A Hóspede
19 Confissões,conselhos e um bolo de sabor misterioso
Notas iniciais
Sakura’s POV on~
Parei em frente ao metrô e procurei por um Civic preto e uma morena, mas não havia nem sinal dos dois, na verdade, era poucos os sinais de vida na avenida. O metrô estava fechado, estão tirando a neve dos trilhos, então estou dependendo totalmente da carona de Hinata pois a pé não vai dar para ir. Vai que eu me perco e alguém me oferece abrigo, só para variar...Apesar de ser dois quarteirões provavelmente, são dois quarteirões bloqueados e eu teria que dar a volta, algo muito complicado.
Escorei no poste de luze vi as horas no visor do meu celular: dez e quarenta, já estava ali havia dez minutos e Hinata prometera estar lá quando eu chegasse. O silêncio era agonizante e assustador para a capital movimentada de Ottawa, parecia até um dia pós-apocalíptico, tipo Nova York em Eu sou a Lenda só que em Ottawa, e com algumas pessoas na rua trabalhando.
Finalmente vi o carro negro virar a esquina e buzinar, abaixou o vidro e pude ver o rosto de boneca da minha morena favorita sob um cachecol de lã e uma toca da Nike.
-Que enrola! Tava fazendo o carro?! –Brinquei sentando no banco de passageiro.
-Oi! Estou bem! De nada! Então, não fiz o carro, não, tive que tirar a neve de frente da garagem do nosso prédio... –Falou irritada.
-Reclame com o síndico aquele folgado! –Sugeri entrando no carro e fechando logo a porta. –Agente não paga um aluguel tão caro pra tirar neve de frente a garagem.
-...Me fez levantar uma hora dessas e nem um ‘bom dia’ eu recebo!
-Como você é dramática! –A abracei e beijei sua bochecha gelada. –É por isso que eu te amo!!! –Coloquei o cinto e ela deu partida no carro, me olhando de canto com um sorriso divertido.
-Tava fazendo o que durante esses dias? Ficou na casa de uma família judia caridosa, com uma velhinha surda ou com um maníaco estilo Jason? –Ri e liguei o rádio.
-Fiquei na casa de um cara.
-Solteiro? –Perguntou deixando o sorriso mais largo.
-Acho que sim. –Tentei não mostrar interesse e entendimento sobre tal.
-Como assim ‘acha’?
-Sei lá, acho que é. –Desconversei olhando a janela.
-Aff, pára de mentir, Sah! Eu sei que dormiu com o cara e que sabe toda a vida dela, então resume. Vão sair quando? Eu te ajudo escolher a roupa. –Me impressionei com o poder de dedução dela com poucas palavras minhas. Ela é boa. Mas eu não queria falar sobre isso, estava me concentrando em coisas agradáveis e opostas ao certo moreno das orbes de ônix. Estava me segurando para chorar e me culpar quando entrasse no chuveiro de casa.
Bem nesse momento, no rádio, começou tocar Stop Crying your heart out, a música que ele prometeu tocar para mim. Ele não tocou. Em poucos segundos eu tive meio que um flash back desses últimos dias com ele, o que me fez surtar. Desliguei o rádio ansiosa e emburrei, com o pretexto barato de que estava exausta demais para falar com Hinata sobre isso.
-Calma Sah, só quero colocar a conversa em dia, saber como foi, mas tudo bem, não te incomodo mais!
-Não é com você, me desculpa Hina, é que... é uma longa história.
-Não pedi a história, pedi a data de quando vão sair.
-Não vamos. –Respondi triste. –Esse é o ponto. –Ela ficou calada, com uma expressão indecifrável.
-Agora não entendi nada.
-Haha... –Ri sem graça. –Nem eu entendi! –Chagamos em no prédio.
Ela guardou o carro na garagem e subimos juntas. Ino não estava, segundo Hinata ela foi para a casa do Sai, o novo namorado dela. Acho que o segundo desse mês.
-Esse moletom não está muito comprido?
