A Hóspede
36 Grandes motivos
Notas iniciais
Avisei.
Pelo menos, trouxe um capítulo enorme para vocês!
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Leitores novos, sejam bem vindos!
Obrigado pelos reviews!
Boa leitura!
Alguns dias depois...
Sakuras’s POV on~
Estava tudo turvo e difícil de identificar. As coisas não faziam sentido algum, como em um sonho, como antes de adormecemos. Porém, era tudo muito palpável para ser apenas delírios, ou isso também era uma ilusão? Tentei tocar nos cabelos de uma criança que chorava enquanto a mãe lhe dava banho, mas tudo o que consegui pegar foi meus próprios dedos, certificando-me de que aquilo não era nem de longe real. Mas se era um sonho, por que eu não acordava? Na verdade, como eu fui para ali? Não me lembro de ter dormido. Será que eu estava bêbada? Terrivelmente bêbada ou até mesmo drogada... Santo Deus!
Tentei me recordar do que havia acontecido, mas quando tentei fazer isso, toda aquela imagem borrada foi tornando-se um completo cenário branco e vazio. Sem mais menina, sem mais choro ou mãe para banhá-la na fonte. Era uma fonte aquilo? Não me lembro. Só sei que, quando aquela brancura invadiu toda a minha visão percebi que não se tratava de um vazio de um sonho pirado e sim da lâmpada fluorescente de algum lugar. Aquilo feriu minha vista de uma forma que me obrigava a esconder-me sob as pálpebras, porém meus olhos estavam secos demais. O que havia de errado comigo afinal?
Longo que minha retina acostumou-se com a claridade, tentei identificar onde eu estava. Tinha certeza que não era em casa pois apenas a cozinha tem lâmpada, a sala tem lustre e os quartos abajur. Eu não poderia estar dormindo na cozinha, poderia? Em cima do balcão talvez? Não... O alicerce que me acomodava era macio e flexível, além de quente e consideravelmente maior que a extensão do meu balcão.
Com uma certa dificuldade, virei minha cabeça pra o lado esquerdo. Uma janela semi aberta anunciando a noite, móveis brancos e ferramentas metálicas. Hospital? Não me lembrava de ter me machucado. O que ocorrera? Como eu fui parar ali? Caramba. Até momentos atrás, eu estava calma, mas ao me ver assim de repente em uma cama de hospital com tubos no nariz e agulhas da veia me dei conta de que não estava nada bem. Mas o que aconteceu? O que me levou nesse estado? Jamais me vi em uma situação dessas. Não sabia se ficava desesperada por não saber o que aconteceu ou se ficava satisfeita por pelo menos saber que eu estava viva, podia enxergar e mover meus membros(mesmo que para isso precisara de um esforço custoso).
Será que perdi a memória? Só tinha essa explicação. De início, tentei me recordar do básico:
Meu nome é Sakura Haruno. Tenho vinte e cinco anos. Moro em Ottawa, Ontário. Trabalho em uma cafeteria. Minha mãe me odeia. Sasuke me ama. Estou grávida. Sofremos um acidente de carro. Imagino que o bebê esteja morto. Há uma grande chance do bebê está morto. Provavelmente é melhor que esteja morto...
Após recordar perfeitamente do que me levara até ali, deixei minha cabeça mais leve no travesseiro bem posicionado. Minha íris voltou ao ponto de partida, à luz fluorescente que irritava minha visão, mas de alguma forma mantinha pensamentos ruins fora do alcance do meu cérebro.
O que aconteceria se eu tirasse todos aqueles tubos do meu corpo? Eu morreria? Será que eu havia ficado muito mal nesse acidente? Não me lembro. Naquele momento eu não sentia dor alguma, a não ser quando respirava. Sentia uma leve fisgada no canto direito do meu pulmão, mas nada insuportável. Será que alguém demoraria para aparecer? Sentia minha boca seca. Queria explicações. Queria que me dissessem exatamente o que aconteceu após o carro ter capotado, apesar de que, o principal eu já sabia: tetraplégica eu não ficara. Também suspeitava de que minha gravidez já não mais existia. O resto não era relevante, mas iria me distrair.
Por que eu não estava tão preocupada? Por que o desespero não me consumiu de vez? Para a situação, eu estava ligeiramente paciente e racional, mas era assim mesmo que eu deveria ficar? Não estava tentando bancar a forte, porque eu não era, muito menos a irrelevante. Eu estava contente por estar viva e móvel, mas por mais que eu quisesse, eu não conseguia me preocupar profundamente em estar ali. No máximo, o que eu perdi foi tempo.
Vindo da minha pessoa, isso é um tanto quanto macabro, não? Mas quem sou eu para mentir para mim mesma... Tudo o que eu queria era saber exatamente o local das minhas cicatrizes, tomar um banho morno e voltar à minha vida rotineira como venho fazendo desde que cheguei nesse país.
