A História de Karin
28 O Equilíbrio da Natureza
Notas iniciais
Karin fora emitida para seu mundo interior por Yukino. Ao reabrir os olhos ónix pode deparar-se pela segunda vez com a vistosa passagem alva. Nuvens cinzentas cobriam o céu cristalino, trovões rugiam furiosos fazendo com que pequenos cristais pairassem pelo céu. Diante da shinigami, os cristais se fundiam num só, em uma silhueta familiar. Yukino...
— Karin-dono se concentre.
— O que é suposto eu fazer, Yukino?
— Quatro estações, um objectivo.
— Nani? O que isso significa?
— Mestre, existem quatro estações que equilibram o mundo e por muito diferentes que sejam umas das outras, todas trabalham por um bem em comum: o renascer da Natureza. Nada existiria, se não fossem elas as quatro, nada haveria se elas não trabalhassem em sintonia pelo equilíbrio.
— Eu e o Toushirou temos de trabalhar em conjunto para eu alcançar a bankai, assim como as estações?
— Para a alcançar não mas para não sair lastimada, sim..
A Kurosaki suspirou fundo, levando uma mão até suas madeixas negras perdidas pela face, as arrumando no seu devido lugar. Todo o movimento, por mais minucioso que fosse, da sua parte era atentamente observado pela pequena albina.
— Tudo parecia mais fácil antigamente… Era mais simples combater aqueles monstros com a minha bola de futebol.
A albina gargalhou graciosamente, avaliando engraçada a pequena birra que sua mestre fazia. Para muitos humanos, e inclusive shinigamis, o mau humor desta era motivo de medo. No entanto para suas zanpakutous e para quem a conhecia melhor, era uma característica insubstituível da morena.
— E se eu falhar Yukino?
Um trovão rompeu o céu como um potente rosnado, como se Fujin estivesse presente no diálogo e recriminasse Karin pela sua falta de fé em suas próprias capacidades. Parecia que ouvi-a em sua mente a censurando: "Pequena shinigami, tens de confiar mais em ti." Yukino desmanchou seu sorriso, substituindo-o por uma feição cabisbaixa sem contudo perder a serenidade.
— As consequências podem variar muito… Depende até que ponto você esteja conectada com o Hitsugaya-Taicho.
— Compreendo.
Karin ergue seu braço direito, sentindo uma pequena brisa rodeá-lo, até em sua mão o ar se tornar espesso formando a sua zanpakutou materializada na forma shikai. Encarando Yukino ela ergue o outro braço, como se a invocasse... Um chamamento prontamente aceite. A albina caminhou em direcção de sua mestre, lhe apertando a mão e rapidamente se converte numa segunda katana cristalina. A Kurosaki cruza as duas, as encarando, emocionada.
— Eu gostei de ter-vos como zanpakutous. Só queria que soubessem disso…
No instante em que as duas lâminas chocam, uma fina lágrima fluía pela face da shinigami, temendo morrer pela segunda vez. Afinal, ela tinha medo… Temor de não rever sua família, seus amigos, e principalmente Toushirou… Ela queria sobreviver por eles, e por si. Seria egoísmo querer viver, desejar não morrer mesmo já estando morta? Ela, no fundo, só almejava uma oportunidade de ser feliz com aqueles que amava.
Ao concentrar-se, Karin apareceu numa dimensão escura. Não precisou de procurar muito por um eixo de luz distante, qualquer brilho destacava-se a léguas naquele manto negrume. Ela correu em seu sentido porém parecia que não saíra do mesmo lugar. Como uma partida de sua mente, ela enxergou madeixas albinas. Sorriu, sorriu muito.
— Toushirou!
A exclamação surtiu efeito, já que no segundo seguinte ele virou-se incrédulo para ela. Não sabiam dizer qual dos dois estavam mais surpreendidos por se encontrarem naquele local. Como um instinto de sobrevivência Karin estendeu sua mão tentando alcançá-lo. O capitão por sua vez ao assistir o movimento da sua recruta, alonga também seu braço para a tocar, sentindo os dedos de ambos roçarem levemente um no outro.
