eu quero respostas! –Se alterou. Sabia que não ia demorar para ela berrar. –Você a engravida, paga plano de saúde pra ela, faz tudo por ela e não sabe ainda o que representa? Que espécie de idiota você é? Tá apaixonado pela minha filha ao ponto de fazer tudo isso, ou só está agindo como um bom moço por remorso?
-O-o que? Remorso? –Perguntei confuso.
-Sakura só saiu louca com aquele carro por sua causa! Se não fosse você ela estaria bem e eu estaria no meu país!
-E acha que eu não sei disso? Acha que quando eu volto pra casa toda noite eu consigo dormir sabendo que talvez ela nunca fosse acordar por minha causa? Acha que eu não sinto culpa ao lembrar que eu sou a causa de tudo isso? Isso dói mais em mim do que em qualquer pessoa!
-E eu que sou mãe dela? Como espera que eu aja recebendo notícias de minha única filha sofreu um grave acidente e corre risco de vida? Como acha que eu me senti? Larguei tudo em Londres e peguei o primeiro voo para cá só para poder estar ao lado dela, chego aqui, nem no corredor eles me deixam passar! Eu só quero poder vê-la! Ver como ela esta, poder tocá-la e me desculpar antes que seja tarde demais. –Engoliu um seco. –Quis esganar quem a colocou nessa situação. Ainda quero! –Me olhou cheia de ódio. –Tive mais raiva quando me informaram de que ela perdeu o filho de uma gravidez que eu nem tinha consentimento! Quis matar o filho de uma puta que fez isso com a minha Sakura! Ainda quero te matar, seu cretino! Só não faço isso porque Sakura ama você, ou não estaria exigindo vê-lo ao invés das amigas e da própria mãe! –Falou e começou andar de um lado para o outro, bufando e sussurrando ofensas que eu não podia ouvir.
-Talvez ela não me ame. Talvez, ela apenas preze mais minha companhia do que a do resto. –Ela me olhou pela primeira vez com a expressão neutra. Continuei. –Eu amo a sua filha. –Falei seguro. –Amo o suficiente para ficar o resto dos dias da minha vida no hospital para esperar notícias dela. Se você não me matar. –Ela riu e desviou o olhar com desdém. –Conheço a Sakura há tão pouco tempo que nem se quer de amigo eu posso ser chamado. Sou apenas alguém que se encantou por ela.
-Que gay! –Pegou o cigarro que havia jogado no chão e colocou de volta na boca. Higiene também não era com ela.
-Que inveja! –A deixei lá e subi o elevador. Não movi um músculo para evitar que a porta se fechasse quando eu a vi se encaminhando para o mesmo. Sim. Eu vou começar ser o velho Sasuke de sempre. Frio e antissocial.
Como é bom estar em casa... Agora me sinto bem. Renovado. Em paz com o velho Sasuke Uchiha de antes.
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-Pode entrar. –Autorizou o doutor.
Demorei um bocado só para tocar na maçaneta. E girei, abri a porta e automaticamente meus olhos se viraram para ela, como faziam todos os dias quando eu vinha visitá-la. Ela nem se quer uma ver tornou os olhos para a porta, estava concentrada na tevê no canto da sala. A luz estava muito baixa, a enfermeira disse que Sakura preferia assim, então não discuti. Estava sentindo muitas coisas, sem saber exatamente o que eu sentia. Sem saber o que fazer, o que dizer, o que pensar... Estava perdido e já me arrependia da ideia de ter vindo vê-la antes de todos. Fiquei parado em frente a ela, a fitando com um turbilhão de pensamentos. Ela não se dirigiu para mim em nenhum momento, continuava presa a tevê.
-Esse filme é simplesmente perfeito. –Comentou. Olhei para o televisor, já passava os créditos sobre um jazz moderno que não me agradava. –São sobre conhecidos de infância que se encontram depois de anos e decidem ficar juntos, mas sem compromisso. –Sorriu vendo outra programação. –No fim eles se apaixonam. Como o esperado. Isso é a uma prova de que amizade-colorida não existe, não acha? –Fiquei calado. Estava desconcertado demais para me pronunciar, então deixei meu olhar cair aos meus pés calçados com um Puma lustroso. –Isso te faz lembrar algo? –E no momento em que decidi olhar para ela, ela decidiu olhar para mim e o atrito de seus olhos esverdeados venceu o os meus opacos. Estremeci. –Por que não diz nada?
