A História de Karin
43 Travessuras
Notas iniciais
Soul Society
Um sorriso largo enfeitava seu rosto adormecido, com alguns fios de baba a escorrer pelos cantos da boca. Karin tinha seus ferimentos enfaixados, apesar de ser desnecessário, após cinco dias em completo repouso já estavam curados. Remexia o nariz em meio de sonhos, cujo protagonista era Toushirou. Parecia uma criança fantasiando com tantas expressões distintas em poucos segundos.
Algo a fez despertar, talvez estivesse cansada de tanto dormir e simplesmente acordou. Mas ao perceber que todas as imagens de sua cabeça eram apenas fruto de sua imaginação, ficou frustrada. Resmungando para si.
— Era só um sonho…
A Kurosaki acordou com o cabelo todo desalinhado mesmo estando preso num rabo de cavalo alto, várias madeixas caíam soltas por sua face. Seu kimono branco estava enrugado e bagunçado, deslizando pelo ombro esquerdo, tornando-se visível a curvatura do seio.
Ao espreguiçar seus braços no alto, ela notou uma segunda presença, observando-a com um sorriso travesso, com uma sobrancelha encurvada na testa.
— Toushirou!
— Parece que ficou decepcionada, com o que sonhava?
— Não lhe interessa.
A vergonha pintou as bochechas da oficial, desviando imediatamente o olhar para a paisagem exterior, para além da janela. Contudo, apesar de seu constrangimento, ela espiava curiosa as feições do capitão pela visão periférica. O riso do albino perante sua resposta automática, a fez crer que ele suspeitava do motivo de sua vergonha.
— Como ficava chamando meu nome, pensei que estivesse tendo um pesadelo e precisasse de ajuda.
— Maldito baixinho irónico! Ele sabe!
O tom avermelhado no rosto dela só aumentou a tonalidade, porém, ela desconfiava que a razão não era apenas constrangimento, mas sobretudo raiva. Apertou o punho, enquanto empinava o nariz, fazendo-se de desinteressada.
Hitsugaya não desmanchou seu sorriso, estava a gostar do jogo de provocações. Tendo a certeza que estava a brincar com o fogo, ele apontou para o canto da boca, indicando que estava suja de saliva. Quase tremeu de medo com o olhar mortífero que ela lhe lançou, mas acabou por focar-se em se limpar rapidamente, desviando novamente sua atenção dele. Ou pelo menos tentava.
— Anão de jardim convencido.
— Como é!? Quem é baixinho aqui!?
Karin sorriu presunçosa, bastava falar na estatura do capitão que este esquecia tudo ao seu redor. Ela ia retrucar, provocá-lo, mas algo a fez mudar de ideias. Até aquele instante, talvez por ter despertado à pouco tempo, não tinha notado… Ela conseguia lembrar-se dele! Conduziu sua mão até seu olho, procurou, no entanto, não encontrou nenhum vestígio de gelo ali. Sorriu discreta, apesar de não ter passado despercebida.
— Idiota. Você foi imprudente com aquela decisão.
— Eu não podia deixá-lo morrer.
A certeza com que ela responde, sem sequer pestanejar, fez com que Toushirou a observasse carinhoso, apesar de ter escondido. Caminhou, lentamente, até estar ao seu lado, percebeu que estava nervosa quando ele aproximou seu nariz do dela, fazendo com que seus lábios se roçassem.
— E porque não?
Pensou em dizer que era por serem amigos, mas aquela resposta lhe pareceu absurda até mesmo para ela. Era óbvio que não era apenas isso… começou a gaguejar sem conseguir dizer nada em concreto.
— Acho que acabei por apaixonar-me por você, Toushirou.
— Acha? Deveríamos tirar essa dúvida…
Seus olhos arregalaram-se quando Toushirou a beijou atrevidamente. Foi diferente dos outros… Apesar haver um toque intenso, que forçava a abertura de seus lábios, não perdeu sua inocência. Em nenhum instante, sentiu que algum toque fosse malicioso, nem mesmo quando a mão de Toushirou subiu pelas costas de Karin ou quando ela arqueou a coluna, em resposta, colando seu corpo no dele. Um beijo que demonstrava sobretudo saudade e não exigência.