Sem explicação alguma, irritei-me com o tédio, comecei cantar. Não uma música qualquer, uma música francesa. A única música francesa que eu sabia cantar e tinha certeza que a pronunciação estava correta.
“Regardez-moi”
Sussurrei com a voz rouca e quase inaudível.
“Je suis le plus beau du quartier
J'suis l'bien aimé
Dès qu'on me voit
On se sent tout comme envouté
Comme charmé, hum”
Sorri ao me recordar da tradução narcisista da canção. Sentia a malinesa da letra cantada escorrer pelos meus lábios obrigando-os a se curvarem em um sorriso seco que me rachara os lábios. Lambi ao redor e me certifiquei disso quando o sutil gostinho de sangue me despertou o paladar.
“Lorsque j'arrive
Les femmes elles me frôlent de leurs
Regards penchés
Bien malgré moi, hé”
Continuei entorpecida, com os olhos marejados por lá se sabe o que. Sentia-me revigorada, mesmo estando um trapo incapacitada sob aqueles lençóis brancos.
“Je suis le plus beau du quartier, hum, hum, hum”
Um suspiro longo tomou forma no quarto. Aquele suspiro não era meu. Tentei estender meu campo de visão, mas não mais consegui a minha frente. Com um esforço tremendo, consegui me erguer um pouco sobre o travesseiro e pude identificar de quem vinha o pesado suspiro.
Ele estava na poltrona, dormindo agarrado a um livro. Tentei ler o título, mas a distância não permitia. Não soube descrever, mas a sensação de vê-lo ali, bem, ao meu lado, me guardando fez com que eu me sentisse segura. Fez-me sentir ‘a mais amada’, como na canção. Podia ser impressão minha, mas seu rosto parecia machucado. Ele também havia se ferido?
Seria bom se ele não tivesse se machucado muito, do contrário me culparia por qualquer lesão eternamente, afinal, foi eu quem deu a louca e saiu em disparada com o carro de Hinata e... Oh! O Carro de Hinata! A essa hora ela deve estar subindo pelas paredes de fúria. Sabe bem ela que não tenho como pagar o conserto do carro, se é que sobrou algo para o concerto. Espero que sim. Vou ter que arranjar um terceiro emprego, se for o caso, talvez até fazer um empréstimo no banco e vender minhas roupas de marca na internet. Estão todas em bom uso e dariam um bom dinheiro. Será que seria suficiente para pagar o concerto?
Alguns minutos depois apareceu uma enfermeira que nem se quer direcionou o olhar para mim, foi direto para a poltrona onde Sasuke dormia, o despertando apenas com um leve balançar em seu antibraço.
–Senhor, o horário de visitas já encerrou, precisa ir para casa. –Avisou a jovem.
Sasuke não falou nada. Esfregou os olhou e pegou o livro, entediado. Fiquei me perguntando quando que ele me notaria, até quando se aproximou para se despedir e pegou-me desperta. Espantou-se, como o esperando, e depois de uma coleção de segundos em silêncio, pronunciou-se, ainda surpreso.
–S-sakura? –Agachou-se ao meu lado, segurando minha mão.
Quando ele me tocou, não soube explicar o que senti, mas não gostei. Estava feliz pela mão quente dele ter aquecido a minha tez pálida e acamada, mas algo dentro do meu consciente me dizia que eu não devia me sentir assim. Por que não? O que aconteceu? Antes que eu organizasse meus pensamentos, formulasse minhas perguntas, a enfermeira em um salto pôs-se a examinar-me. Com uma lanterna, checou minha retina.
–Como se chama? –Perguntou com a lanterna iluminando o outro olho.
–Sakura... –Respondi num sussurro.
–Idade. –Examinava meus ouvidos.
–Vinte... –Respondi meio tonta. –Vinte e cinco... Talvez. –Eu não conseguia organizar minha cabeça, perdi a noção quando Sasuke sumiu do meu campo de visão. Nem prestei atenção na sequência de perguntas que a moça continuava a fazer. –Sasuke... –Falei sem querer.
–Resposta errada. –Falou a enfermeira abrindo minha boca. Não tinha certeza que ela era realmente enfermeira. Talvez ela fosse médica mesmo, pois me examinava com profissionalismo. Confirmei o contrário quando ela chamou médicos por uma espécie de rádio que carregava em um dos bolsos alvos. Podia ver Sasuke agora atrás dela a uma certa distância. Parecia preocupado e feliz. Feliz? Por que?
Por que eu não conseguia me sentir totalmente saciada com a presença dele? Por que eu perdia o controle na ausência dele? Qual era mesmo minha ligação com ele?