-O que eu poderia dizer?
-O que tem feito? –Perguntou depois de um tempo. Andei um pouco pela sala e por fim me sentei a uma cadeira ao seu lado.
-Passo o dia todo aqui no hospital. –Disse. Ela pareceu se entristecer, ainda assim continuou.
-E quando não está aqui?
-Tenho pintado. –Falei entre dentes, sabendo onde aquela conversa chegaria.
-O que tem pintado? –Perguntou com uma feição harmônica e interessada. Eu não queria falar pois certamente ela diria que eu estaria fazendo cena, ou se não pensaria isto. Não era. Por pior que isto seja, não era.
-O seu quadro. –Engoli um seco e voltei meu olhar para ela. A harmonia do seu rosto tinha se quietado, dando lugar para um misto de surpresa e compreensão.
-Não acho que tenha mais sentido aquele quadro.
-Agora faz mais sentido do que nunca antes. –Disse. –Pelo menos para mim.
-Você disse que não tinha certeza se iria terminá-lo.
-Agora eu tenho.
-Por que? –Porque eu te amo. Quis responder, mas as palavras não saíram. Eu simplesmente fiquei mudo, sem responder nada, apenas olhando para minhas próprias mãos que não se continha de nervoso. Logo Sakura desistiu e puxou outro assunto. –Esse hospital é ótimo! Muito obrigada, muito obrigada mesmo por estar cuidando de mim! –Falou sorrindo limitadamente para os lábios secos não se racharem, mais do que já estavam.
-Kabuto e Naruto que estão cuidando de você.
-Posso facilmente incluí-lo na lista. –Sorriu me olhando profundamente. –Eu conheço esse olhar. –Disse. –Da noite do Constantine. Lembra? –Riu. Não pude deixar de acompanhar. –Eu achava que você era gay. Ainda tenho minhas dúvidas! –Eu a olhei incrédulo, porém minha cara deve ter sido cômica por a fez rir mais. –Pensei que eu nunca mais veria esse olhar. –Novamente fiz um silêncio pairar por um bom tempo. Então ela desligou a televisão com uma feição mais séria e realista. Era estranho olhar aquele rosto sem cor, ele dava vida as todas as suposições desagradáveis que eu adquiria sobre o real estado da Sakura. Era real?
Em um dia estamos transando no escuro, em um outro estamos nos beijando em um parque e agora estamos em um quarto de hospital sem saber ao certo o que dizer um para o outro.
-Por que está tão tenso? –Perguntou-me.
-Me sinto responsável.
-Por isso? –Perguntou com desdém. –Quem pegou o carro e saiu igual a uma retardada foi eu.
-Por minha causa.
-Porque eu quis! Eu poderia muito bem expulsá-lo de casa, xingá-lo, estapeá-lo, me matar de chorar e outras infinitas possibilidades. Mas resolvi fazer manha e agir como uma adolescente em crise. Isso não é culpa sua.
-Eu não devia ter... negado o que você havia me dito.
-Realmente não deveria, mas negou. Se você tem que se sentir culpado é por ter me julgado e rejeitado uma vida que nem havia sido iniciada. Esse foi seu erro. –Dei de ombros.
-Ainda assim você não vai esquecer isso. –Ela assentiu compreensiva. –Então para mim dá na mesma de toda a culpa ser minha.
Silêncio.
-Se lembra da noite da tempestade? –Sorri me lembrando vagamente. Parecia ter sido há anos atrás o que foi a cerca de dois meses anteriormente. –Lembra de uma das coisas que disse?
-Tirando a acusação de que eu era gay?
-É! –Confirmou rindo. –“Geralmente faço besteiras maiores do que esta”! –Sorri. –Devia levar meus avisos a sério.
-Lembrarei de considerar casa aviso que der! –A empolgação dela se desmanchou gradualmente. O que havia de errado? Quis perguntar mas não me sentia no direito. Me considerava um intruso na vida dela. Ou até mais do que isso.
