A Hóspede

39 Entre amigos


Notas iniciais
-Bom, dessa vez eu fui rápida né? Estava com tempo livre e muita inspiração para escrever. Estou a mil com essa fic, já tenho outra em mente mas não pretendo postá-la tão cedo. Afinal isso é cansativo e toma muito tempo .
Quero agradecer aos reviews, obrigada por atenderem ao meu pedido. Responderei todos quando der, por hora fiquei com esse capítulo.

Quando cheguei em casa me deitei no sofá com o antebraço sobre os olhos e revisei minha conversa com a Sakura. Cada palavra. Cada gesto. Cada coisa minimamente relevante eu tentava memorizar na minha cabeça para eu nunca esquecer o quão ela foi especial para mim, mas já passava da hora de desapegar-me dela.

Tomei um banho, comi, assisti tevê, chequei a minha caixa de e-mail que já estava transbordando de mensagens da gravadora e do meu empresário, Kakashi. A caixa postal do meu telefone estava lotada de mensagens do Kakashi furioso implorando para eu responder seus e-mails e telefonemas. Eu me perguntava por que Naruto não atendia esses telefonemas e anotava os recados, afinal, ele era da casa agora, não tinha que haver restrições entre a gente.

Já era tarde quando entrei no ateliê. A luz do cômodo estava magnífica, graças ao fim do inverno. Se tinha algo que eu gostava dessa estação, era a luz e silêncio que ela proporcionava. As árvores nuas já estavam descobertas das espessas camadas de neve que acumularam, os pássaros voltavam aos poucos, mas estavam quietos. Estalagmites de gelo derretiam mais rapidamente a cada dia que passava, assim como a necessidade de muitos agasalhos era dispensada. Primavera. Já estava chegando, não tão rápido, não tão devagar, estava apenas se deixando levar e me proporcionando alguns instantes de reflexão sobre algo mais magnífico do que minha vida.

Tirei o lençol que cobria o quadro e o admirei sob a luz cremosa do fim de tarde. Parecia que ela estava ali. Ainda não havia terminado, demoraria ainda algum tempo para finalizar, mas os traços estavam todos completos, o fundo já estava pintado, mas ela permanecia monocromática, com exceção dos lábios. Misturando restos da tinta que usei para fazer o fundo, descobri um rubro excêntrico que decidi atribuir a sua boca e ficou um bom resultado, mesmo sem os devidos sombreamentos.

Eu estava me dedicando ao quadro, pois era a última coisa que me ligava a ela e, embora eu estivesse decidido a seguir adiante conformado com o fim previsível que tivemos, eu não poderia me dar ao luxo de simplesmente esquecer ou fazer descaso de algo tão intenso como ela. Eu não iria. Não poderia. Nem gostaria. Eu sofreria mais se não tivesse nada dela, como se a passagem dela pela minha vida fosse um detalhe que poderia facilmente ser desconsiderado e perdido ao passar dos anos. Ter a imagem dela traçada por minhas mãos, ao meu alcance imortalizando a presença dela, isso sim era meu remédio, era a minha sustentação para esquecer que a amei, e ainda amo.

Eu iria seguir em frente com foco. Voltar ao ritmo pacato e entediante da minha vida e estaria satisfeito, porque não estava mais sozinho, tinha o Naruto, tinha meu irmão inconsciente sendo trazido para o Canadá para ser cuidado por Naruto, por uma excelente equipe médica e por mim. Eu estava satisfeito. Estava muito satisfeito. Sabia, de alguma forma, que minha vida dali para a frente seria mais valorizada por mim, principalmente. Sentia como se agora as coisas tivessem um sentido, como se a solidão e o passado fossem apenas um detalhe e que tudo ficaria bem, finalmente.

De alguma forma eu sabia e tinha razão o tempo todo.

_.o0o._

1 ano depois

Acordei com algo se pendurando nos meus dedos. Não precisei pensar muito para saber que era o maldito gato do Naruto brincando com o meu relógio. Não me movi. Esperei a primeira oportunidade e agarrei a pata peluda dele o jogando longe. Nem me virei para ver onde ele tinha parado, mas deixou o quarto com miados irritantes e meu braço com arranhões. Ainda me perguntava por que aceitei essa criatura chata aqui em casa. A qualquer momento eu mataria esse gato de tanto jogar ele pelos ares.