Rapidamente uma equipe de médicos invadiram a sala, em seguida, só ouvi a voz de Sasuke contestando com eles, pedindo para ficar comigo. Ficar ali comigo. Ele não queria me deixar sozinha. Eu não queria ficar sozinha. Mas não conseguia entender por que só com ele eu me sentia confortável e a salvo. Quando ele me tocou, honestamente, senti repulsa.
Céus! O que houve?
–Sakura. O que sente? –Perguntou-me um homem de cabelos brancos e óculos translúcidos que não permitiam ver-me num possível reflexo.
–Sede. –Respondi fitando a lâmpada. Sentia que a qualquer momento poderia voltar ao vazio branco, e lá, quem sabe, reencontrar a mãe e a menina chorona na fonte. Parecia muito mais agradável do que aquele quarto.
–Se lembra do que houve?
–Um pouco. –Olhei para ele.
–Você teve uma briga com seu namorado e sofreu um acidente. Induzimos um coma para não sentir dor, fora autorizado por uma das suas amigas, creio que Hinata. –Hinata... Dona do carro. –Estava adormecida há quase uma semana. Esperávamos que demorasse mais tempo para despertar.
–Estou começando a achar que seria melhor se eu tivesse permanecido adormecida. –Falei pausadamente contemplando o brilho irritante sobre nossas cabeças. Preferia as luzes apagadas e os olhares perspicazes quietos sob suas pálpebras ao invés das minhas.
–Não diga isso! Foi bom que você ter acordado. Precisamos conversar sobre algumas coisas e inconsciente isso seria impossível.
–Coisas ruins. –Ele não respondeu. –Se forem coisas ruins, com certeza seria melhor se eu tivesse permanecido adormecida. –Virei o rosto impassível à todos ali. Só queria ficar sozinha.
O médico dispensou os outros do quarto, inclusive Sasuke que relutou um pouco, por fim sendo carregado para fora pelos que saíam. O homem se sentou em uma cadeira ao lado e pegou uma das minhas mãos. As suas eram ásperas e muito maiores do que as minhas, mas não pareciam menos frágeis. Ele não parecia menos frágil do que eu. Seu olhar parecia se esvaziar lentamente através das lentes enquanto ele falava.
–Os remédios que tem tomado tem alguns efeitos colaterais, um deles é a perda de memória momentânea que em alguns casos pode perdurar mais do que o prescrito pelos fornecedores. Bem, você se lembra onde estava antes do acidente?
–Sim. –Respondi com a voz rouca, tão feia que limpei a garganta antes de responder. –Estava na minha casa.
–Se lembra do que fazia?
–Era uma festa. Não. Não era exatamente uma festa e sim uma ceia entre amigos.
–Quem estava com você?
–As meninas. O namorado novo da Ino. Sasuke e Naruto. Que eu me lembre, só esses. O que isso tem de relevante?
–Preciso saber como está a sua memória.
–Está intacta. –Infelizmente. Pensei em acrescentar.
–Então se lembra que estava grávida? –Perguntou com a voz amena, como se eu fosse um bicho preste a atacá-lo que ele tentava afagar com a voz mansa.
–Sim. –Disse.
–Bom, você teve um aborto espontâneo após o acidente. –Já imaginava. Aquilo não era nenhum espanto. –Poderá ter filhos normalmente a partir de quatro meses, até lá, é recomendado que tome certa medicação para não haver nenhum problema. –Ele não parecia contente com a minha expressão inalterada diante de tal notícia. Não ia fingir ter qualquer sentimentalismo em relação à essa gravidez que, para mim, foi importuna.
Ter perdido esse bebê não era surpresa nenhuma. Se eu não perdesse por conta do acidente, perderia por intoxicação ou queda, afinal, tudo o que mais faço quando estou com problemas é beber e descer rolando as escadas do prédio. Talvez, tenha sido melhor assim. Agora não há nenhum laço que me una ao Sasuke. Acho que nem esse filho foi proeminente o bastante para se quer cogitar alguma ligação entre nós dois que não envolvesse sexo.
Pensando bem, será que estou sendo injusta? Por que Sasuke correria atrás de mim como fez naquela noite de véspera? Era tudo por prazer? Porque se fosse eu poderia afirmar que ele era um ninfomaníaco. Mas ele não mencionou nada comprometedor naquele dia, não fez nada demais, parecia estar com boas intenções.
Flash Back on~
–O que aconteceu naquele dia foi um erro. Sei que você também pensa o mesmo.
–De jeito nenhum! Foi uma das melhores coisas que me aconteceu! –Paguei as rosas e saí apressado. Olhei através da vitrine da cafeteria e ela continuava lá, sentada.
–Não minta!
–Não estou mentindo.
