A Hóspede
28 Mais do que uma hóspede
Notas iniciais
Fiquei sem reação, só conseguia olhar em seus olhos claros e perturbados e pensar milhões de coisas. Queria falar algo, acabar com todo esse acanhamento, mas minha voz não saia e minha boca não se atrevia a mover um músculo, a não ser para beijá-la. Seu rosto era encantador, ela era uma garota linda. Ela me conserva na palma de sua mão, me faz calmo ou me tira a paz. Eu realmente não sei dizer o que ela faz comigo.
-Olá. –Comecei depois de todo o silêncio que havíamos preservado.
-Olá. –Respondeu a cortesia olhando para os lados, inconfortável com a minha presença, de certo.
-Feliz Natal. –Estendi as rosas e forcei um sorriso, o que foi uma tentativa fracassada.
Diferente de mim, ela deu um sorriso espontâneo, automático, murmurou algo semelhante como um ‘obrigada’. Assim considerei. Olhou para as rosas com ternura e sentiu seu aroma. Sua expressão foi tão amena que por um instante pensei que uma lágrima desceria por sua face. Até me preparei para abraçá-la, mas a lágrima não desceu. O que veio abaixo foi uma pequena mecha de cabelo que na mesma hora ela guardou atrás da orelha, inconscientemente. Isso me fez querê-la.
-Eu... –Começou sem jeito, olhando para as rosas. –Não imaginei que iria te ver hoje , não tenho nada de agrado. –Explicou ansiosa.
-Se puder me dar o resto do dia, eu agradeço. –Falei e ela sorriu, olhando em meus olhos. Considerei aquilo um ‘sim’.
Ela foi até o balcão e falou algo para uma mulher alta, de cabelos pretos e ondulados. Pelas vestimentas distintas da de Sakura, suponho que era gerente. Em seguida, a rosada desamarrou o avental e entregou à mulher. Seu uniforme era um tanto provocante para uma garçonete.
-Creio que não haverá um momento melhor para conversarmos se não for este. –Falou mais calma. Sorri, desta vez sem esforço, então ela passou por mim, soltando os cabelos lisos do coque em que se prendiam. Peguei as flores que ela havia deixado na mesa e fui a seu encalço. –Qual o destino? –Perguntou diminuindo a rapidez de seus passos para ouvir minha resposta.
-Onde sugere? –Perguntei tímido abrindo a porta do lado passageiro para ela se sentar. Ela parou e encarou o carro de extremo à extremo.
-Este é seu carro? –Perguntou como se fosse um insulto eu ter um carro.
-Acho que sim. –Respondi tentando não ser irônico.
-Cara! Eu sabia que você era rico, mas isso aqui... –Ela entrou finalmente e eu corri para o outro lado. Coloquei o cinto e liguei o carro ainda ansioso por ela estar tão perto de mim. Ao meu lado. No meu carro. Pensava que isso seria impossível.
-Conhece um local bom onde possamos conversar? –Refiz a pergunta anterior.
-Conheço toda essa cidade. –Falou orgulhosa. –Bem, há uma praça aqui pertinho. Está toda decorada, é um lugar bonito e calmo. Não quero me afastar muito.
-Certo. –Segui pelo caminho que ela me indicou.
Estacionei; abri a porta a ajudei descer; tranquei o carro e sai ao lado dela em direção à praça. As luzes dos postes estavam acesas, os pisca-pisca enrolados nas árvores davam as caras e sumiam aleatoriamente e o ar estava sendo invadido pelo aroma nostálgico de grama molhada e peru recém tirado do forno(havia uma grande churrascaria do outro lado da rua). Doces, neve, vermelho e dourado por toda parte. Sinos se fustigavam, “Boas Festas” e crianças fazendo malinesas. O natal havia consumido tudo e todos. Me senti familiarizado ali. Com o que, não sei. Podia afirmar sem medo que estava feliz, em segurança. Não me sentia tão sozinho.
-Estou feliz que tenha arranjado um tempo para me ver. –Disse se sentando em um banco. –Como vai? –Perguntou mais amigável.
-A mesma rotina entediante. –Falei. –Tenho viajado, trabalhado um pouco mais e venho pensando no meu futuro. –Fiz uma pausa e me desconectei dela pó um momento. –Estou me sentindo velho. –Comentei.
-Você não tem mais do que trinta anos. –Arriscou.
-Vinte e cinco. –Sorri me voltando à ela.