Lavei o rosto e fui malhar, nem dei as caras no outro lado da casa pois sabia que o romantismo por lá já podia ser palpável. Naruto namorava Hinata já completara sete meses, estavam em um relacionamento mais firme e sério do que eu poderia cogitar. Quando Naruto me disse que havia a pedido em namoro, internamente, dei uma risada maldosa e cronometrei as horas que isso ia durar. Pois é. Depois de um mês de compromisso, tenho que confessar que Naruto ganhou o meu respeito.

Hinata dorme aqui frequentemente nesses últimos meses, não que eu me importe, mas me sinto um intruso na minha própria casa porque minha relação com ela não é muito agradável. Falamos um com o outro o necessário. Nada além disso. Esta é uma atitude quem vem tanto dela quanto de mim, já tem ideia do porque, né? Diferente de Ino que, independente de tudo, manteve uma amizade saudável comigo. Quando Naruto faz festa, ela sempre vem e me faz companhia, já que sou pouco sociável e prefiro ficar no meu ateliê do que no meio dos amigos de Naruto que só sabem falar sobre carne humana, sangue, órgãos, partos e etc. Me sinto um peixe fora d’água, mas é sempre bom saber que os 25m² da casa servem para alguma coisa. É bom saber que Ino também sirva para alguma coisa além de falar muito.

Fui para a cozinha tomar café, já topando com Naruto e Hinata de carícias. Daqui uns dias é bem provável que eu os encontre transando, pois tem noites que posso ouvi-los. De qualquer forma ignorei, abrindo a geladeira atrás do meu leite.

-Bom dia para você também, Teme! –Falou Naruto com uma caneca em uma das mãos e Hinata na outra.

-Bom dia.

-Tá mais mal humorado hoje? –Perguntou pegando para mim uma caneca limpa.

-Cansado.

-De que? –Perguntou Hinata. Nem me mexi, só a encarei com o pior olhar que eu tinha e ela me devolveu uma mesma dose de sarcasmo e provocação. De certa forma ela tinha razão, eu trabalhava em casa compondo, não devia ser cansativo, mas depois da premiação da Alemanha e das semanas que ignorei totalmente a gravadora, o trabalho acumulou, adquiri clientes novos e mais exigentes e atualmente eu já faço cerca de quatro músicas por mês. Algo que eu fazia em um semestre. O salário triplicou, porque peguei artistas renomados e de quatro músicas que produzo, três vão para o top de mais baixadas no ITunes. Isso é bom, alimenta meu ego, fora isso, não releva nada a minha vida.

Minha conta está lotada, os juros são altos , estou quase milionário e não sei o que fazer com esse dinheiro todo. Naruto o administra. Ajuda instituições e organizações sem muitos patrocinadores, ao todo são três, apenas 3% dos lucros são voltados para nós, ou seja, Naruto, porque eu não quero mais dinheiro inútil. Hinata conseguiu emprego em uma das organizações, creio que voltada para educação e meio ambiente, não sei ao certo. Naruto me disse que ela está tão bem lá que já comprou a própria casa e um carro(eu dei um carro novo para ela, igual ao que ela tinha e ela recusou). Bom para ela. Trabalhar em cafeteria e em bares não é lá o emprego dos sonhos de ninguém.

-Hinata, não provoca... –Falou Naruto beijando o pescoço pálido da morena. Revirei os olhos. Tomei o leite gelado em dois goles e saí da cozinha. -Sasuke. –Chamou o loiro. –A Hinata tem algo para te dizer...

-Eu?! –Me virei entediado olhando para Hinata o mais sereno possível.

-Fala, bê! –Ela suspirou e começou, envergonhada.

-O aniversário da Ino é hoje à noite e ela mandou eu chamá-lo...

-Por que ela mesma não me ligou?

-Ela te ligou, mas você não atende números restritos! –Falou se contendo. Outra coisa que ela tinha razão. Eu não atendia nenhum número que não fosse do trabalho, do Naruto ou de Itachi. Eu atendia a empregada às vezes. –Enfim. Ela mandou eu chamá-lo.

-Diga à ela que muito obrigado, mas vou estar ocupado. –Me virei de volta para a sala.

-Vai estar ocupado com o que? Vendo South Park? –Agora era Naruto. Me voltei para ele e me convenci de que esta era a última vez no dia.

-Naruto, você sabe muito bem como eu sou e...

-Você é um vacilão! Puxa, a Ino é sua amiga!

-Eu vou providenciar um presente para ela.