-Não é meu, é do cara, quer dizer, é meu agora, suponho. –Respondi me jogando na cama de casal da Ino. Só ela tem cama grande, quarto separado e banheiro exclusivo, eu e Hinata dividimos tudo, o que não me incomoda nem um pouco, nem a ela. Dormimos em camas de solteiro em um quarto menor e usamos o banheiro comum da casa que não tem banheira. É que Ino é meia metida a gente rica e mimada, é egoísta e patricinha, então ela precisa estar sempre em vantagem ou faz um escândalo. No fundo ainda é uma garotinha brincando de ser independente. Mas Hinata e eu já nos acostumamos a abrir mão de muitas coisas por ela, no final compensa porque se tem uma coisa que Ino não é ingrata e vez ou outra ela faz algo grandioso e generoso para agradar a nós duas, tipo... comprar um par de botas Channel caríssimas para a Hinata de presente de aniversário ou me dar uma calça jeans de coleção da Calvin Klein só porque eu fiz um bolo de abacaxi só para ela comer. Ela faz de tudo para ver quem gosta feliz. –O nome dele é Sasuke. –Resolvi falar. –Tem minha idade.
-Como é? –Perguntou empolgada se jogando na cama comigo.
-Cerca de um metro e setenta e cinco, moreno, olhos negros, pele clara...
-Estrangeiro?
-Japonês legítimo! –Continuei. –Tanquinho trabalhado, voz grave, rico, compositor, viciado em cappuccino, pinta quadros...
-É bom de cama? –Perguntou baixinho. Rimos juntas da pergunta indecente, o que não é comum vindo da Hinata.
-Ok, vou confessar: foi o melhor sexo que já tive! –Respondi envergonhada me segurando para não entrar no armário e rir até me doer por dentro.
-Ahhh!!! Toma juízo Sakura!!! –Fez cócegas na minha barriga.
-Haha! –Ficamos em silêncio por um tempo até ela perguntar mais coisas.
-Por que não vão sair?
-Achamos que... não daria certo, sabe? Somos muito diferentes... Talvez se tentássemos estender esse caso um pouco não daria certo e um de nós sairia magoado.
-Por que acham isso? Não tiveram o clímax juntos ou coisa parecida? –Ri da indecência dela.
-Cala a boca! Não tem nada haver com sexo, é que... sei lá. Vivemos em mundos completamente diferentes.
-Literalmente? –Perguntou confusa. Ignorei a piada.
-Ele é rico e inteligente, tem vida boa, trabalha em casa e ganha milhares de reais por bimestre, eu tenho dois empregos e divido aluguel com duas amigas! E... também brigamos por um motivo besta, só fizemos as pazes e transamos depois porque eu estava com medo de dormir sozinha por causa daquela maldita Samara...
-Samara? Eu já te disse que é só um filme Sakura! Não acredito que ainda está com isso na cabeça! –Riu. –E já brigaram? Pensei que só houvesse sexo e descobertas no começo de namoro, o que não inclui brigas.
-Foi por motivos bestas... –Evitei. –Hoje cedo eu acordei e o achei no ateliê fazendo um quadro deu dormindo.
-Oh! Um quadro seu? –Ela parecia fascinada, eu mais ainda, claro, me sentia a Mona Lisa!
-Sim! Ela pode ter feito aquilo para ir transar comigo de novo, mas não era por isso porque ele sabia que não precisava fazer esforço para me levar para a cama, eu nem sei para que ele fez aquilo na verdade. Por que alguém iria querer moldurar a imagem da hóspede dormindo?
-Alguém que ama sua hóspede. –Ela disse isso tão docemente que parecia que havia ensaiado essa frase por dias só para dizê-la à mim. Seus olhos brilharam, os meus também, mas com lágrimas.
-Foi mais ou menos isso que ele respondeu quando eu perguntei.
-E o que você fez?
-O beijei. Só o beijei.
-O que sente por ele?
-Acho que o mesmo Hina, só que... é complicado. Somos estranhos, diferentes,para que insistir nisso? Não valeria a pena.
-Por que não disse que também estava apaixonada por ele?
-Eu disse mas... É tudo muito confuso Hinata. Me diz como é possível duas pessoas desconhecidas se apaixonarem uma pela outra em tão poucos dias?
-É possível sim se vocês se apaixonaram, mas é algo raro de acontecer nos dias de hoje. Ele te disse claramente que estava gostando de você?
-Sim.
-E você não fez nada? –Balancei a cabeça. –Que burrice, Sah! Tanta gente aí sofrendo, correndo atrás de um cara perfeito, você acha o cara que é mais do que perfeito, que gosta de você e desperdiça isso?
-Eu sei, é disso que me arrependo agora. –Fiz uma curta pausa pensando nas horas que passei naquela casa.