–Como posso saber?
–Eu liguei para você, não liguei? Estou correndo atrás. É porque para mim você teve um valor indescritível.
Flash Back off~
Eu devia crer nisso? Pensando por outro ângulo: por que eu não podia acreditar nisso? Eu não tinha muitos motivos para aceitar fielmente as palavras e ações de Sasuke, mas motivos para recusar os esforços notáveis dele eu também não tinha, tirando o episódio da noite de natal. Aquilo com certeza foi decisivo para a queda do meu conceito sobre ele. Mas será que foi atroz o bastante para ofuscar todas as provas de amor que ele me dera desde que parti de sua casa?
O quadro. Ele fizera um quadro de mim enquanto eu dormia. À que propósito? Que explicação cabe dentro de tais atitudes? Se ele não gosta de mim, que raio de sentimento louco é esse para ele chegar ao ponto de dormir no hospital esperando que eu desperte de um sono incerto?
–Foi um acidente, não foi? –Voltei minha atenção ao médico. –A gravidez. Não foi planejada, estou certo? –Confirmei com a cabeça. –Isso explica sua neutralidade em relação a perda. Posso estar errado, mas possivelmente estava pensando em abortar.
–Não. Eu ia ficar com a criança. –Disse desviando meu olhar. –Se ela sobrevivesse ao meu estilo de vida. –Se fez silêncio.
–Você realmente tem sorte. –Comentou com ar sério.
–Não me diga! –Disse zombeteira, deixando escorrer um sorriso amargo de meus lábios.
–Pela magnitude do acidente, deveria estar morta. –Sim. Deveria estar morta. Talvez estivesse se Sasuke não tivesse interferido. Não me lembro bem de como as coisas aconteceram. Lembro da rádio do carro tocando Leave out all the rest, eu limpando as lágrima, o velocímetro com sua agulha furiosa nos limites de velocidade, uma luz forte, um impacto e o gosto amargo de sangue na minha boca. –O que te salvou da morte e de grandes sequelas foi o cinto de segurança. –Não me lembro de ter colocado o cinto de segurança. Não me lembro de muitas coisas. Talvez seja culpa dos medicamentos. Talvez eu tenha me obrigado a esquecer de tudo. –Teve alguns ossos fraturados, cortes fundos em membros inferiores, artérias rompidas –que felizmente conseguimos estancar a caminho daqui- e hematomas por todo o corpo.
–Não sinto dor. –Disse tentando visualizar todo aquele estrago sendo escondido sobre o longo lençol branco. Na verdade, eu sentia umas fisgadas de dor aqui e ali, não como cortes, algo dentro de mim, mas era suportável demais para ser comparado aos diagnósticos dele. Ele. Olhei para o crachá preso em seu jaleco: seu nome era Kabuto. Na foto ele parecia muito mais novo do que ao vivo.
–Seu amigo Naruto, após ser transferido para cá, sugeriu que você fosse drogada com esse anestésico. –Naruto? Médico? Transferido para cá? Eu não entendia. –Apesar de todos os riscos, acabamos todos concordando em dopá-la, mesmo com os riscos de você não se recuperar até receber sua alta e ser obrigada a se medicar regularmente com remédios muito agressivos.
–Naruto... Ele foi transferido?
–Pensei que sua primeira pergunta será sobre a data em que terá alta. –Certamente seria mais coerente eu perguntar quando sairia daquela cela com cheiro de álcool e iodo. –Respondendo sua pergunta: sim. Ele foi transferido de seu antigo hospital para este. –Isso significa que Naruto ficará aqui permanentemente. Mas por que? Ele já tinha planos de se mudar para cá? –Bem, pergunta respondida, coisas esclarecidas. Amanhã conversamos e te examinamos, tudo bem assim? –Perguntou amigavelmente. Balancei a cabeça em sinal positivo. –Agora, se me der licença, vou tomar um café para aguentar o resto do plantão. –Antes que ele atravessasse a porta, lembrei-me de um pedido importantíssimo que deveria fazer.
–Poderia pedir para Sasuke e qualquer pessoa que esteja aqui ir embora? –Ele se voltou à mim. –Não conseguiria dormir de noite sabendo que alguém está dormindo nessas cadeiras desconfortáveis esperando por notícias sobre meu estado.
–Vou tentar, mas creio que sua mãe não vai sair daqui nem a base de seguranças! –Eu não posso ter ouvido direito.
–Como é que é? Minha mãe?!
Notas finais
Le plus beau du quartier - Carla Bruni
Leave out all the rest - Linkin Park
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PS estou pensando em cancelar a história por falta de review.
Comentem! Me instiguem! A história já está nas retas finais, mas posso cancelar a qualquer momento por falta de incentivo.
Obrigada!
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