— Sutōmu no Aisu...
A pequena shinigami pronunciou o nome de sua bankai, segura, como se sempre tivesse usado e desfrutado daquele poder. Ela sentia-se estável com o pequeno toque do capitão. Estavam conectados, fitando-se mutuamente. Ela foi-se aproximando gradualmente para apertarem as mãos mas, fatalmente, Karin distraiu-se. Deparou-se com os olhos verdes clandestinos na retaguarda de Hitsugaya. O zombie! Por um milésimo de segundo ela teve medo, receou o que ele poderia fazer. E esse temor abalou a confiança da morena, fazendo com que a ligação entre os shinigamis quebrasse e ela fosse sugada pela escuridão. Toushirou gritou, tentando alcançá-la antes de sumir no entanto o zombie novamente interfere o agarrando-o, impedindo-o de socorre-la. A conexão fora quebrada.
— O que lhe fez maldito?
— Eu? Nada. Mas ela pode ter-se auto destruído.
— Como assim? O que quer dizer com isso?
— Logo o verá, com os seus próprios olhos… Desta vez lhe dominarei por completo, lixo.
Soul Society
Toshirou discutia mentalmente com o zombie porém a realidade prendeu sua atenção. Assistiu céptico a mudança física da Kurosaki; porque a cor de seu cabelo se aclarou para branco? O pronunciamento do ataque que ele ouviu em sua mente, agora saía dos lábios dela, e certeira o atingiu. Aguardou pela dor mas esta não veio, era como se os golpes de Karin o tivessem dado mais força e com isso recuperou o controle de seu corpo. Ele sorriu disposto a encarar a Kurosaki mas no segundo seguinte seu sorriso desmanchou-se para uma grito agoniado. Ele observa o estado lastimável em que ela fica, assiste à queda dela, não percebia como ficou ferida, talvez desgaste de poder espiritual. Ele não quis compreender só a quis socorrer, indo em sua direcção para a ajudar.
O tenente do terceiro esquadrão já estava inconsciente e Momo observava tudo, enciumada tanto pelo poder dela como pela atenção que ela novamente roubara de seu amigo de infância. Ela ergue-se com dificuldade observando Toushirou agachado com Karin a repousar em seu colo, procurando pelos ferimentos desta.
— Shirou…chan?
Hitsugaya pareceu lembrar-se da presença dos outros shinigamis encarando rapidamente Izuru para depois passar a olhar Momo. Ele analisou o estado de ambos e pode compreender que nenhum deles estava em risco de vida, suspirando de alívio.
— Quantas vezes terei de dizer Hinamori? É capitão Hitsugaya.
Mesmo a repreendendo ele sorria, divertido. Aliviado por os três encontrarem-se livres de perigo. A tenente emocionada limpa as lágrimas presas no canto do olho.
— É mesmo você, Shirou-chan… Estava tão preocupada! Já vejo a cara de felicidade quando a vovó de Rukongai vir que regressou…
— Não.
— Ahn?
— Eu não vou voltar.
— Como assim!? Shirou-chan nós podemos provar a tua inocência tudo ficará bem e…!
— Isto não é definitivo!
Toushirou exaltado acaba por falar alto demais, assustando Momo, que por reflexo se encolheu. Percebendo a sua atitude, ele suspira fundo e volta a ao tom regular.
— Este controle que eu tenho do meu corpo é temporário… Às vezes acontece. Mas durante poucos minutos, o hollow ainda habita em mim.
— Hollow? Mas não são zombies?
— É uma longa história… Não importa.
Ela une as mãos sob seu peito, chorando silenciosamente pela indiferença que ele demonstrava com ela. O encarando, segura no acessório preso em seu cabelo, esse gesto intrigou Hitsugaya.
— Shirou-chan eu… eu… eu te…
— Não diga nada Hinamori.
Ela abre os olhos surpresa, incrédula. Ele sabia o que ela ia dizer e não deixava-a falar? Ele não queria ouvir a sua declaração? Lágrimas fluíam agora livremente por seu rosto.
— Por quê?
— Irá se arrepender por dizer tais palavras.