-Ela quer você lá, e não um presente com o seu nome no cartão. –Disse Hinata. Suspirei pesadamente.

-Onde vai ser?

-Na minha casa.

-Quem vai estar lá?

-Exatamente a pessoa que você supõe que lá esteja. –Falou com a expressão impassível, como se estivesse entediada com aquele diálogo. Até eu estava. Ambos sabiam que eu não daria as caras lá, nem se dissesse que apareceria. Fiquei em silêncio, com os olhos fechados, tentando me concentrar em uma resposta convincente.

Sorri zombeteiro e meneei a cabeça em sinal positivo. Me virei novamente e peguei caminho para o lado oposto da casa. Naruto me chamou de volta, mas como disse, aquela era a última vez que eu ia hesitar de fazer o que eu queria para ouvir banalidades deles dois. Segui até a academia, tirei a camisa e comecei correr na esteira.

-3, 2, 1... –Sussurrei.

Naruto adentrou o cômodo e fechou a porta atrás de si com tamanha brutalidade que por uns segundos senti medo do que ele poderia fazer comigo.

-Agora você vai me ouvir! –Falou se aproximando, parei a esteira e me pus a encará-lo. –Até quando pretende bancar uma de otário? Eu já vi gente infantil e orgulhosa, mais você é o cúmulo de tudo que existe! –O olhei com fúria.

-Você não me entende! Para você tudo veio fácil e permaneceu, você não sabe como é encarar as coisas depois da vida toda só ter quebrado a cara!

-Sasuke, você tem vinte e seis anos! Não é mais um garoto na puberdade! Você é um homem, Sasuke! Aja como um, caramba! –Chutou uma caixa. Estava vermelho de fúria.

-Você acha que pode falar comigo assim só porque me conhece! Isso não quer dizer que você entenda meus motivos!

-É tudo viadagem sua! Frescura! Orgulho! Tá fazendo cú doce! –Gritou. –Isso já tem mais de um ano, Sasuke!

-Não! Trezentos e cinquenta e oito dias. –Disse. –Eu sempre contei.

-Viu?! É isso que me deixa puto da vida! Você quer convencer Deus e o mundo de que superou isso mas não consegue enganar nem a si mesmo! Como você consegue conviver assim por tanto tempo?

-Eu não consigo, droga! –Gritei o empurrando. –Eu não consigo! Dá para fingir que eu superei?! Será que é tão difícil assim?!

-É! É mais do que difícil! –Me empurrou mais forte. -É difícil de entender por que de você agir assim! –Me empurrou de novo, dessa vez me derrubando. –É difícil entender por que você insiste é fingir que está tudo bem, como se ela nem existisse, ou se existe para você, é uma bloqueio a ser evitado! É difícil entender por que você ainda pinta aquele quadro sendo que tem repulsa de ouvir o nome dela!

-Cala a boca!!! –Me levantei o socando. Ele recobrou as forças e me socou a barriga duas vezes me fazendo cair arfando de dor.

-Sakura! Sakura! Sakura!

–“Não fale dela! Nunca! Pela nossa amizade! Pelo respeito que temos um pelo outro! Pelo meu próprio bem! Não profira o nome dela!”, se lembra disso? Você prometeu! –Joguei uma garrafa de água nele, que esquivou, me dando tempo para levantar e empurrá-lo nas barras. Ele me deferiu outro soco, no maxilar dessa vez, me deixando tonto e desnorteado. Caí no chão derrotado. Ele me chutou. Me arrastou e me levantou, apoiando-me na parede para olhá-lo nos olhos.

-Você é um covarde! Um otário! Um ingrato, pois Deus te deu tudo em dobro! Deus fez de você um cara maravilhoso, mas só não te deu inteligência! –Gritou na última frase. Eu mal conseguia ficar com os olhos abertos. Queria matar Naruto. –Já se passou um ano que você só evita isso, sem interesse algum em saber se ela está bem, se está doente, se está trabalhando, se está morando ainda com a Hinata, se está namorando, se casou...

-Não me interessa! Não quero saber! Não tem mais por que eu querer algo dela!

-Você a ama, seu filho da puta!!! –Bateu minhas costas na parede. –Você precisa dela! Você só vai estar bem com ela! Não entende isso?! –Abaixou a voz. –O quê que você está esperando para correr atrás dela e dizer como se sentiu por todo esse tempo em que ficaram sem se ver, sem se falar nem nada? Está esperando que ela arranje outro? Que vá embora? –Mirei a íris azul.