— Nunca pensei que amaria a filha do meu taicho… é a certeza que terei um futuro problemático. – Apesar de ficar ligeiramente corada pela confissão, não deixou de rir normalmente.
Na verdade, nenhum dos dois estava propriamente surpreso pelas declarações. Ambos sabiam o que sentiam. Somente tiveram a necessidade de expô-lo em palavras.
— Está com medo, Toushirou?
— Isso me soa como um desafio.
O olhar cúmplice refletiu-se no beijo, Karin ergueu a perna até à cintura do albino, o puxando para si, uma clara provocação. Riam entre mordidas, como se estivessem jogando. O kimono branco foi descendo mais visivelmente, a ponto de modificar a aura inocente da habitação do quarto esquadrão. Hitsugaya conseguia sentir o mamilo enrijecido contra seu peito, como também conseguia vê-lo parcialmente descoberto. Apesar de manter seu autocontrole, suas íris escureceram, notando isso Karin sorriu de lado.
— Querendo aproveitar-se no primeiro dia de namoro?
Ele sorriu e quase acenou positivamente, voltando a beijá-la, introduzindo sua língua pelos seus lábios, enquanto a temperatura do quarto diminuía. As janelas já tinham acumulado gelo e os vidros ficavam esfumados. Karin gemeu baixo, com os arrepios que dominavam seu corpo. Gelo queima. Possivelmente por isso não desgostava daquele cenário.
— Vejo que já está melhor, Karin-chan.
O casal não se afastou, mas isso não quer dizer que não foram assustados. Antes, ficaram petrificados, abrindo os olhos de supetão quebrando qualquer prazer que ainda pudessem sentir. Mas mantiveram a proximidade, a perna de Karin na cintura de Toushirou, as bocas coladas… só quando Matsumoto gargalhou alto, Toushirou num movimento brusco afastou-se totalmente. Dirigindo-se para perto da janela, tentando controlar seu poder espiritual, completamente ruborizado. Karin, em contrapartida, escondia-se entre os lençóis tentando cobrir seu rosto.
Matsumoto, por seu turno, não perdera o olhar malicioso e muito menos tentava disfarça-lo.
— O taicho cuidou muito bem da Karin-chan, todo o esquadrão está falando disso. – Comentava desinteressada, como se não soubesse que aquilo que dissera tinha cativado a atenção dos dois.
— O que quer dizer com isso Rangiku-san?
— Oh, não sabe Karin-chan? A capitã Unohana e tenente Isane vieram aqui fazer-lhe os últimos exames, mas como estava ocupada acabaram por decidir aparecer mais tarde. Alguns oficiais também vieram para recolher outras análises, mas não ousaram interromper o tratamento do taicho… com certeza foi muito eficiente. Não sabia que o taicho tinha conhecimentos médicos tão apurados. Que capitão cruel escondendo coisas importantes de sua tenente!
Rangiku usava um tom dramático falso em seu discurso, aguentado ao máximo sua vontade de gargalhar do pânico escrito no casal. Por uns segundos, nenhum deles reagiu.
— Nani!? Rangiku-san isso é…! – A ruiva agarrou-se à sua barriga, não contendo mais a risada eufórica.
— Gomen, gomen, era uma brincadeirinha. Deviam ter visto as vossas caras!
Karin não sabia se devia suspirar de alivio, ou irritar-se com a tenente. Os risos histéricos, porventura a fizeram decidir pela segunda opção, cerrou os dentes prometendo silenciosamente uma vingança…. Sentiu um arrepio percorrer pela sua espinha, fazendo com que a sua raiva momentaneamente desaparecesse. Encarou, com um certo receio, para o seu capitão, perdendo praticamente toda a sua cor. A reaitsu deste emanava movendo o sobretudo de capitão, enquanto várias veias salientes pulsavam em seu rosto.