A desolação por ser rejeitada a cegou de raiva, enrugando a testa numa expressão furiosa.
— Eu nunca me arrependeria por revelar os meus sentimentos!
— Mesmo que não seja correspondida? Mesmo que não haja nenhuma hipótese?
Momo o fitou, perdendo sua firmeza, compreendo suas palavras. Ele amava a Kurosaki, ele nunca ia sentir nada por ela… À medida que esses pensamentos se firmavam em sua mente, sua cabeça ia-se agachando. O beijo não correspondido e mal aceite fora a maior prova da inexistência de seu amor por ela. Porque se iludia ainda em poder ser correspondida?
— Mesmo que esteja confusa e não saiba o que realmente sente?
— O quê?
Incredulidade estava descrita no rosto da tenente que olhava o albino. Ele duvidava de seus sentimentos? Ela estava "confusa"? Ia gritar com ele mas reparou que ele não a encarava e seguiu o seu olhar encontrando Kira. Só agora vendo a profundidade dos seus machucados e da quantidade de sangue se alarmou. Esquecendo completamente o diálogo. Mas foi nesse instante que ela percebeu o que o seu amigo lhe tentava dizer. E se ela, na realidade…
A tenente volta-se para ele, desembainhando sua zanpakutou, baralhando o capitão e gelo.
— É meu amigo Shirou-chan… Não o posso deixar aqui, precisa de voltar. Mesmo que seja à força.
— Eu não irei permanecer assim durante muito tempo Hinamori.
— O capitão Kurotsuchi pode lhe ajudar!
— Não creio muito nisso…
Riu de lado, recordando suas discussões cordiais, na sala de reuniões com o capitão, temia o que ele ainda faria com seu corpo. Além do mais, ninguém sabia o que fazer nem mesmo o melhor cientista da Soul Society.
— Vem comigo… Volta… Por ela.
O albino arregalou os olhos. Ele escutara bem? A franja que cobria os olhos achocolatados era a confirmação que estava lúcido e que sua cabeça não fantasiava. Momo o estava a apoiar na relação com Karin? Sorriu largamente, reencontrando finalmente sua amiga de infância.
Ele usa o shunpo aparecendo ao seu lado. Ela assustou-se com a repentina aproximação, mas logo sua surpresa fora substituída por dor ao receber um soco em seu estômago, fazendo-a ficar inconsciente. E antes de ela se entregar completamente à escuridão, simplesmente escuta:
— Arigato, Hinamori.
Delicadamente, Hitsugaya a deposita ao lado de Kira e desloca-se até a Kurosaki. Ele ajoelha-se, próximo dela, apoiando a cintura desta em sua perna enquanto com uma mão a segurava pelo pescoço. Seu corpo vibrava com a tentação ao encarar os lábios entreabertos e não suportando a saudade que o consumia desde a separação violenta, ele uniu sua boca na dela. Recordava, triste, o primeiro beijo que tiveram… Ele planeou tudo de uma forma diferente mas nada fora do jeito que ele pretendia. Inesperadamente, ele começa a sentir dores fortes no peito e percebe que já não tem muito tempo.
Ao carregar Karin, sua atenção se foca em seu olho direito e por algum motivo desconhecido ele se sente culpado por algo. Como se ela sofresse e ele fosse o responsável por tal dor.
Clandestinamente, Toushirou consegue transportar os três shinigamis inconscientes até o esquadrão médico. Tendo a extrema cautela para que ninguém o visse, ele os deixa num corredor com salas de atendimento, com certeza rapidamente alguém os iria socorrer. Abandona o quarto bantai para sumir tão prontamente quanto apareceu, todavia uma voz o apanha desprevenido. Encontrá-la não fazia parte de seus planos...
— Taicho!
— Matsumoto!?
— O senhor está bem! Eles conseguiram!
— Afasta-se!
— Taicho?
— É temporário… Tenho que partir para não machucar ninguém.
— Onegai... Não vá embora taicho! Não faça isso novamente!
— Conto contigo Matsumoto. Olhe por eles e pelo esquadrão… Sayonara.
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