Me lembrarei claramente da ducha quente que tomei logo cheguei, do gosto do vinho português, do primeiro beijo, do cheiro que o suéter dele tinha de menino mimado, do seu corpo trotando sobre o meu, da maciez dos lençóis, do cappuccino quente sobre o balcão, da tarde no ateliê, cerejas, Martini, de hoje cedo, do desespero que fiquei quando olhei para trás e ele não estava vindo atrás de mim... Fiquei tão triste. Quando fiquei arrependida de tudo o que fiz esses dias com ele, o escuto me gritar, me abraçar com uma ternura sufocante e me beijar como se eu fosse o objeto mais delicado do mundo. Eu amei isso.
Lembrei-me de tudo, até da dor aguda que atravessou meu peito quando caiu a ficha de que foi apenas um caso como qualquer outro que tivemos, teve um começo, um meio e um fim. Eu não queria considerar o fim.
No mesmo momento, contando à Hinata, uma lágrima quente desceu pela minha face, demonstrando abertamente a falta que eu sentia de alguém que eu nunca tive.
-Puxa, parece que você se apegou mesmo ao tal Sasuke! –Comentou limpando minha lágrima com o polegar. –Não quero te ver chorando por causa de um lance que você mesma disse que não teria futuro, você escolheu isso, agora se adapte a sua decisão. Já basta a Ino com problemas amorosos!
-Mas Hina, -Continuei entre soluços. –ele disse que estava se apaixonando por mim e eu por ele, como isso não teria futuro? O que dói é saber que não poderá ter futuro por minha causa, entende? Eu sou tão medrosa que tive medo de tentar e fugi como sempre faço quando não consigo resolver nada por mim mesma.
-Sim, não trocaram contato para resolver isso?
-Não. –Respondi. Hinata suspirou e depois de um longo silêncio disse:
-Acho que deve esquecer isso então. –Não era isso que eu queria ouvir. –Pelo o que eu entendi, os dois estão supostamente apaixonados, mas são tão inteligentemente burros o bastante para fazer a proeza de perderem contato e evitar um romance. –Não pensei por esse lado. Não me acho inteligentemente burra. Só às vezes. –Veja pelo literal: sem querer você precisou se hospedar na casa do cara e ele te acolheu; acabaram na cama; um falou que ama o outro; a neve parou; você voltou pra sua casa e tudo continua sendo o mesmo. Só foi um caso. Você poderia ter feito isso se expandir, mas não quis, então, agora isso pode ser considerado apenas um caso. Não quero vê-la triste por causa de um homem que você mal conhece que não tem o endereço nem nada! –Ela montou em cima de mim e começou ‘cavalgar’ como uma puta. –Vai, diga! Ficou doidona assim em cima do morenão gostoso, não ficou?! –Deu um riso e eu a empurrei para o lado oposto da cama.
-Louca! Tá me estranhando?! –Perguntei irritada. –Teve alguma experiência lésbica enquanto eu estive fora?
-Quem me dera! –Respondeu decepcionada. –Fiquei vendo filmes românticos e comendo Doritos. Queria que um loiro sarado batesse na minha porta e me pedisse abrigo. –Disse totalmente aérea. –Eu daria meu abrigo para ele. Literalmente.
-Ah! Deixa de ser safada Hinata!!! –Bati com o travesseiro nela e saí do quarto enquanto ela gargalhava histericamente. Nunca vi ninguém ficar feliz com a irritação dos outros.
-Volta aqui, Sah!!! –Gritou do quarto.
-Vou fazer um bolo. –Respondi pegando manteiga, os ovos e o leite na geladeira. –Quem é esse Sai?
-Sai? –Ela saiu do quarto e veio até a pequena cozinha, sentando-se no banco. –O namorado novo da Ino, oras!
-Isso eu já sei, Hinata! Quero dizer, onde ela o conheceu? –Quebrei os ovos e misturei com o leite e com a manteiga, já na bacia da batedeira.
-É um cliente da cafeteria. Aquele que você achou afeminado... lembra? –Sim, eu me lembrava. Ele me xingou de feia quando troquei o pedido dele por acidente. É um homem bonito, um tanto parecido com o Sasuke, claro que mais magrelo, mais pálido e menos lindo. –Ajuda? –Perguntou gentilmente.
-Não, obrigada. –Coloquei o resto dos ingredientes e depois de alguns minutos a massa estava pronta. Coloquei no forno e me sentei com Hinata. –Esse Sai...
-O quê que tem?
-É bem parecido com o Sasuke.
-Então creio que esse Sasuke não é de se jogar fora porque o Sai é um homem e tanto! –Disse ignorando o assunto. –O bolo é de que mesmo?
Sakura’s POV off~
Notas finais
and again and again and again and again ♫
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