-Então somos dois velhos de vinte e cinco anos! –Falou num tom divertido. Ela observava as pessoas que passavam e eu pensava no que dizer. Foi mais rápida e começou:
-Vi você na premiação da música da Alemanha. –Não só ela, o mundo inteiro. De repente senti vergonha e me arrependi de ter comparecido ao evento. Principalmente por causa da garota ruiva, pobrezinha. –Você deveria usar smoking mais vezes! –Finalmente alguém não me deu parabéns, isso me alegrou. Só me deixou sem graça por causa do elogio.
-Obrigado. –Falei tímido. –Desejei que você estivesse lá comigo. –Seu sorriso se desmanchou e ela ficou pensativa. Busquei as palavras certas e continuei. –Esses dias eu não tenho dormido. Fico pensando em você e em tudo o que houve enquanto estava em casa. Eu percebi que você era mais do que uma hóspede quando você partiu. –Ela balançou a cabeça em sinal de negação e se pôs a olhar para tudo menos para mim. –Eu sinto falta do seu sorriso, do seu toque, do seu jeito meigo... de tudo! Pergunto-me se você sabia que eu estava tentando não me apegar, mas você me fez querer me arriscar, me deixar levar por uma coisa incerta. Isso é ridículo para um homem dizer, eu sei. Mas não há combinações de palavras que eu possa falar e em uma frase resumir tudo o que eu sinto. Eu só te digo uma coisa: seríamos melhores juntos. –Ela me olhou e riu, corada. Exibindo os olhos translúcidos pelas lágrimas impacientes para despencarem.
-Você acha? –Perguntou, toda vermelha, por conta do choro ou constrangimento.
-Acho. –Respondi secando seu rosto com a costa dos dedos. –Se tivesse outra chance de mostrar que realmente estou amando você, eu juro, eu te amaria direito. Mudaria tudo, mas não posso. Por isso, estou aqui dizendo que sinto muito por tudo o que fiz e deixei de fazer e, se não me aceitar e sair daqui tão rápido quanto chegou, eu vou entender.
Minhas mãos tremeram temendo sua reação. Meu rosto queimava de vergonha, afinal, eu nunca dissera isso para ninguém. Ninguém!!! E eu nem havia ensaiado nada. Meus planos era apenas dizer que estava louco por ela, que a queria e depois só esperar ela me beijar. Bem, acho que meu improviso foi mais bonito. Confesso que estaria realizado se a tivesse para mim, para sempre e um pouco mais.
-Eu posso honestamente dizer que você esteve na minha mente desde aquele dia. Fico lembrando de quando nos beijávamos, as vezes sinto nos meus lábios. –Falou enquanto afagava meus cabelos. –Eu tive tanto medo! No fundo eu sabia que éramos apenas estranhos cheios de fantasias. Nada a mais de isso. Pensei que tinha se esquecido de mim. –Disse deixando mais um fino par de lágrimas lhe escaparem dos olhos.
-Não deixei de pensar em você um minuto se quer.
-Me beije. – Sussurrou fitando meus lábios. Eu não negaria isso por nada no mundo.
Segurei seu rosto e beijei seus lábios lentamente. Queria sentir seu gosto, memorizar a sensação de sua carne movendo na minha. Aos poucos me separei, extasiado pelo curto toque e disse no seu ouvido.
-Eu te amo, Sakura. –Ela entrelaçou o braço no meu pescoço e deu início a um beijo mais profundo, mais quente. Sua língua seguia a minha enquanto meu cabelo era acariciado por seus dedos.
Completo. Foi assim que me senti ao tomar seus lábios daquela forma, romântica, nada voraz como das últimas vezes que nos tocamos. Meu peito pulsava de alegria por tê-la para mim, nos meus braços. Aquele era o beijo perfeito, o que eu precisava para estar destemido.
-Me abrace. –Pediu parando o beijo. Assim fiz o melhor que pude. –Não me deixe ir... –Sussurrou se aninhando no meu ombro. –Nunca mais.
-Não deixarei. –Ficamos ali por alguns minutos, depois fomos para o carro. A levaria para casa já que ela iria passar o natal com as amigas como o combinado. Mas ao me aproximar do carro, pude perceber o barulho estridente do telefone soar. Quem seria? Meu empresário? Abri rapidamente a porta e atendi, no mesmo tempo em que abria a porta para Sakura entrar. –Alo? –Dei a volta.