-Sabe, Sasuke. –Começou. –Acho que isso não será mais necessário. –Falou distante, aérea, sem foco direto em mim ou naquela conversa. Era como se ela andasse por um jardim de ideias loucas e analisasse quais eram as mais favoráveis. –Acho que apesar de tudo, essa história já deu o que tinha que dar. -Eu não fiquei surpreso. –Quando as coisas não são feitas para darem certo, elas não darão certo, não importa o que façamos, somos melhores sendo nós mesmos. –Permanecia com minha expressão de sempre. –Você como o Sasuke pianista vestindo roupas caras, eu a garota dos dois empregos indignos. –Sorriu com o rosto avermelhado por conta de um breve choro. –Talvez, nossa felicidade esteja em nossa solidão. Talvez nós sejamos realmente felizes com nossas dores.
-Eu definitivamente não sou.
-Você não pode cuidar de ninguém estando ferido, Sasuke. Não importa o que diga, você não pode. Nem eu. –Abaixou o rosto, sobrando e desdobrando as bordas do lençol. –Somos dois incompletos, recipientes vazios de más lembranças. É como somar zero mais zero. É inútil. É desgastante. –Olhou para os lados com os olhos marejados. –Eu estou vivendo a melhor época da minha vida e não quero que frustrações me deixem para baixo.
-Como assim?
-Eu não quero ninguém que me decepcione. –Deixou-se levar e chorou. –Eu só quero construir minha vida a partir dos meus esforços, viver o que eu deixei de viver por todos esses anos e rir. –Riu, ainda com lágrimas escorrendo. –Quero rir de situações como essas e não ficar desconsertada por não saber o que dizer ao homem que fez eu me sentir amada. –Abaixei a cabeça tolerante com tudo o que ela queria dizer. Não tinha em que contestar e, com certeza, ficaria um tanto confuso caso ela me recebesse com beijos e ‘eu te amo’. Infelizmente, eu concordava, pois sabia que não tinha alternativa mais cabível a não ser nos refugiar em nossas tocas. –É complicado.
-Eu sei. –Falei distraído.
-É complicado ter que deixar alguém que se ama por proteção a si mesmo. –Normalmente as pessoas chamam isso de amor-próprio. –Eu não menti quando disse que te amo, Sasuke. –Falou sorrindo. –É bem improvável, eu sei, mas veja, não foi uma escolha, foi de repente. Me pegou de surpresa, num susto e felizmente me liguei que não estou pronta para amar alguém, nem em posição de ser amada, então...
Me levantei rapidamente, com ambas as mãos em frente ao rosto, tentando me conter para não soltar um palavrão grotesco e disse um breve ‘entendo’. A olhei por uns segundos, tentando gravar na memória cada detalhe do seu rosto. Sorri. Me virei. Girei a maçaneta. A ouvi me chamar.
-Hey! –Ainda segurando a porta, me virei entediado. –É esse nosso adeus?
-Esperasse um beijo e um ‘eu te amo’? –Perguntei zombeteiro.
-No mínimo um ‘eu gosto de você’. Ficaria feliz.
-Você é feliz na sua solidão. Vou tentar ser feliz na minha.
-Você é péssimo em despedidas.
-Só acho que já deu para mim. Esse é meu limite, Sakura. –Falei pausadamente. Ela acenou afirmativamente e então saí meneando a cabeça para os lados inconformado e ao mesmo tempo compreensível. Eu ia ficar bem. Eu precisava ficar bem. Na verdade, já havia me preparado para algo muito pior. Isso só me adiantava que depois de tudo eu sairia praticamente ileso, sem sequelas ou traumas por ter fracassado novamente.
-E aí? O quê que conversaram? –Perguntou Ino. Passei reto.
-Constantine. –Ela não me seguiu nem tagarelou. Me deixou ir. Por um momento pensei que o sexto sentido sobrenatural dela havia captado algo, mas desisti da ideia quando ela começou gritar como uma doida que Sakura e eu havíamos transado.
Não fiquei nem um pouquinho envergonhado, imagina!
-Não vão mais se ver? –Perguntou a loura agressiva encostada no meu Sonata, apagando as brasas do cigarro no capo encerado e lustrosos, intencionalmente para estragar com minha tintura. Maldita. Essa mulher parecia o cão em uma versão siliconada. E bonita. E mais cruel.
Entrei no carro sem dar atenção à ela que fez questão de sussurrar ‘quem cala consente’ através do vidro preto. Mostrei o dedo do meio dando partida. Chega de Tsunade. Chega de enfermeiras promiscuas. Chega de hospitais. Chega de tudo. Me permiti relaxar por uns minutos ao som de música country canadense, mas o efeito não tinha sido bom.
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