A tenente continuou a rir até se contrair pelo frio. Limpando as lágrimas de seu rosto olhou para Hitsugaya, ficando com a mesma reacção de Karin quando o avistou. Ou pior.
— Capitão… não fique assim por uma brincadeira inocente…
— Matsumoto!
O grito foi escutado por todo o bantai médico, e se não fosse por seus anos de experiência em controlar seu poder espiritual, teria congelado tudo até quatro quarteirões de distância. Em questão de segundos, Matsumoto perante uma oportunidade única de distracção fugiu usando o shunpo, disposta a esconder-se durante os próximos dias da fúria do capitão.
— Aquela irresponsável… irei retirar-lhe um terço do salário, dobrar-lhe a papelada… proibir-lhe as visitas ao Mundo Real durante um mês…- Ele continuou a enunciar inúmeros castigos enquanto a Kurosaki, sorria sem graça.
— Baixinho pervertido, aproveitando-se da Karin doente. Devia ter vergonha, um capitão agindo assim…
Karin tentou abafar seu riso com a almofada, enquanto escutavam em suas cabeças uma zanpakutou intrometida apimentar o caos.
— Vejo que tornaram-se bons amigos durante a minha ausência. – Porém, o comentário da Kurosaki não foi bem-recebido pelo albino que sentia estar prestes no meio de um colapso. As nuvens cinzentas cobriram toda a extensão azulada da Soul Society, começando a nevar.
— Não somos amigos!— Usou todo oxigênio que tinha naquele grito, ficando rouco. Com certeza, Toushirou era temperamental a pequenas travessuras de sua tenente irresponsável e sua actual aliada Fujin.
Algumas horas passaram, e a tempestade juntamente com a cólera do capitão foi cessando. Karin tivera alta, recebendo um sorriso amistoso da capitã perante sua rápida recuperação. O casal dirigiu-se ao décimo esquadrão. Eles não falaram muito, contudo o clima entre eles estava agradável. Todavia, um detalhe incomodava superficialmente a Kurosaki. Ela agora namorava Toushirou… Não dava relevância ao que os outros iriam pensar de sua relação por ele ser seu superior, contudo ela não era como Yuzu que gostava de passear de mão dada, mas do jeito que estavam também não lhe agradava, era como se fossem apenas amigos.
Olhou de lado, vendo Toushirou caminhar normalmente, ficando ligeiramente rosada. Talvez ela poderia fazer outra coisa, era mais chamativa que dar a mão, mas de certa forma também seria mais reconfortante para si. Com gestos tímidos ela aproximou-se e passou seu braço pelo dele, enrolando-o. O capitão ficou surpreso com essa atitude, procurando enxerga-la, mas não conseguiu ver a face de Karin que a escondia sob seu ombro. Ele sorriu discreto puxando mais seu braço a arrastando até ele. Andavam com as pernas quase coladas.
Ela ficou ligeiramente corada com os olhares que recebiam, mas optou por simplesmente ignorar. Se sentia bem. Era como se estivesse a passear com sua oka-san… quando era mais nova. Gostava de adormecer em seus braços calorosos que lhe transmitiam segurança; era um momento único. Ela estava feliz. Mas ainda assim estava desconfiada de algo, Toushirou estava quieto demais, distraído pensando em algo. Isso a incomodou. O que ele não lhe estava contando?
— Toushirou o que aconteceu? – Era um sorriso de canto típico do capitão de gelo se não fosse por seu olhar cabisbaixo, preocupando-a.
— Sabia que ia perceber. Não soube como lhe dizer antes, ainda não sei.
— Do que está falando? – Hitsugaya percebeu o desespero e o aperto em seu braço, suspirou, não a queria deixar ainda mais nervosa.
— A vovó de Rukongai.