-Ela não precisa de mim. –Falei.

-Como você sabe?

-Ela me disse, no hospital...

-No hospital! No hospital! Da para esquecer do acidente? Dá para esquecer do que ela te disse? Já passou um ano! Em um ano muita coisa muda! Ela mudou! Mudou muito...

-Não quero saber!!! –Me alterei.

-Não me interessa que você quer ou não saber! É fato! As coisas mudaram, só você está aí, rabugento, velho, chato e sozinho! Eu não vou estar aqui para você a vida toda! Eu vou me casar com a Hinata, quero construir uma vida com ela e não vai ser aqui, na sua casa, com você. –Se acalmou um pouco. –Não posso mais abrir mão da minha vida por você Sasuke. Já fiz demais.

-Eu nunca pedi para você sair de Ohio e vir para cá!

-Eu tinha consciência de que você precisava de mim por perto e agi conforme todo amigo devia fazer, mas eu não vou ceder minhas vontades e decisões por alguém que não quer nada com nada! –Se afastou. –Eu nunca imaginei que fosse precisar agir com você um dia, assim como nunca me imaginei presente em uma situação como essas. –Passou a mão pelos cabelos louros. –Se tem uma coisa que eu imaginei, foram quantas outras dezenas de vezes você deve ter agido assim. Quantas outras vezes eu não estava aqui para, não sei, de repente deixá-lo mais calmo. Pensei que com eu por perto, com o Itachi aqui em Ottawa e tudo mais você voltaria a ser aquele Sasuke do colegial. –Sorriu. –Aquele que era idolatrado por mim e pelas meninas do ensino médio! –Dei de ombros. –Vai dizer que não gostava daquela época? Cabulava aula para desvirginar as lideres de torcida na sala de livros didáticos.

-Só foi uma vez! –Corrigi.

-Sim, as outras foi na sala de produtos de limpeza. Ah, se lembra quando o porteiro pegou você e aquela garota meio lésbica atrás da cantina? Qual era o nome dele mesmo?

-Para!

Ele se dirigiu para a porta da academia, mas parou encostado no batente me olhando. Desviei dele tentando não parecer tão machucado e tocado com aquela maldita conversa. O pior era que ele me conhecia demais para apenas ignorar tudo isso. Havia sentido em suas palavras, e socos e chutes ou seja lá o que ele fizer comigo, é tudo para o meu bem, disso eu sei, mas não é o que eu quero, não é o que eu preciso. Não me sinto o mínimo possível instigado a ir para o aniversário de Ino e topar com ela lá. Como eu ficaria? Como eu reagiria? Como nós iríamos reagir a isso? É demais para mim.

Eu sinto como se ela estivesse esvaecendo de mim aos poucos sem me deixar gravemente transtornado por sua participação rápida e intensa pela minha vida. Para que colocar tudo a perder correndo o risco de vê-la novamente? E se ela me ignorasse? E se estivesse com outro? E se minha presença a incomodasse? O que eu faria? Se fosse para eu ir nessa festa de Ino, desejar-lhe os parabéns e ir embora, era muito melhor eu permanecer na minha casa, vendo South Park e escolhendo um bom presente para ela em uma loja virtual. Eu não precisava, nem gostaria, de me dar ao trabalho de constranger-me com um inconveniente. Sem contar que, como eu ficaria lá sozinho?

Naruto ficaria com Hinata. Minha companhia em todos os encontros sociais que acontecem é a Ino e, sendo aniversário dela, ela não ficaria confinada em um ateliê comigo aprendendo tocar Bad Romance no piano. Eu não iria.

A conversa, discussão ou briga agora pouco só me serviu de uma coisa: me deixar cheio de hematomas e ódio do Naruto por falar de coisas das quais eu faço o impossível para evitar. Do resto, não tem nada a aproveitável que eu possa aplicar no meu modo de agir, pensar ou viver. Eu estava fadado a essa vida e nem Naruto poderia me libertar disso.

-Aparece lá. Pela Ino. –Rogou com a voz rouca e controlada. Depois de fazer um silêncio na esperança dele ir embora, me permitir dizer ‘Verei’ com menos firmeza do que qualquer outra coisa que eu tenha dito a ele. Se Naruto me conhecia bem o suficiente, saberia traduzir isto como um ‘Não vou dar as caras lá’.

Notas finais
-Deixem reviews, assim vou postar mais rapidamente.
Beijos!
Espero que gostem.