-Oi, viado! Estou no aeroporto principal de Ottawa. Se puder vir me buscar agora eu agradeço. –Sentei na poltrona quase que me jogando. Nem fechei a porta. Fiquei estático ao reconhecer a voz inconfundível.
-Sasuke? –Chamou Sakura com uma cara confusa. –Sorri para ela ao mesmo tempo que confirmava o autor da ligação inesperada.
-Naruto? –O rosto da rosada ficou mais ainda confuso, ainda com o sorriso que surgira.
-Não, o Papai Noel! –Ironizou. –Claro que sou eu! Tem como vir ou não? –Coloquei no viva-voz e fechei a porta que tinha deixado aberta.
-Bem, tem sim. Mas por que não me avisou que viria?
-É um momento importuno? Achei que quisesse a companhia de alguém neste natal, pois, pelo que sei você continua sozinho.
-Eh... Em que plataforma você está? –Perguntei ligando o carro.
-Na D. Vem logo!
-Tá. –Então ele desligou. Coloquei(joguei, na verdade) o telefone nos bancos de trás e passei o cinto de segurança.
-Sasuke... –Começou. Mais eu a interrompi para explicar o ocorrido.
-Sabe quem era no telefone? Um amigo meu de infância, o Naruto. Ele é médico e mora nos Estados Unidos. –Dei partida. –Me ligou para avisar que veio passar o natal comigo, acredita? –Falei alegre enquanto ela exibia um sorriso simples e tímido.
-Sasuke, eu preciso ir para casa. Já está um pouco tarde. Ainda nem comprei os presentes das meninas, nem os aperitivos para nossa ceia. –Falou pausadamente. –É melhor me deixar aqui mesmo no metrô. –Soltou o cinto de segurança.
-Não! Espera, eu te deixo em casa então! –Insisti segurando sua mão.
-Seu amigo está te esperando. Não quero atrapalhar seu natal, já atrapalhando. –Falou com um sorriso compreensivo. –Eu até te convidaria para cear comigo, mas você entende que a casa não é só minha e é um tanto inconfortável, tanto para você quanto para mim.
-Não é essa a questão. Eu queria ficar pelo menos mais um pouco com você.
-Eu também!
-Olha, agente vai rapidinho buscar o Naruto no aeroporto, na volta compramos tudo o que você precisa e eu te deixo em casa, em segurança, sem atraso. –Sugeri paciente.
-Será que dá tempo?
-Que horas você precisa estar em casa?
-20h.
-Dá e sobra. Vamos! –Pedi acariciando sua bochecha rosada pelo frio.
-Está bem! Mas acelera! –Falou sorrindo. A dei um selinho rápido e acelerei o carro. –Sabe... –Começou olhando as ruas. –Esqueci minha bolsa no trabalho.
-Quer voltar para buscar? –Perguntei.
-Não, não é necessário. Nem sei por que comentei isso! –Falou com o mesmo sorriso infantil que me alegrava. O cheiro dela estava empesteando o carro. O aroma instigante e ameno me acalmava, me fazia bem de todas as formas.
Estava ansioso para ver Naruto. Mas acho que ele iria se decepcionar ao saber que eu não havia preparado nada para o natal. Não faço ceias. Como nos natais o que como quase todas as noites: pratos prontos, cerveja ou vinho. Espero que ele não se importe de comer pizza e salgadinhos.
Chegando ao aeroporto, estacionei o carro em um lugar próximo a saída, para facilitar na hora de irmos embora, então fui correndo com Sakura para a tal plataforma buscar o loiro. Parecíamos dois loucos de mãos dadas correndo a rindo. Encontramos a plataforma D. Naruto estava sentado, sozinho, nos bancos azuis(reservados para idosos e deficientes), com cara de sono e o cabelo mais bagunçado do que de costume.
-Hey! –Chamei de longe, mal contendo o sorriso. Ele levantou o olhar e mostrou os dentes, se levantando. Soltei-me dos dedos pequenos de Sakura e fui ao seu encontro, o abraçando urgente, mal acreditando que ele saíra da casa dele, do emprego dele para vir aqui, em Ottawa, me fazer companhia neste natal. Ele realmente não é meu amigo. Ele é meu irmão.
-Pensei que não vinha mais me buscar! –Falou se soltando do meu abraço.
-Cala a boca! Demorei apenas quinze minutos para chegar! –bronqueei lhe dando um tapa na cabeça. –Veja! –Saí de sua frente. –Esta é a Sakura. –Ela se aproximou tímida, estendendo a mão para o louro.
Fale com o autor