Abruptamente, lembrou-se da única que a recolhera quando ela perdeu as memórias. Como podia ter-se esquecido dela? Será que ela estava bem? Seu peito apertava dolorosamente com a culpa. Sorriu minuciosa ao recordar de seus momentos de fim de tarde, e por ela ter sido também a avó que Toushirou lhe falava. Era alguém encantadora como suspeitara.
Novamente o aperto em seu peito a fizera abandonar essas lembranças focando-se naquilo que queria perguntar, porém a garganta secava só de tentar pronunciar aquelas palavras. Por isso aguardou, pacientemente, que ele prosseguisse. Entendendo o que a oficial pretendia, Toushirou procurou dar a notícia de uma vez, ele sabia que ela odiava rodeios tanto quanto ele.
— Ela não suportou os ferimentos, me perdoe. Quebrei minha promessa.
— A culpa não é…
Ela não conseguiu acabar a frase, um soluço traiçoeiro a interrompeu. Consequentemente, suas pernas ficaram ligeiramente fracas. Odiava chorar, principalmente em público, sentia-se fraca. Tremeu, ao perceber pessoas curiosas os observando, tentou esconder as lágrimas de seu rosto, mas não conseguia, ficando com raiva por sua infantilidade.
Toushirou soltou seu rabo-de-cavalo fazendo com que os cabelos negros caíssem por sua face, cobrindo sua expressão triste. Contornou a cintura da de Karin com o seu braço. Ela o encarou confusa e um tanto surpresa por suas acções.
— Sofrer com a perda de alguém não é fraqueza, Karin. Pode chorar, não se preocupe, ninguém vai notar.
Abriu mais o braço para encaixar o corpo da Kuroskai no seu, depositando a cabeça desta em seu ombro, fazendo com que ela escondesse o rosto em seus vestes, mordendo o tecido para não fazer barulho. Chorou como no dia em que perdeu sua mãe. Seu corpo tremia no abraço, e tal como Toushirou prometera, em nenhum momento, alguém percebeu suas lágrimas. Escondida pelo capitão, eles foram andando para dar tempo à Kurosaki de recompor-se até chegar ao esquadrão.
Toushirou podia ter parado a caminhada, mas conhecia a Kurosaki. Ela era orgulhosa demais para confessar que sofria, ela nunca se encostaria numa parede e choraria. Não era parte da sua personalidade, por isso prosseguiu com o trajecto.
O tempo foi naturalmente esfriando, o sol sendo trocado pelo brilho minucioso de incontáveis estrelas e pela Lua. Toushirou escrevia alguns relatórios em seu escritório, enquanto Karin ficara em seu quarto, dormindo. Quando suas costas começaram a latejar, ele rendeu-se e decidiu ir para seu quarto descansar, uma vez que Matsumoto também não aparecera. Apesar de ele ter suspeitado que isso ocorreria.
Quando ele entra nota Karin ainda descansando, respirando tranquilamente. Ele sabia que a morena só precisava de acostumar-se com a ideia, que logo iria recompor-se. Apesar de a vovó de Rukongai deixar saudades, sempre seria uma recordação bonita que era imperdoável esquecer. Mas uma lembrança que trouxesse felicidade e não tristeza.
Virou-se, retirando o sobretudo de capitão, quando fora surpreendido.
— Karin?
Subitamente, sentiu dois braços envolverem-se em sua cintura, enquanto descansava a cabeça em suas costas. Uma das mãos em seu ventre, subiu pelo seu abdómen, arranhando com a ponta da unha causando algumas cócegas. Mordeu seu pescoço, e brincava com o pé no seu tornozelo. Por um instante, com tantas emoções novas sendo descobertas a visão de Toushirou ficou turva.
Ele espiou sobre o ombro, encarando Karin com o cabelo negro solto, com um kimono desconhecido. Como ela arranjara aquela roupa praticamente transparente? Só um nome vinha à sua mente: Matsumoto. No entanto, não perdeu muito tempo em relembrar os disparates de sua tenente, engoliu em seco quando esta o encarou travessa, com os lábios sujos de…
— Quer chocolate, Toushirou?
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